Saiba quais são os principais cuidados e preocupações com a saúde do útero
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Saiba quais são os principais cuidados e preocupações com a saúde do útero




Saúde do útero e menstruação são termos majoritariamente associados a mulheres cis, porém é importante lembrar que existem outras pessoas que também possuem útero, podem menstruar e engravidar, se desejarem, como é o caso dos homens trans e pessoas transmasculinas. Para eles, ir ao ginecologista e atentar-se à saúde uterina é igualmente importante, contudo ainda se fala pouco sobre o acesso e as demandas dessa população na área da saúde. O fato é que, para a sociedade, ter um útero está diretamente relacionado a ser mulher -- uma interpretação transfóbica, pois exclui corpos que fogem da cisgeneridade.

Para Gabriela Mendes, ginecologista obstetra, ir ao ginecologista é mais do que avaliar a saúde do útero, pois é preciso conversar sobre rotina, cuidados em geral, a relação do indivíduo com o próprio corpo e quais são as demandas de cada um de acordo com seus hábitos. 

“É legal ir a um profissional que te avalie como um todo e converse com você sobre hábitos, rotina, relacionamentos e saúde mental. A consulta é importante para que você tire dúvidas, converse e para que um exame físico seja realizado de uma forma confortável. Alguns exemplos de temas que podem ser abordados numa visita ao ginecologista: planejamento reprodutivo (independente do desejo ser evitar ou planejar uma gestação), rastreamento de osteoporose (saúde dos ossos), rastreamento de câncer de colo do útero, de câncer de mama, avaliação de vacinação, tirar dúvidas em relação aos cuidados com acessórios, acompanhamento da hormonização e prevenção de ISTs (infecções sexualmente transmissíveis). Lembrando que tudo é individualizado para cada paciente a depender da sua demanda, hábitos e idade”, explica. 


De primeira é possível identificar duas demandas diferentes entre homens trans e pessoas transmasculinas: os que fazem terapia hormonal e os que não fazem, pois as necessidades e os aspectos fisiológicos nestes dois casos têm diferenças importantes entre si. Karen Rocha De Pauw, ginecologista, expõe alguns fatores comuns presentes do corpo de homens trans e pessoas transmasculinas que fazem terapia hormonal com testosterona. 

“Esse homem trans [que faz terapia hormonal] tem um nível de estrogênio menor, e geralmente esse útero dá uma atrofiada junto com os ovários, mas eles têm receptores de testosterona. Mesmo o homem trans que faz terapia hormonal continua tendo estrogênio, então as patologias que podem ser desenvolvidas são todas as que comumente acontecem: câncer de útero, pólipos e miomas”, esclarece. 

A ginecologista ainda chama a atenção para os sintomas mais comuns que podem indicar alguma patologia relacionada ao útero. “Geralmente sangramento, dor, cólica e aumento do volume abdominal. O tratamento vai depender de qual é a patologia de fato”. 

Gabriela ressalta também a importância de um acompanhamento multidisciplinar no caso de homens trans e transmasculinos que fazem terapia hormonal, pois é fundamental que se converse com um profissional sobre a intenção (ou não) de ter filhos, por exemplo.

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“É importante um acompanhamento multiprofissional. No primeiro ano de uso [da testosterona], é recomendado uma avaliação trimestral e, após, duas vezes por ano. Em relação à saúde ginecológica, antes de iniciar a hormonização é legal conversar sobre planejamento reprodutivo e criopreservação de gametas. Também é importante tirar todas as dúvidas sobre métodos contraceptivos, se for o caso, e pensar na melhor opção para você, lembrando que o uso de testosterona não previne gestação”, conta. 

Independentemente de se fazer terapia hormonal ou não, há algumas recomendações para garantir a segurança e saúde tanto do útero quanto da vagina, que incluem visitas a um profissional e a realização de exames específicos. Karen explica quais são esses procedimentos. “Se é realizada atividade sexual com penetração, é importante fazer os exames periódicos de Papa Nicolau e ultrassom transvaginal a cada dois ou três anos para verificar o colo e o corpo do útero”. 

Além dos cuidados médicos, é importante desenvolver hábitos do dia a dia que contribuam para a saúde do útero e da vagina como um todo, evitando possíveis desconfortos e patologias. A médica pontua alguns:

  • Manter hábitos saudáveis (atividades físicas, alimentação adequada e evitar álcool e tabagismo)
  • Deixar a vulva e a vagina respirarem: durma sem calcinha/cueca
  • Evitar duchas vaginais
  • Preferir roupas íntima de algodão 
  • Lavar apenas a vulva ao tomar banho
  • Não utilizar protetores diários ou desodorantes vaginais

Dentre as maiores preocupações com a saúde do útero, é possível destacar principalmente o HPV. Gabriela destaca que ele é transmitido pelo contato durante as relações sexuais (e não apenas quando ocorre penetração) e, na maioria das vezes, a infecção se cura sozinha em cerca de dois anos, sem que o indivíduo desenvolva sintomas. Apesar disso, há casos mais graves.

“Alguns tipos, os chamados de alto risco, são os com maior chance de causar lesões precursoras do câncer de colo de útero ou mesmo o câncer. As infecções podem ser latentes (detectadas por alguns tipos de exame, que nem todo mundo precisa fazer, eles têm suas indicações), subclínicas quando aparecem nos exames de Papa Nicolaou ou colposcopia e clínicas (quando formam verrugas, e geralmente essas são associadas ao tipos de HPV de baixo risco, ou seja, menor chance de causar o câncer de colo de útero). O tratamento e acompanhamento é feito dependendo do exame físico e resultado encontrado nos exames”, elucida. 

A invisibilidade no acesso ao atendimento

Tão importante quanto preocupar-se em manter a saúde do útero e da vagina em dia, é ter acesso ao serviço que proporcione um atendimento correto, mas esse é o oposto da realidade vista por homens trans e transmasculinos. Karen pontua como estes corpos são invisibilizados e se encontram à parte do sistema de saúde. 

“O homem trans é um homem que está perdido. Ele não tem um médico para ele. Há preconceito por parte do ginecologista que acredita que pode apenas ver mulheres quando, na verdade, ele deve atender quem tem útero, ovário e mamas, então a frequência de ida tanto de mulheres cis quanto de homens trans deve ser a mesma: ao menos uma vez ao ano”, diz.

De acordo com ela, muitos locais ainda se recusam a adotar o nome social de pessoas trans, então o constrangimento começa antes mesmo de entrar no consultório. “Gostam de falar o nome [de registro] em público e alto, então é algo que invade a privacidade da pessoa e a deixa pouco à vontade. Além dos médicos que não têm muito conhecimento sobre as vivências trans e falam que ‘é ruim’ e que estão ‘tomando hormônio que não é da sua natureza’ (no caso de homens trans que fazem terapia hormonal)”. 

A ginecologista reitera sobre o desconforto dos pacientes ao serem chamados pelo nome morto e conta que já teve contato com relatos que evidenciam como os corpos de homens trans e transmasculinos não se sentem à vontade em muitos consultórios. “Já ouvi e li relatos de homens trans que deixaram de ser atendidos por recusa do profissional da saúde, relatos de pacientes que foram atendidos, mas não foram respeitados e que o profissional queria saber a todo custo seu nome antigo. A maioria são relatos de pacientes que pingam em inúmeros profissionais de saúde e não conseguem criar um vínculo com nenhum por não se sentirem bem acolhidos. Todos que trabalham nos locais de saúde devem entender sobre identidade, expressão de gênero e orientação sexual, para que saibam respeitar e acolher qualquer pessoa".

Além do próprio sistema de saúde em si, a ginecologista comenta como os próprios comerciais de absorvente se voltam apenas para as mulheres cis, sendo que homens trans e transmasculinos também podem menstruar. “Acho que o mercado de absorventes ainda é focado em mulheres cis. Podemos perceber pelas cores rosa, flores e propagandas com mulheres cis. Mas acho que isso está começando a mudar, e espero que melhore cada vez mais! Uma marca de calcinhas absorvente (Pantys) lançou uma cueca boxer absorvente, precisamos de mais opções como essa, e precisamos que não seja uma exceção”, conclui.

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