População LGBT encontra na pornografia uma forma de se conhecerem na juventude e reproduzem o que consomem ao longo da vida
Christian Buehner/Unsplash
População LGBT encontra na pornografia uma forma de se conhecerem na juventude e reproduzem o que consomem ao longo da vida

A pornografia está inserida no dia a dia de milhões de pessoas no mundo todo e a realidade do Brasil não é diferente. De acordo com dados de uma pesquisa realizada em 2018 pelo Quantas Pesquisas e Estudos de Mercado a pedido do canal a cabo Sexy Hot, 22 milhões de pessoas assumem consumir pornografia, sendo que 76% são homens e 24% são mulheres. A maior parte é jovem, com 58% sendo menor de 35 anos, de classe média alta, em que 49% pertencem à classe B e está em um relacionamento sério (69% são casados ou estão namorando).

Os principais motivos para o consumo de conteúdo pornográfico, de acordo com a mesma pesquisa, são: ver e aprender situações/posições; sentir prazer livre e individual; proporcionar a criação compartilhada e válvula de escape em casos de desilusão, solidão ou carência.

Embora a pesquisa não categorize a orientação sexual do público avaliado, há um recorte de gênero e as mulheres não consomem tanto. Portanto, se os dados são transportados para a realidade da comunidade LGBT+, não serão muito diferentes os motivos de consumir e o público que mais consome.

“A pornografia, por muitas vezes, é o único caminho em que um LGBT+ consegue conhecer mais sobre o sexo e seus desejos. Quando adolescentes, temos medo de expor sobre nossa orientação sexual ou identidade de gênero e ainda sofremos preconceito. Não existe material educativo para quem não é hétero-cis”, explica Lucas De Vito, 25, psicólogo focado em sexualidade gay, na luta LGBTQ+ e produtor de conteúdo digital.

“A pornografia entra em nossa vida porque é sigiloso, proporciona prazer rápido e uma descoberta a um mundo novo. O problema é que quando estamos com a personalidade sendo moldada, costumamos absorver tudo como uma verdade, inclusive aspectos de conteúdos adultos”, adiciona De Vito.

Lucas decidiu produzir conteúdo e falar sobre esses temas, pois enxergava uma falta desse debate dentro da comunidade LGBT por ser um homem gay: “Hoje se discute muito a pornografia para héteros-cis e pessoas brancas. Mas, para a comunidade LGBT+, isso tem um impacto muito maior. Temos uma autoestima mais fragilizada e assistimos pornô como meio de aprender sobre nossos corpos. Por isso, é necessário conversar sobre essas questões”, diz.

Lucas De vito em retrato com uma jaqueta rosa
Julio Souza

Lucas De Vito, psicólogo e criador de conteúdo digital

Grande parte da comunidade LGBT+, sobretudo a HSH (homens que fazem sexo com outros homens) passa por esse processo. 90% dos meninos (não categorizados por orientação sexual/identidade de gênero) são expostos à pornografia logo cedo, e isso contribui para uma idealização corporal e comportamental de seus parceiros ao longo dos anos.

“Ao consumir esse tipo conteúdo, há consequências que modificam completamente nosso sistema de recompensas. Temos um neurotransmissor chamado dopamina que serve para memorizar comportamentos. No caso do pornô, o excesso de estímulo faz a gente liberar uma quantidade muito grande de dopamina, fazendo nosso cérebro compreender que, para ter prazer, é preciso recorrer à pornografia. Então, atividades comuns, que liberam uma quantidade normal de dopamina, acabam se tornando sem graça, inclusive o sexo com outras pessoas, pois só queremos experiências e pessoas parecidas como as dos vídeos pornográficos”, defende o psicólogo.

Para ele, assim como em filmes e novelas, a pornografia tende a supervalorizar um padrão corporal, inclusive tamanho e aparência de partes íntimas, além do comportamento, pois o conteúdo adulto reproduz o que existe na sociedade e é uma das maneiras de reafirmar posições de poder e privilégio. Por exemplo, ao colocarem homens negros como aqueles que têm tamanho de pênis gigante e somente com o papel de satisfazer o outro, ou as pessoas gordas, que nem sequer aparecem em filmes de grandes produtoras.

“Por causa do pornô, acreditamos que precisamos de pênis enormes (ou até mesmo de pênis) para sentir prazer, o que é uma grande mentira. Há ainda a divisão: passivo e ativo, que esses filmes pregam. É dito que existem papéis definidos e que um ativo precisa se comportar como um homem hétero e comanda sempre a situação”, pontua Lucas.

“Entendemos que se não tivermos um pênis grande, o corpo malhado ou a pele clara, somos ruins, feios e perdedores. E como isso acontece desde a adolescência, isso está muito enraizado em nós. E, além do mais, somos incentivados a procurar pessoas com o mesmo comportamento e corpo vendido nos vídeos”.

Entretanto, o profissional ressalta que consumir ou não consumir contos eróticos, ou sites pornográficos é uma decisão individual, visto que a cultura da pornografia está em todo canto. “O que precisamos é conhecer nosso corpo pelos estímulos diferentes e fortalecer nosso eu interno, para lidar melhor com toda essa cultura do pornô, conseguindo ver além do que nos é ensinado”.

Nesse sentido, a psicologia pode ajudar tanto a nível social, quanto individual, pois consegue oferecer para as pessoas da comunidade um fortalecimento da autoestima, uma busca por prazeres mais saudáveis e uma relação muito mais ampla com o sexo. “E, para além da psicologia, a educação sexual nas escolas e unidades de saúde também pode contribuir para que a população LGBT+ entenda desde cedo as consequências de consumir pornografia e possam se relacionar melhor”, enfatiza.

Por produzir conteúdo consciente, ele recebe vários relatos de como o pornô afeta a vida de seus seguidores: “As pessoas me perguntam se devem se depilar, por exemplo. Elas esperam uma aprovação social pela baixa autoestima que o pornô pode causar. Existem mensagens implícitas em filmes e novelas que absorvemos sem querer. O mesmo acontece com o pornô”, conta Lucas.

Mas adverte que, mesmo que seja difícil, é possível ter uma relação saudável e duradoura dentro da comunidade LGBT+ que não seja baseada somente em sexo, mas precisa iniciar pelo próprio indivíduo.

“Quanto mais você se preocupa com uma mudança interna e fortalecimento do seu eu, você se torna mais consciente ao se relacionar com outras pessoas e visa atrair somente aquelas que têm objetivos e valores semelhantes”, finaliza.

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** Julio Cesar Ferreira é estudante de Jornalismo na PUC-SP. Venceu o 13.º Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão com a pauta “Brasil sob a fumaça da desinformação”. Em seus interesses estão Diretos Humanos, Cultura, Moda, Política, Cultura Pop e Entretenimento. Enquanto estagiário no iG, já passou pelas editorias de Último Segundo/Saúde, Delas/Receitas, e atualmente está em Queer/Pet/Turismo.

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