É preciso pensar em políticas para homens trans com relação ao ciclo menstrual
Karolina Grabowska/Pexels
É preciso pensar em políticas para homens trans com relação ao ciclo menstrual


Entre alguns dos obstáculos encontrados por homens trans e pessoas transmasculinas não-binárias, o acesso a um atendimento ginecológico de qualidade, que os acolha e respeite é algo que merece bastante atenção. O ciclo menstrual em si pode causar muito desconforto, incluindo disforias e a sensação de não conformidade devido ao fato da menstruação ser associada única e exclusivamente a mulheres cis.

Michael da Costa Fernandes, estudante de fisioterapia e transgênero, explica que o ciclo menstrual afetou diretamente a saúde mental dele durante o processo de transição. “Eu estava com depressão grave no início da transição, então esse fator era algo que me feria muito, razão das tentativas de suicídio e mutilação. Até hoje, depois de oito anos tomando a medicação [anticoncepcional], às vezes acontece alguma coisa e a menstruação volta por um dia de repente em algum mês, e já foi motivo de recaídas e crises”, explica ele. 

Stephanie Chagas Feitosa, ginecologista obstetra, conta que no próprio meio da saúde o tema menstruação e pessoas trans não costumam andar de mãos dadas, sendo tratado como tabu. “Falar das pessoas trans ainda é um tabu mesmo no meio da saúde. Apesar de trazermos cada vez mais o assunto à tona e nos preocuparmos em incluí-lo nas explanações, ainda encontramos profissionais que resistem em se atualizar sobre o tema”, expõe. Ela ainda reitera o quanto a questão da menstruação é associada a mulheres cis e como isso acaba excluindo pessoas trans do tema.

“A menstruação ainda é muito ligada ao gênero feminino, o que faz com que não seja aceita ou não se aceite falar sobre sua fisiologia ou alterações. Por mais que saibamos que está ligada aos órgãos genitais de características consideradas femininas, em que temos mulheres cis que não menstruam e homens trans que menstruam, ainda há uma dificuldade em entender que a menstruação não é exclusiva do sexo feminino”, esclarece. 

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Michael comenta que se sente excluído de comerciais e campanhas relacionadas aos hábitos e ciclos menstruais, bem como iniciativas contra o câncer de mama, porque tudo isso é pensado para mulheres cis e não reconhece a vivência de homens trans e pessoas não-binárias transmasculinas como reais. Por sua vez, isso faz com que não existam muitos produtos e projetos voltados para essa população em específico. 

“Não tem nada sobre homens trans em qualquer que seja a campanha sobre menstruação. A mesma coisa sobre Outubro Rosa, que é de prevenção ao câncer de mama, todo o evento gira em torno do ‘ser mulher’ e não da pessoa com corpo feminino. Todos os comerciais sobre produtos para vaginas e seios têm total foco em mulheres, reforçando esse histórico de que só mulheres têm o corpo ‘feminino’. E isso é triste, todo homem trans que consumir esse conteúdo pode se afetar com disforia por ser sempre incluído numa coisa que o invalida e não respeita seu gênero”, aponta Michael. 

Ele ainda explica que muitos profissionais ainda não têm ciência das vivências das trans, de como lidar com elas e de quais são as necessidades específicas de alguém transgênero. “A maioria não sabe o que é uma pessoa trans ou já ouviram sobre, mas não entendem. Mas em nenhum momento eles tratam você com desrespeito, perguntam sobre para saber lidar melhor e utilizam os pronomes corretos e o nome social”, declara. 

Apesar da falta de iniciativas de modo geral, aos poucos estão surgindo no mercado produtos que podem ser muito úteis para a população transgênero, como as cuecas absorventes , por exemplo. Para Stephanie, essa é uma excelente opção e ela pontua algumas recomendações para manter a peça limpa e apta para ser usada com segurança. 

“Com a cueca temos menos chance de vazamentos, mais conforto e maior adaptação. Os cuidados principais devem ser na higiene do produto: se tiver fora de casa e precisar trocar, pode ser guardada numa bolsa com tecido impermeável; antes de lavar, é interessante deixá-la de molho em água limpa por pelo menos 15 minutos, após isso, pode ser lavada à mão com sabão neutro – como o de coco – ou na máquina de lavar; para secar, deixe ao sol com a camada absorvente para cima, ou em um lugar bem ventilado”, finaliza.

** Estagiário das editorias Queer, Canal do Pet e Turismo desde 2021, Miguel Trombini já passou pelas editorias Delas e Receitas. Produz majoritariamente para a página LGBTQIAP+ do iG e utiliza um pouco da experiência como homem trans e gay para oferecer o conteúdo mais completo possível acerca da diversidade sexual e de gênero.

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