Paulo Vaz deixa marca de autodescobrimento, esperança e apoio para pessoas transmasculinas, homens trans e toda comunidade LGBTQIA+
Instagram/Reprodução
Paulo Vaz deixa marca de autodescobrimento, esperança e apoio para pessoas transmasculinas, homens trans e toda comunidade LGBTQIA+

A comunidade LGBTQIA+ brasileira, principalmente pessoas trans, se comoveu na última segunda-feira (14) com o falecimento de Paulo Vaz, o Popó , aos 37 anos. Paulo era policial civil, influenciador digital e ativista transmasculino e gay, e lutava pelo direito de igualdade de pessoas trans no Brasil.  

Paulo também era conhecido por criar conteúdo na internet sobre as vivências de pessoas transmasculinas, o que gerou identificação da comunidade e visibilidade das demandas e particularidades desta população; incluindo a liberdade sexual de homens trans e transmasculinos, que podem experenciar desde a heterossexualidade até a bissexualidade, pansexualidade, homossexualidade, etc. 

Popó integrava a equipe do canal Põe na Roda e ficou conhecido por ter participado do quadro Homens Trans Respondem, em que abordava experiências da comunidade transmasculina e de homens trans. Foi ali que se destacou, trouxe à tona as especificidades de sua população e, mesmo sem querer, se tornou um espelho e uma figura marcante. Além de lá, ele recorrentemente compartilhava suas experiências em seu Instagram de forma descontraída.

A população transmasculina é uma das menos visibilizadas na sociedade, incluindo a própria comunidade queer . Com a falta de presença em espaços de grande alcance, Paulo Vaz representou para muitos a esperança de alçar voos cada vez maiores e de oportunidade. Por ser uma figura tão representativa e pioneira, Popó direcionou muitas pessoas trans para que, por meio dos conteúdos que ele produzia, conseguissem se encontrar dentro do amplo espectro transmasculino .

O iG Queer conversou com quatro pessoas transmasculinas e homens trans sobre como enxergam a trajetória de Popó e de que maneira foram impactadas pelo trabalho do ativista.

Lembrado em cada iniciativa que busque um amanhã melhor

“Conheci o Popó depois de me descobrir, por meio do Põe na Roda, mas queria ter conhecido antes. Acredito que se tivesse tido contato com o trabalho dele antes, meu processo de autoconhecimento e aceitação teria sido um pouco menos conturbado. Para mim, Paulo era inspiração. Eu, um jovem trans de 16 anos na época, aspirante a jornalista, me vi diante de outro homem transgênero, assumidamente gay e policial que reivindicou seu espaço e falava abertamente sobre as próprias experiências. Não tinha como não me sentir motivado. 

Popó me lembrava constantemente da importância de persistir nos meus objetivos, ainda que exista uma força muito maior que nos empurre constantemente para uma posição marginal. Ele me fazia ver que eu não sou menos qualificado do que qualquer homem cis, mesmo que seja isso que o sistema tente nos vender como verdade. O Paulo era uma luz, um farol para quem estava perdido e precisava encontrar abrigo dentro das próprias aflições. A jornada de pessoas trans costuma ser muito solitária, mas ele nos proporcionava uma dose de incentivo tão naturalmente que é como se fôssemos todos amigos dele mesmo sem o conhecer.

A meu ver, a perda dele reflete em toda a comunidade LGBTQIAP+, mas evidentemente atinge a nós, homens trans e pessoas transmasculinas com maior veemência. Ter que nos despedir de um dos nossos que tanto serviu de apoio e inspiração dói, porque só nós sabemos o quanto somos frágeis e vulneráveis, lá no fundo. A história e a luta dele não foram em vão, porém. Acredito que nossa comunidade o levará para sempre no coração e em cada ato político que busque um futuro mais otimista. Me sinto honrado por tê-lo como parte da minha história e trajetória. Me inspirar nele foi uma das melhores decisões que tomei. Obrigado, Popó. Onde quer que esteja, saiba que daqui estamos te aplaudindo de pé”.

Miguel Trombini, 20, repórter estagiário no iG Queer

O começo da jornada

“Eu conheci o Popó através do canal Põe na Roda, no vídeo ‘Homens Trans Respondem’. Já era inscrito no canal, mas não acompanhava tanto, comecei depois desse vídeo. Logo que me entendi trans, tive alguns rapazes trans como inspiração. Ele foi um dos primeiros. Quando vi que ele tinha um canal, lembro que assisti todos os vídeos porque eu o amei. Popó me influenciou pela força dele de se impor. Me influenciou a ser eu mesmo, sem medo de dar a cara a tapa, de ir à luta todos os dias, de correr atrás dos meus direitos. Ele foi minha força para não desistir dos meus sonhos, de tomar a testosterona. 

Sempre que eu tinha disforia, eu olhava as fotos dele e aquilo me dava forças e energia para não desistir. Por conta dele, comecei a compreender melhor o meu corpo e as pessoas com quem eu iria me relacionar. Abri mais a minha mente em questão de me relacionar com outros homens porque, por mais que eu seja bissexual, tinha tabus e medos toda vez que pensava em me relacionar com homens, seja cis ou trans. Comecei a ser eu mesmo, porque como a sociedade me impunha ser homem de verdade, eu tinha ações e falas forçadas para ser esse tal homem. Mas com ele entendi que ser homem de verdade é ser você mesmo, sem medo de pintar as unhas, usar roupas ditas femininas, gesticular, agir, falar… nada disso te fará menos homem. Tinha uma certa masculinidade frágil e ele me livrou disso, serei eternamente grato. Paulo significa força, resistência, luta, militância, tudo isso apenas por ter existido. 

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Sei o quanto Paulo nos ensinou e deixará ensinamentos. Paulo era doce, gentil, uma pessoa incrível com brilhos nos olhos, com leveza. Isso era notável mesmo pela internet. Era alguém leve mesmo quando militava. Paulo deixou o significado de ser você mesmo, sem medo do amanhã. Lute, resista, persista, dê a cara tapa, viva intensamente”.

Thomaz Yoshida, 19, estudante de design gráfico e influenciador digital

Valor da diversidade sexual

“Eu não conhecia Paulo pessoalmente, mas um sabia da existência do outro. Eu o acompanhava desde o ‘Homens Trans Respondem’, mas já conhecia o Põe na Roda há muito tempo por ser um dos maiores portais que a gente tem – por mais que eu não fosse o público-alvo. Antes, o site era mais voltado para a sigla G principalmente, mas acho que rolou muito essa mudança depois que começou o relacionamento do Pedro [HMC, marido de Paulo e criador do Põe na Roda] com o Paulo. Diretamente na minha vida, acho que o que mais influenciou foi saber da existência de um homem trans gay, porque lá atrás se tinha esse pensamento ignorante (que eu também tinha) de que pessoas trans teriam que necessariamente se relacionar com pessoas do gênero oposto. 

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Antes da transição, eu me identificava como sapatão. Saber da existência de um homem trans gay foi muito importante para começar a perceber minha sexualidade. Eu entendi que poderia vivenciar outras coisas, que posso ser um cara trans e bisexual e está tudo bem. Não é minha sexualidade que vai invalidar o meu gênero. Nós, pessoas trans, podemos ter todas as sexualidades possíveis, por mais que o afeto nos seja negado. A gente vê quanta violência esse casal viveu simplesmente por tentar viver o amor nesse mundo que prega tanto ódio. Para a população LGBT, principalmente a população trans, acho que Paulo era uma pessoa que representava a gente positivamente. 

De segunda para terça, fiquei pensando que eu nunca parei para entrevistar o Paulo. Lembrei de uma situação na minha antiga casa. Morei em três casas desde que saí da periferia na Zona Norte de São Paulo e vim para a região central, e foi na segunda que comecei minha transição. Meu vizinho de porta é muito amigo do Pedro e consequentemente virou amigo do Popó. Foi uma das primeiras pessoas que contei sobre a transição. A primeira coisa que esse vizinho me falou foi: ‘A gente precisa marcar um jantar para você conhecer o Popó. Você vai adorar ele. Quando acabar a pandemia, a gente marca isso’. A pandemia não acabou, então nunca aconteceu esse momento de viver esse encontro presencial em corpo e alma. Mesmo se eu não soubesse da existência dele nesse momento, a morte ia doer porque a gente é tão invisibilizado. Isso afeta nossa saúde mental, mas também foi um alerta para mim para olhar as pessoas trans ao meu redor. A gente está no corre e às vezes esquece de mandar mensagem, de se disponibilizar para alguém. O cistema vai ser sempre contra a nossa existência, então a gente tem que se fortalecer. A gente só consegue avançar na pauta trans se avançarmos todo mundo junto”.

Caê Vasconcelos, 30 anos jornalista e escritor

As várias masculinidades possíveis

“Ainda estou sem acreditar que mais um de nós foi suicidado por esta sociedade transfóbica que propaga o machismo estrutural e a cisheteronormatividade compulsória, injusta e cruel.  Parece que foi ontem que conheci Popó no YouTube do Põe na Roda e me inspirei na luta dele, na visibilidade que ele trazia, na quebra de estereótipos e no compartilhamento de informações. 

Ele é um exemplo de pessoa, de homem, de trans, de ativista e de profissional para mim e para muitos outros/as/es. Sinto muito por nossa perda. Popó ajudou-me a perceber que minha masculinidade não precisava seguir estereótipos cis, não precisava ser machista e muito menos heteronormativa. Ele ensinou a muitas pessoas não só parte do que somos como indivíduos, mas o que significava respeito e a nossa luta por direito, o que significava viver em um país que nos mata. Respeito e direito, são o mínimo que podemos buscar. E você, vais nos defender ou a violência observar?

Paulo Vaz é símbolo de direito,
De um buscar viver.
É a procura por espaço e respeito,
De fuga da estatística querer.
Mas que com essa crueldade do brasileiro,
Buscou outro lugar para ser!
Paz, Vaz”.

Lype Neves, 24 anos, ativista, artista e estudante de arquitetura e urbanismo

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