O grupo Queer Nation tinha agenda anti-heterossexual. Aumentou a visibilidade dos LGBT e tentou combater a homofobia. Na época, queer ainda era um insulto.
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O grupo Queer Nation tinha agenda anti-heterossexual. Aumentou a visibilidade dos LGBT e tentou combater a homofobia. Na época, queer ainda era um insulto.

A última definição oficial da sigla do  movimento LGBT ocorreu em 2008, na 1ª Conferência Nacional de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais. De lá para cá, outras letras foram incluídas de maneira não-oficial, mas não menos legítima, por reinvindicações sociais. É o caso do “I”, de intersexuais, do “A”, de assexuais, e do “Q”, que representa a palavra que dá nome à nova plataforma de conteúdo sobre diversidade do iG: Queer .

Mas, afinal, o que é Queer? Conversamos com o professor Leandro Colling, pesquisador de Estudos Queer da Universidade Federal da Bahia (UFBA), para entender a origem do termo e os seus usos.



Numa busca rápida na internet, é possível encontrar a informação de que o termo Queer surgiu na língua inglesa por volta do ano 1500, com o sentido de “estranho, peculiar, excêntrico, esquisito”. Em 1922, ele passou a ser utilizado como adjetivo, de forma pejorativa, para homossexuais, algo como “bicha, veado, boiola”, um xingamento.

De acordo com o pesquisador, esse xingamento era utilizado para qualquer pessoa que não fosse heterossexual ou cisgênero. “A etimologia da palavra tem a ver com algo estranho, que não é facilmente identificável. E isso foi pego para insultar quem, digamos assim, subvertia, de alguma maneira, as normas de gênero e sexualidade. Para nós [no Brasil], essa palavra não tem essa carga de insulto”, explica o professor.

Na década de 1980, nos Estados Unidos, surgiram grupos militantes que se autointitulavam Queer. De acordo com Colling, os principais objetivos desses grupos eram chamar a atenção da sociedade para a epidemia do HIV/Aids, que era ignorada pelo governo do presidente Ronald Reagan, e demarcar uma posição política de ir contra as normas e padrões sociais, heterossexuais e cisgêneros.

“Alguns desses novos coletivos, ao invés de se denominar LGBT, gay ou homossexual, passam a se autodenominar Queer, foi o caso do Queer Nation, dando outro sentido ao insulto e marcando uma posição política, não aderindo às normas. Essa era a ideia inicial”, afirma Colling.

Motivo de orgulho, o termo Queer vem sendo utilizado de maneira abrangente
Banco de imagens/Pixabay
Motivo de orgulho, o termo Queer vem sendo utilizado de maneira abrangente


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As atuações desses grupos e a forma como pensavam se tornou objeto de estudo e produção acadêmica. Em 1990, esses estudos foram reconhecidos como uma nova perspectiva teórica que passou a ser chamada de Teoria Queer.

Segundo o professor, a teoria critica as normas de gênero e sexualidade binárias [apenas homem ou mulher, homossexual ou heterossexual], possui uma pegada despatologizante e uma perspectiva de múltiplas identidades.

“No Brasil, muita gente acha que o Queer foi primeiro teoria e depois ativismo. Mas o Queer nasce de uma tensão social, de um racha, uma treta, como a gente chama. Depois tem reflexos, vai sendo pensado, até se constituir no que hoje nós chamamos de Teoria Queer”, explica o pesquisador.

Foi também no final dos anos 1980 e início da década de 1990 que, se orientando pelas grupos e pesquisadores que desafiavam as ideias normativas de gênero e sexualidade em seus escritos e ativismo, que algumas pessoas começaram a sair do armário como genderqueer, uma identidade de gênero não-binária.

De acordo com um texto de 2018 do site americano Them. , genderqueer pode ser um termo abrangente para qualquer pessoa que não seja 100% homem ou mulher. “Refere-se a alguém que se alterna entre os dois e a pessoas que se identificam como um terceiro gênero, generofluido, andrógino, dois-espíritos, pangênero e agênero, apenas para citar alguns”, diz a publicação.

O movimento genderqueer criou inclusive uma bandeira, de três cores (lavanda, branca e verde), em que cada uma delas representa possibilidades de gêneros não-binários como os citados pelo artigo.

Lavanda representa androginia; branco, os agêneros; e verde representa as pessoas cujas identidades não fazem referência a gêneros binários.
Banco de imagens/Pixabay
Lavanda representa androginia; branco, os agêneros; e verde representa as pessoas cujas identidades não fazem referência a gêneros binários.


“As nossas maneiras de lidar com a sexualidade e com o gênero variam no decorrer do tempo. Há 15 anos, nós, acadêmicos, e também muitas pessoas trans, dizíamos que as identidades trans, travestis e transexuais, eram variações da homossexualidade. Hoje, o movimento social entende que as identidades trans são variações das identidades cisgênero. Em um curtíssimo espaço de tempo, vimos uma grande transformação na comunidade LGBT. Várias pessoas se identificando como bicha não-binária, uma trans não binária... E a ideia de não-binária vem de uma pegada Queer”, afirma Leandro Colling.

Cada vez mais abrangente, o termo Queer vem sendo utilizado como um "guarda-chuvas" das várias possibilidades de gênero e sexualidade. Tudo o que é dissidente das normas sociais, o que não é heterossexual ou cisgênero.

“Isso tem problemas, especialmente na realidade brasileira. Muitas pessoas questionam se não apaga as identidades históricas. Tem seus limites e não significa que é um ponto pacífico”, reflete o professor. 

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