Representação de Sérgio e Baco com figura de Cristo no meio de ambos; configuração era usada para representar casais na Roma Antiga
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Representação de Sérgio e Baco com figura de Cristo no meio de ambos; configuração era usada para representar casais na Roma Antiga

Há muitas pessoas que acreditam que diversidade sexual, homossexualidade e religião são assuntos que caminham separadas desde os primórdios. No entanto, nos últimos anos, duas figuras canonizadas têm tido as sexualidades questionadas e podem ter formado o único casal de gays santos conhecidos no cristianismo. Trata-se das figuras de Sérgio e Baco, que viveram entre os séculos 3 e 4 depois de Cristo.

Os simbolismos que indicam que ambos formavam um casal gay começaram a ser levantados na sociedade há pouco tempo. Em 1994, John Boswell, um historiador estadunidense, apontou os sinais que indicavam que Sérgio e Baco podem ter sido um casal homoafetivo. Com isso, eles passaram a ganhar muita popularidade entre a comunidade  LGBTQIA+ cristã.

Toda trajetória conhecida em relação aos mártires, somada a essa nova interpretação, fizeram com que Sérgio e Baco passassem a representar as pessoas marginalizadas e perseguidas pelas autoridades por seguir a própria consciência ou coração, de acordo com texto publicado no The Legacy Project, site que tem como intuito a divulgação de pessoas importantes para a causa e cultura LGBT ao longo da história.

Admiradores dos santos afirmam ainda que o fato de a igreja católica ter contribuído para que os santos caíssem no esquecimento pode somar para o fato de que as histórias envolvendo a sexualidade de ambos sejam verídicas.

Quem foram Sérgio e Baco?

A existência dessas duas figuras já foi carimbada na história graças ao texto grego chamado de "A Paixão de Sérgio e Baco". Historiadores apontam que o texto pode ter sido escrito no século 5, século em que começaram a ser venerados. No entanto, ela os escritos narram acontecimentos entre os anos 305 e 311, quando Galério era o imperador romano.

Ambos eram soldados cristãos de alta patente que mantinham a religião em segredo, já que, naquele período histórico, o cristianismo era proibido. Àqueles que se mostrassem cristãos eram perseguidos, torturados e mortos. No império romano, era comum a adoração a deuses pagãos e a realização de rituais e oferendas.

A religião de Sérgio e Baco teria sido descoberta quando, na presença do imperador, ambos se negaram a realizar oferendas em um templo pagão com o restante dos soldados. A reação de Galério, então, foi a de humilhá-los e levá-los a julgamento. Entre as humilhações, ambos foram acorrentados e obrigados a desfilar pela cidade com roupas femininas.

O julgamento de ambos foi feito na Mesopotâmia, onde foram julgados por um antigo amigo de Sérgio chamado de Antíoco, que tentou diversas vezes fazer com que os rapazes se convertessem às crenças pagãs. Com a resistência de ambos, Baco foi o primeiro a morrer aos murros.

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De acordo com o texto, o espírito de Baco apareceu para Sérgio no outro dia, pedindo para que ele se mantivesse firme. Assim, os dois poderiam se reencontrar em breve. Pouco depois, Sérgio foi decapitado. Devido aos episódios narrados no texto, ambos foram canonizados e se tornaram mártires.

Por que Sérgio e Baco seriam gays?

De acordo com a análise feita por Boswell, o primeiro indicativo de que ambos eram um casal gay está ligado à forma como a relação era descrita. "Unidos por um amor um ao outro" foi o termo usado nos escritos. De acordo com sua tese sobre o caso, publicada no livro "Same-Sex Unions in Pre-Modern Europe", essa era a forma como casais homossexuais eram identificados naquele momento.

A representação da imagem sacra de ambos também poderia ser uma prova. No século 7, eles foram representados com a figura de Jesus Cristo entre eles, em escala menor. Boswell aponta que era desta forma que casais eram retratados na Roma Antiga, simbolizando uma divindade que teria como função supervisionar a união matrimonial.

Entre outras evidências estão a suposição de que ambos tenham realizado um ritual chamado adelphopoiesis, que representaria "irmandade" e um vínculo que, por vezes, ia além do que se configura uma amizade; e o termo "erastai", grego para "amantes", usado para defini-los em um texto sobre o martírio.

A análise feita por Boswell intensificou ainda mais a adoração por parte de pessoas LGBTQIA+ cristãs que estavam em busca de figuras canonizadas e mártires queer. No entanto, há pontos de vistas de especialistas que refutam a homossexualidade de Sérgio e Baco.

Em uma entrevista em 2020 à BBC, o teólogo e filósofo Fernando Altemeyer Júnior afirmou que essa definição não era só impossível, como um "abuso histórico sem base documental". "O número de mártires homens e mulheres que são recordados juntos é grande. Isso não diz que havia homoafetividade. A crueldade contra os cristãos é suficiente para explicar o martírio sangrento", afirmou na época.

Na mesma entrevista, o pesquisador e fundador da Academia Brasileira de Hagiologia, José Luís Lira, ambos entraram para as Atas dos Martírios exclusivamente pelo ódio à fé que tinham. "Não há uma prova evidente dessa situação nem mesmo da contemporaneidade dos relatos com os mártires. Essa hipótese desponta principalmente no século 20. Ou seja, praticamente 1.600 anos depois que eles viveram", explicou.

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