Leonardo Guedes Pietro Morales Hernandes, respectivamente; ambos são homens trans
Arquivo pessoal/Reprodução
Leonardo Guedes Pietro Morales Hernandes, respectivamente; ambos são homens trans


processo de transição é um ponto muito importante na vivência de quaisquer pessoas trans. Falando sob a ótica transmasculina – que contempla  homens trans e pessoas trans não-binárias alinhadas ao masculino –, a terapia hormonal com testosterona e a mastectomia masculinizadora são os dois procedimentos mais atribuídos a esta população. Ambas medidas proporcionam à pessoa trans uma aparência com a qual se sinta mais confortável, além de aproximá-la dos estereótipos de masculinidade socialmente construídos e difundidos sobre a figura do homem.

Levando em consideração estes fatores, vale abrir o debate: existe pressão externa para que homens trans e pessoas transmasculinas se “masculinizem”? A discussão resgata o conceito de passabilidade, que basicamente consiste em: quanto mais uma pessoa trans se aproxima dos estereótipos estéticos socialmente atribuídos ao gênero com o qual ela se identifica, mais “passável” ela é – vale lembrar que não há consenso dentro da comunidade trans acerca do fato do termo “passável” ser correto ou não, e existem vários pontos importantes dentro desse tema. 

Pietro Morales Hernandes é homem trans, gay e psicólogo do Casarão Brasil . Ele conta ao iG Queer que descobriu-se trans há dois anos e ainda pretende realizar alguns procedimentos de transição. “Pretendo me hormonizar e fazer a mamoplastia. Por enquanto, fez parte do meu processo cortar o cabelo e fazer coisas que me fazem sentir mais masculino e reafirmam minha masculinidade, como cortar o cabelo e usar roupas ‘masculinas’”, explica ele. 

Ao ser questionado se sentiu-se impelido a se “masculinizar” em algum momento, Pietro afirma que sim, pois existe certa pressão imposta ao corpo transmasculino para que ele atenda uma expectativa cisgênero em termos estéticos. 

“Acredito que exista uma ‘cobrança’ social sobre a masculinidade que está relacionada principalmente à postura, à agressividade e à violência. Já ouvi relatos de outros homens trans de cobranças como ‘você quer ser homem, então haja como um’. São falas que expressam a cobrança de um estereótipo de masculino. Quando esse tipo de cobrança acontece, influencia diretamente na forma como nos colocamos no mundo. É uma cobrança de virilidade estereotipada que sufoca a expressão de uma masculinidade saudável e reforça a ideia de que, para ser homem, você tem que seguir um padrão do que é considerado socialmente como masculino”, explica ele. 

Leonardo Guedes  também é homem trans e gerente do  Torneira Bar – estabelecimento cujo corpo de funcionários é composto totalmente por pessoas trans. Ele conta que, em dado momento da transição, também se sentiu pressionado a corresponder aos estereótipos de masculinidade. 

“No início da transição vem toda a euforia e ansiedade de sermos vistos como realmente somos. Mesmo quando passamos a ter traços ‘masculinos’ e saímos do campo de visão do ‘feminino’, não é o suficiente perante à sociedade e à nossa crença de autoafirmação. Ao mesmo tempo, também nos colocamos nesse papel de ‘obrigação’ do estereótipo masculino”, comenta.

Leonardo também chama atenção para o quanto a questão da passabilidade, comentada anteriormente, pode ser perigosa nesses casos, uma vez que a pessoa trans se baseie unicamente nela para sentir-se satisfeita ao invés de buscar apenas pela satisfação pessoal consigo mesma. 

“Ela [a passabilidade] pode sim nos proteger e nos dar o conforto da falsa segurança, mas tem uma linha tênue que é extremamente perigosa. Quanto mais você se esconder atrás da passabilidade, maiores serão as chances de você esquecer de quem realmente é, de onde veio, como veio e se aprisionar em uma realidade cis que nunca vai lhe pertencer. Será só mais um sapato no qual você vai se apertar de novo apenas por um enquadramento. Por isso é importante estarmos cada vez mais entre nós, compartilhando experiências, vivências e afeto”, elucida ele. 

Para Pietro, a forma como as pessoas abordam homens trans mais próximos dos estereótipos de masculinidade é diferente da forma como abordam homens trans que não se aproximam tanto desses estereótipos, pois nesses casos a pessoa transmasculina não é posicionada socialmente de acordo com o gênero com o qual se identifica, como se “faltasse algo” nela.

“Existe uma resistência em relação ao que é considerado como masculino e como se deve expressar esta masculinidade. Se você foge desse estereótipo, a impressão que dá é que você é menos aceito socialmente como homem. Isso já acontece com homens cis gays considerados afeminados, por exemplo. Para homens trans, é um obstáculo a mais para a aceitação e é exatamente essa mentalidade que traz frases como ‘você deveria agir/se parecer como homem’”, explica. 

As consequências emocionais e psicológicas da pressão pela masculinização

Ao serem questionadas sobre o possível impacto negativo da pressão em se masculinizar, ambas as fontes responderam positivamente. Pietro, por exemplo, chama a atenção para o fato de que a leitura externa que as pessoas fazem do indivíduo trans causa um choque muito grande, afinal a existência dele está sendo praticamente negada apenas pelo fato de não corresponder às expectativas vigentes.

“Se colocar socialmente como transexual já é um processo complicado que envolve como você se vê e como o mundo te interpreta. Quando você se percebe e faz coisas no sentido de expressar da sua forma a masculinidade e isso não é validado socialmente, torna-se muito frustrante. É um choque entre a expectativa de ser você mesmo e o que é esperado a partir do momento em que você se percebe um homem. Esse choque pode ser bastante adoecedor partindo do princípio que a sua expressão da masculinidade não é considerada aceitável – que é o que normalmente acontece quando se foge dos padrões aceitos socialmente. O fato de não ser lido como um ‘homem de verdade’ já é algo que transmasculinos enfrentam, mas quando se foge do perfil de masculinidade esperado é ainda mais expressivo”, esclarece ele. 

Leonardo aponta ainda que toda essa exigência pode empurrar o homem trans para um limbo na busca pelo “corpo ideal”, deixando-o à mercê de todos os estereótipos e marginalidades socialmente construídas, incluindo o próprio patriarcado – ou seja, ser um homem trans não exclui ninguém de reproduzir machismo, por exemplo. 

“Essa pressão se transforma em uma busca incessante e frustrada do corpo, da passabilidade e da masculinização ideal. Esse processo é totalmente frustrado, porque para cada indivíduo existe um tipo de masculino, o que também é confundido com machismo. Muitos caem nessa armadilha que para se mostrar másculo é necessário ter o comportamento machista”, esclarece. 

Identidade de gênero VS. Expressão de gênero

A diferença entre como alguém se identifica e como se expressa também é uma pauta constante no meio transgênero. O principal ponto é que a forma como a pessoa se veste, corta o cabelo, se usa ou não maquiagem, entre outros aspectos estéticos, está relacionado a como o indivíduo se sente confortável e do que ele gosta ou deixa de gostar, e não de quem ele é. 

Leonardo declara que o desconhecimento quanto à diferença entre identidade de gênero e expressão de gênero é um dos fatores que mais alimenta essa engrenagem transfóbica que empurra homens trans e transmasculinos para a pressão da masculinização. 

“Essa pressão vem de várias formas. Tanto da forma como a própria sociedade mantém-se em um looping infinito de enquadramento, da necessidade de colocar cada pessoa em uma caixa com um único rótulo, como também de não saber as diferenciações entre identidade e expressão de gênero”, diz. Leonardo usa como exemplo o fato de que ser afeminado automaticamente faz com que perante a sociedade o corpo e a vivência do homem em questão, seja ele cis ou trans, tornem-se inválidos. 

“Muito se confunde com o fato, por exemplo, de ver um homem afeminado e concluir que ou ele é gay ou, por conta da feminilidade, ele quer ser ou se tornará uma mulher. Todos estamos suscetíveis a fluir entre os gêneros quando se trata de expressão. É retrógrado e sem sentido achar que todos, enquanto seres humanos, sempre serão 100% masculinos ou 100% femininos em termos de de se vestir, por exemplo”, enfatiza. 

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