Saiba quais são as principais dificuldades enfrentadas por pessoas do espectro transmasculino
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Saiba quais são as principais dificuldades enfrentadas por pessoas do espectro transmasculino




Dentro da  letra T da sigla LGBTQIAP+ há vários nichos com diferentes demandas e espectros próprios. Quando as pautas transmasculinas são colocadas em evidência, por exemplo, há uma série de fatores que podem e devem ser debatidos, como o fato de que não há um padrão de identidades masculinas, ou seja, homens trans e pessoas  transmasculinas não-binárias  -- cujo gênero não é unicamente masculino ou feminino, mas se alinha ao masculino em algum momento -- podem se apresentar e vivenciar uma identidade de gênero das mais variadas formas.

Lune Carvalho de Freitas , ilustrador freelancer, por exemplo, nunca sentiu-se confortável em limitar sua identidade ao masculino ou ao feminino. “Coisas apenas de garoto ou apenas de garota não faziam sentido para mim, então me sentia desconfortável com essas limitações. Após uma reflexão durante a adolescência, comecei a me perceber como uma pessoa transmasculina, me identifiquei com relatos de pessoas trans e pesquisava o assunto, incluindo a dinâmica social que gira em torno do gênero e perceber o que de fato era escolha minha e o que me era imposto devido à minha genitália”, explica.


As diferentes formas de manifestar a masculinidade (que pode ou não estar de acordo aos estereótipos impostos) geram, por sua vez, obstáculos sociais e barreiras que excluem e invisibilizam corpos que não são cisgênero, pois normalmente eles não são considerados em toda a especificidade. Alex Fernandes do Nascimento, jornalista e produtor de conteúdo na agência edb comunicação , chama a atenção para o espaço de pessoas transmasculinas no trabalho.

“A falta de respeito no trabalho, por exemplo, faz com que muitos transmasculinos acabem no mercado informal, com rendas mínimas e sem perspectivas de carreira. Pela minha experiência no comércio, que abriga a maior parte dos trabalhadores, os ambientes não estão preparados. Falta orientação às equipes, correções administrativas e burocráticas, etc. Por exemplo, só o fato de não haver possibilidade de uso do nome social , já se nega o direito mais básico da pessoa trans que é de ser chamada como prefere”, diz. 

Luciana Tegon, atuante na área de Gestão de Pessoas e Consultoria Empresarial, conta que o mercado de trabalho ainda dá passos pequenos em direção a uma área que de fato contemple as pessoas transmasculinas e atenda às demandas. 

"Estamos engatinhando no tema acolhimento e inclusão de pessoas transgênero, vejo que ainda temos poucas pessoas no cenário corporativo. O que se nota é um movimento significativo nos últimos dois anos para a contratação de pessoas diversas, porém há uma grande distância entre a contratação de uma pessoa diversa e o acolhimento/integração da mesma no ambiente corporativo. O primeiro passo é a implantação de uma cultura na empresa que entenda, respeite e esteja preparada para não só receber as pessoas diversas, mas também manter a harmonia e o respeito na convivência diária, entender este universo e as ações de inclusão que podem ser implantadas para aproximar estes profissionais ainda mais da equipe”, pontua. 

Além do mercado social, os espaços sociais podem ser bastante violentos com pessoas transmasculinas. Alex ressalta algumas medidas de inclusão que estão se manifestando aos poucos em alguns locais, mas também chama a atenção para o fato de que nem sempre essas pequenas ações podem ser suficientes. 

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“Algumas pequenas mudanças vêm sendo feitas e são bem positivas — alguns shoppings e lojas em São Paulo, por exemplo, têm placas de aviso nos banheiros afirmando que pessoas trans são bem-vindas. É simples, mas oferece mais segurança. Ao mesmo tempo, será que os funcionários do local estão preparados para lidar com imprevistos? Sabem o que é e como utilizar nome social? A cada passo que se dá, faltam muitos outros”, explica.

Lune, por sua vez, observa que as pessoas têm evitado fazer comentários transfóbicos publicamente, o que simboliza algo positivo, mas traz à tona o acesso aos banheiros como um âmbito a ser mais discutido. Ele relata um caso em que não conseguiu utilizar o banheiro masculino em um bar.

“No banheiro masculino só existiam mictórios. Como estava muito apertado, disse à uma moça que estava na fila do banheiro feminino que sou uma pessoa trans e expliquei que tinha pego toda a fila, mas no banheiro só existiam mictórios. Eu disse ‘por favor, posso passar na sua frente ou usar este banheiro?’. Ela começou a gritar para o resto da fila que eu era trans, rindo e achando graça, como se eu fosse uma piada, e para ser sincero, foi assim que me senti: uma piada. Foi bem tenso porque não esperamos passar por esse tipo de humilhação pública, mas estamos suscetíveis a isso. Às vezes, não tenho controle sobre quais pessoas eu vou interagir, principalmente em espaços públicos”, lamenta.

Identidade X Expressão de gênero

Identidade de gênero e expressão de gênero, apesar de andarem juntas, são diferentes
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Identidade de gênero e expressão de gênero, apesar de andarem juntas, são diferentes


Identidade de gênero  refere-se a como o indivíduo se identifica e, portanto, quem ele é. Já a expressão de gênero é como ele se expressa, por meio de roupa, cabelo, acessórios e o uso ou não de maquiagem, por exemplo, fatores que estão bastante ligados ao que a pessoa gosta e como ela se sente confortável. Em vista disso, é equivocado relacionar diretamente a forma como a pessoa se apresenta a como ela se identifica. Alex conta que muita gente ainda não tem discernimento dessas divergências. 

“A sociedade está muito longe de entender e separar expressão e identidade, razão pela qual até as pessoas transmasculinas que se vestem ‘de acordo’ com o esperado ainda sofrem o chamado misgender [termo em inglês, derivado do ‘misgendering’,  usado para se referir ao ato de designar alguém a um gênero com o qual a pessoa em questão não se identifica]. As pessoas procuram por ‘sinais’ do gênero de alguém, se estiverem em dúvida. Mas, se veem um corpo transmasculino em um vestido, nem ficam em dúvida: já supõem automaticamente. Isso só vai mudar com uma reeducação estrutural extensa”, expõe. 

Lune conta que, para ele, os estereótipos clássicos de masculinidade, como demonstrar força e não esboçar sensibilidade, nunca fizeram sentido para si. “Eu não acho que essa é a melhor forma de esforçar, e esses estereótipos são muito reforçados, invalidando várias identidades, não só as transmasculinas, mas os homens gays afeminados também e até mulheres cis, lésbicas que se expressam de forma mais masculina e são lidas como homens”. 

Corpos transmasculinos na área da saúde

Quando se trata do atendimento e cuidado dos corpos transmasculinos, a procura por um serviço de saúde de qualidade tem obstáculos. Lune conta que os atendimentos privados, os quais ele já buscou, renderam experiências ruins, o que levou a iniciar uma terapia hormonal por conta própria. 

“Depois de um tempo, comecei a acessar o SUS [Sistema Único de Saíde] conforme o programa de tratamento de pessoas trans foi melhorando. Ainda acho que o protocolo é um pouco patologizante, mas não deixa de ser algo bom por ser gratuito e termos acesso a profissionais que saberão nos atender, algo difícil de conseguir na rede particular, na qual é complicado encontrar alguém que consegue lidar ou já teve pacientes trans”, relata.

Já Alex diz que percebeu uma melhora tanto no atendimento pelo SUS quanto pelo convênio, mas, apesar disso, ressalta que há muito a ser melhorado, especialmente na questão burocrática do atendimento. 

“Até pouco tempo atrás, a maioria dos atendentes não sabia como reagir, não entendiam pedidos sobre como ser tratado etc. Ir ao ginecologista era mais complicado ainda, especialmente em locais exclusivos para esse tipo de atendimento, pois a simples presença de um homem, quando lido como tal, era algo para o qual não estavam preparados. Agora, isso parece estar um pouco melhor. Mas ainda falta uma bela caminhada, é claro, mais ainda na burocracia. Usando o exemplo da ginecologia, é preciso entender que um paciente pode constar como gênero masculino e ainda assim ir a uma consulta ginecológica, mas os sistemas frequentemente não computam isso”, conclui.

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