Não mudar comportamentos e querer
Kampus Production/Pexels
Não mudar comportamentos e querer "corpo perfeito" para ontem são fatores que podem atrapalhar os resultados dos exercícios físicos

A realização regular de atividades físicas é um pilar importante para a saúde e bem-estar – e, no caso de pessoas LGBTQIA+ , pode auxiliar em questões de  adequação corporal e aceitação. No entanto, até mesmo o que faz bem pode passar a fazer mal caso seja realizado de forma equivocada e em excesso. No caso dos treinos, esse tipo de atitude tem o nome de overtraining e pode comprometer significativamente o corpo – às vezes de forma severa.

O ato de treinar em cargas maiores ou em frequências excessivas podem sobrecarregar o físico e impactar diversas partes do corpo. Entre as consequências estão lesões agudas que, se não tratadas, podem resultar crônicas. Além disso, desequilíbrios hormonais, fadiga em excesso e elevação da frequência cardíaca de repouso podem ser desenvolvidos e impactar diretamente o cotidiano. 

Apesar de comprometer mais pessoas que realizam exercícios físicos de forma mais intensa, como atletas, o overtraining é um alerta para pessoas que tentam ir além dos limites do corpo na hora de treinar. Muitas vezes, esse desejo exacerbado de realizar exercícios físicos pode estar conectado com algum tipo de pressão estética ou de “melhorias” como ganho de músculo ou de força.

No entanto, o personal trainer Lucas Benaglia Alfaia afirma que é muito incomum que haja registros de overtraining na população geral. “As pessoas no geral acham que estão treinando pesado quando na verdade não estão. A tendência da maioria dos praticantes de musculação que conheço, por exemplo, é parar o exercício quando a sua percepção de esforço é aumentada. Ou seja, quando o exercício começa de fato a ficar difícil, eles param mesmo aguentando mais”, explica.

A motivação por trás do desejo desenfreado de treinar pode estar ligada a alguns outros fatores, que podem principalmente estar ligados a questões de autoestima e autoimagem. Alfaia afirma que o imediatismo que se tem vivido com a era digital também influencia que as pessoas queiram resultados mais rápidos.

“Muitas pessoas querem tudo para ontem e acham que quanto mais, melhor. Há uma presença de pressão estética envolvida”, explica. Desta forma se ignora os processos do corpo que resultam nas mudanças físicas, às vezes mais desejadas do que a melhoria da saúde em si. “Da mesma forma que as pessoas não ganham peso do dia para a noite, elas não irão emagrecer do dia para a noite nem ganhar músculos dessa forma, por exemplo”, ressalta.

Alfaia explica que essas questões psicológicas podem melhorar ou piorar a qualidade e os resultados dos exercícios físicos. Há a possibilidade de melhora caso o indivíduo tenha disciplina, constância e paciência. Não largar a academia ou a prática esportiva escolhida em um ou dois meses faz toda diferença para isso.

No entanto, pode atrapalhar caso a pessoa pense que a aparência física dependa totalmente do treino. “Para que ocorram resultados expressivos, não adianta treinar muito e ter uma alimentação não balanceada, por exemplo. O processo da obtenção de resultados também é algo muito comportamental, não só fisiológico”, aponta.

Leia Também

Leia Também

Como o treino correto deve ser montado?

O personal trainer explica que é difícil prever qual o padrão correto de carga e de periodicidade de treino, já que isso muda de acordo com as necessidades de cada indivíduo. “Isso é multifatorial e leva em conta aspectos internos e externos. Depende do tempo da sessão de treino, se o indivíduo faz dieta ou não, boa qualidade de sono, níveis hormonais controlados e questões genéticas, por exemplo”, explica.

Alfaia, no entanto, afirma que algo que funciona para todas as pessoas é periodizar o treino, dividindo cada período em cargas mais altas e mais baixas. “Não é somente o músculo que precisa se adaptar às cargas impostas pelo programa de treino, mas também os tendões e ligamentos”.

Cuidados com saúde mental devem estar alinhados

O psicólogo Alexandre Bez afirma que não necessariamente um treino excessivo está ligado a questões estéticas. “Qualquer pessoa pode exagerar e prejudicar seu corpo e outras partes dele, causando um efeito cascata”, diz.

O profissional explica que os exercícios físicos devem ser encarados e priorizados com a finalidade de saúde. Esse cuidado se estende ao físico, mas também impacta diretamente a saúde mental. Afinal, devido à liberação de serotonina, o hormônio da felicidade, as atividades físicas são de extrema importância para complementar tratamentos de quadros de transtornos mentais e comportamentais, como depressão, ansiedade e transtorno de bipolaridade, por exemplo.

Essa busca pelos exercícios também pode ser um reforço intenso para as questões de autoestima, autoconfiança e de conforto com o próprio corpo. Bez afirma que, além do acompanhamento com personal trainer, é importante que qualquer indivíduo (com questões de autoestima baixa ou não) busquem por terapeutas para que a mente possa acompanhar o progresso do corpo.

“O acompanhamento psicológico é válido para todos, inclusive para atletas, para equilibrar pensamentos, relacionamentos pessoais e profissionais. Esse apoio faz com que a compreensão dos sentimentos seja um benefício para mente e para o corpo”, salienta.

Agora você pode acompanhar o iG Queer também no Telegram! Clique aqui para entrar no grupo .

    Veja Também

    Mais Recentes

      Comentários