'Uma voz que não se calava', diz Maria Eduarda sobre paixão pelo universo feminino
Arquivo pessoal
'Uma voz que não se calava', diz Maria Eduarda sobre paixão pelo universo feminino

Formada em Engenharia Química e pós-graduada em Administração Industrial, Maria Eduarda Henriques, de 55 anos, ocupou cargos de diretoria dentro e fora do país. Com estabilidade financeira e um casamento aparentemente feliz, a moradora de Santos, litoral de São Paulo, teve dois filhos: Helena de 22 anos e Rafael de 19, e viveu como um grande executivo com pano de fundo de uma família tradicional.  Durante anos, ela se identificava com o universo feminino, mas, como se sentia atraída por mulheres, tentava repreender este sentimento e só muito depois foi descobrir que era transexual.

"A lembrança mais antiga que tenho é de usar roupas da minha mãe e da minha irmã escondida, aos sete anos. Embora, naquela época, a questão da masculinidade fosse muito forte e eu não me sentisse bem nesse tipo de papel", disse em entrevista ao GLOBO.

Ao identificar comportamentos diferentes em si mesma, Maria conta que começou a se reprimir e a desenvolver uma personalidade introvertida. Por conta da atração por mulheres, ela diz que se sentia completamente perdida.

"Não me identificava com meu gênero, mas tinha interesse por alguns papéis convencionais. Queria formar uma família, ter filhos e passava noites rezando para que tudo isso desaparecesse, mas era como uma voz que não se calava", revela a engenheira.

Sem representatividade

Maria Eduarda Henriques conta que, à época, transexualidade era um tema restrito às travestis, vistas com muito desdém pela sociedade.

"Realmente não entendia o que estava acontecendo. Tínhamos poucas referências como a Roberta Close, que trazia algum tipo de identidade e ponto de vista do que eu sentia". 

Suporte da família

Mesmo sem saber quem era, Maria diz que sentia um grande amor pela ex-esposa, com quem viveu por 27 anos. Tanto que, em certa altura do casamento, ela passou a confidenciar a ela seus conflitos e, assim, as duas foram felizes por alguns anos. Quando Maria decidiu finalmente fazer a transição, as duas se separaram.

"Eu imaginava que pelo fato da minha esposa ter convivido com esse processo durante anos pudesse me aceitar. Foi uma grande perda para mim, mas respeitei os sentimentos que fizeram com que ela desejasse não ter mais essa relação", conta.

Apesar do divórcio, ela diz que o apoio da família foi essencial durante todo o processo. Até mesmo a mãe, de 81 anos, lhe ofereceu amplo suporte emocional.

"Tinha muito medo de ser rejeitada, mas fui abraçada pela minha filha, mãe e irmã. Isso me deu uma base muito forte para enfrentar as dificuldades que eu sabia que existiam". 

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O filho mais novo, Rafael, de 19 anos, é portador de síndrome de down, mas também esteve ao lado da mãe.

"A percepção dele é muito diferente, mas tivemos a ajuda de uma psicóloga.  A medida em que a transição foi ocorrendo, ele foi vendo os fatos e hoje me chama pelos pronomes femininos, é muito gratificante ter meus filhos comigo". 

Transição em idade madura

Durante todo o processo, Maria contou com acompanhamento psicológico. Após terminar um contrato de trabalho, decidiu que era a hora de focar na transição. No início, começou com os hormônios e depilação. Por já ter quase cinquenta anos, ela revela que teve algumas dificuldades.

"Fiz várias cirurgias plásticas, como prótese mamária, e feminização da voz, mas não funcionou tão bem. Esses procedimentos são mais complexos quando a pessoa tem uma idade mais avançada". 

De executivo a empreendedora

Ao sentir a resistência do mercado em que atuava à sua transição, a engenheira decidiu inovar. Após uma viagem para os Estados Unidos, onde aprendeu diversas técnicas de joalheria, deu ínicio à Mina, empreendimento que toca com a filha mais velha, Helena.

Atuantes no e-commerce e com quase cinco mil seguidores nas redes sociais, elas fazem sucesso com padronagens feitas a partir de imagens de caleidoscópios de cerâmica com cobre e pedras preciosas.

Diante de um cenário em que 90% das mulheres trans no Brasil vivem em condição de rua ou de prostituição, ela se considera sortuda:

"Tive acesso a recursos e a familiares que me apoiaram, o que ajudou a minha decisão de assumir a minha condição". 

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