Líder da Rede de Católicos LGBT explica sobre a importância da diversidade
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Líder da Rede de Católicos LGBT explica sobre a importância da diversidade


A psicóloga e pesquisadora Cris Serra integra a equipe de coordenação da Rede Nacional de Católicos LGBT, grupo que realiza reuniões, palestras e eventos a fim de compartilhar experiências de pessoas que compartilham da mesma fé. Os pais não frequentavam a igreja, mas foi a avó que lhe apresentou as primeiras orações e os ensinamentos sobre a doutrina.

“No colégio onde estudava, tive aulas de religião com uma freira, fiz primeira comunhão, crisma. Ali, me encantei por Deus, com quem desde muito pequena estabeleci uma relação muito pessoal, muito mística, era uma presença muito concreta na minha vida. Quando, no final da adolescência, comecei a entender sobre a minha sexualidade, entrei em conflito. Havia esse senso comum de que era pecado, de que era errado, mas eu não conseguia entender por que”, conta. 

Por ser lésbica, Cris cresceu envolvida em uma dualidade: enquanto tinha uma relação próxima com a igreja, o fato de “gostar de meninas” gerou uma confusão na mente dela. O preconceito à comunidade LGBTIA+ presente no catolicismo e demais religiões cristãs foi um dos fatores que fez a psicóloga se afastar por um tempo.

“Não fazia sentido: eu tinha aprendido que pecado era fazer mal para alguém, mas para quem eu estaria fazendo mal? Se seria uma experiência de amor? Enquanto eu tentava entender o problema, na dúvida se estava mesmo em pecado ou não, achei prudente me afastar da Eucaristia. Foi um período de profundo sofrimento, a experiência eucarística sempre teve um caráter muito profundo e místico para mim, e a ideia de que eu pudesse profanar aquela experiência de algum modo ou de que não pudesse mais partilhar dela foi muito dolorosa. Conversei com muitos padres, mas nenhuma resposta que eu ouvia fazia sentido. Até que, em duas situações diferentes, ouvi que eu tinha razão, que não havia problema e que todo amor gera vida. Dali por diante, fiquei em paz comigo e retomei o acesso à Eucaristia”, relata.

Segundo a psicóloga, a Bíblia é um conjunto de textos escritos em diferentes contextos culturais e diferentes momentos históricos. Por isso, muitas normas e comportamentos que ela prega não se adequam ao contexto atual. Ela diz que os trechos que hoje são lidos como proibições de relações entre pessoas do mesmo sexo é ampliado para condenar as pessoas LGBTQIA+ por serem quem são.

"Eles se referem a práticas que tinham um significado muito diferente da concepção que temos hoje das pessoas LGBTQIA+. É uma distorção aplicar seis ou sete versículos muito pontuais e isolados para condenar um conjunto de pessoas, se afastando por completo da mensagem geral e recorrente de acolhimento, respeito e celebração da dignidade de todas as vidas humanas”, salienta. 

Para Cris, a leitura distorcida se justifica muito mais pelo ódio contra pessoas LGBTQIA+ e pela segregação em uma sociedade preconceituosa. Ela acredita que é fácil "pinçar trechos" isolados e descontextualizados de textos escritos há milhares de anos para justificar violências e exclusões vigentes na cultura em nome de uma suposta “tradição”.

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"Ela ignora por completo a tradição de justiça social, a mensagem de amor incondicional e a ética de acolhimento e celebração de todas as pessoas, que são os eixos centrais dos Evangelhos, por exemplo”, diz.

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Falta de diversidade

De acordo com Cris, discutir sobre diversidade dentro de ambientes religiosos pode auxiliar no combate à intolerância em qualquer nível. “Em décadas recentes e, em especial na última, assistimos à consolidação de um cristianismo declaradamente intolerante, bélico e totalitário, imbuído de uma mentalidade imperialista e colonizadora. Um cristianismo coerente com projetos de poder que pretendem manter os privilégios de uns poucos às custas de desigualdades e injustiças para muitos. Um cristianismo moralista que se torna aliado e cúmplice de um certo ordenamento social, fornecendo símbolos, uma retórica e uma estética que reproduzem e reforçam sub-repticiamente um conjunto de valores e ideais, justificando a submissão e o silenciamento daquelas e daqueles mais inferiorizados, mais vulneráveis, mais violentados”, pontua.

Além disso, a violência sofrida pelo público LGBTIA+, defendida por uma parcela dos seguidores do cristianismo, passa a ser combatida no momento em que a igreja aceita pessoas LGBTQIA+. Cris destaca que é fundamental que a sociedade se deixe enganar pelo cristianismo criado à imagem e semelhança de um deus aparentemente desencarnado e abstrato, distante dos corpos e das experiências humanas concretas.

"Esse deus cristão, que está ao mesmo tempo em toda parte e em lugar nenhum, tem uma imagem muito específica e concreta: “ele” é um homem cis-heterossexual branco e viril. Esse é o corpo humano privilegiado que “ele” universaliza e sacraliza, em detrimento dos demais. É à imagem e semelhança desse deus que se configura e legitima uma igreja racista, machista, misógina e LGBTIfóbica, tão pouco preocupada em combater e reparar violências e desigualdades”, diz. 

A coordenadora esclarece ainda que espaços religiosos são feitos para, principalmente, acolher todos os cidadãos, e afirma que é muito potente a pluralidade de vozes que se erguem para denunciar um cristianismo posto a serviço de projetos de morte, violência e opressão e anunciar cristianismos emancipadores, que subvertem hierarquias e projetos de dominação e se colocam a serviço da justiça e da vida.

"São vozes que tomam a palavra desde corpos concretos, desde onde se situam no mundo, para dar testemunho de outras experiências de sagrado, de outras imagens de Deus, de um Deus infinito que se multiplica em possibilidades de existência a perder de vista, inclusive contraditórias. Vozes que revelam um Deus que se encarna e que santifica como Templos, como lugares de encontro com o sagrado, todos os corpos existentes e ainda aqueles por existir. Todos os corpos imagináveis, inclusive e sobretudo os dissidentes; inclusive e sobretudo os marginalizados; inclusive e sobretudo os vulneráveis; inclusive e sobretudo os violentados”, detalha.

Os pais de Cris não tiveram uma vida social em igreja, por isso ela não sofreu pressão da família ou de amigos para se enquadrar nas normas. “Sofrer a ameaça de exclusão, de expulsão das atividades, ou ver essa ameaça se concretizar. Minha experiência de fé era muito pessoal; eu ia à missa, mas eu não me integrava à vida social da igreja. Nesse sentido, eu me achava muito bem resolvida. Só quando eu cheguei ao Diversidade Católica do Rio de Janeiro, que foi o primeiro grupo organizado de pessoas católicas LGBTI+ aqui no Brasil, e pela primeira vez participei de uma missa em que todo mundo sabia plenamente quem eu era, eu entendi a violência da invisibilização, do silenciamento. Só quando eu vivi aquela primeira experiência entendi que sempre que eu entrava em uma igreja, para viver o rito máximo da minha fé, uma parte essencial da pessoa que eu era ficava do lado de fora. Não ter podido viver a minha fé como pessoa inteira, ver pairar por anos a sombra da ilegitimidade sobre a minha presença na igreja, ter que silenciar e esconder quem eu sou, essa é uma violência de base que leva a outras que as pessoas LGBTI+ sofrem em ambientes cristãos”, enuncia.

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