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Em "Auntie Diares", Kendrick Lamar fala sobre a própria relação com tio e prima trans; faixa causou polêmica por deadnaming e misgendering

O rapper Kendrick Lamar lançou seu quinto álbum de estúdio, "Mr. Morale and the Big Steppers" , na última sexta-feira (13). Entre as 18 faixas que compõem o aguardado disco está "Auntie Diaries", faixa em que Kendrick fala sobre sua relação com o tio e a prima dele, que são duas pessoas trans. A faixa dividiu opiniões e causou polêmica em pouco menos de uma semana de lançamento.

Na música, Kendrick passa por toda relação que teve com o tio desde a infância e revela detalhes sobre a transição de gênero dele. Aspectos como afastamento de familiares e ataques transfóbicos cometidos por pessoas conhecidas são citados.

"Minha tia é um homem agora. Acho que sou maduro o bastante para entender agora. Bebendo Paul Masson com seu chapéu virado para trás. De tênis, correntes douradas e cremes para cachos. [...] Vejo ele e sua garota de mãos dadas no topo da avenida e penso: 'Quero uma garota como essa quando eu crescer'", diz Kendrick nos primeiros versos.

"Perguntei para minha mãe por que meus tios não gostam muito dele. E nas festas o porquê de eles sempre quererem brigar com ele. Ela disse: 'Não dá para saber'. Os caras sempre tiveram inveja porque ele tinha mais mulheres, mais dinheiro e mais atenção. Deu mais inveja", conta pouco depois.

O rapper também aponta a influência do tio em sua vida pessoal e profissional, chegando a revelar que o tio foi a primeira pessoa que Kendrick viu fazendo rap. Ele se tornou um de seus principais apoiadores. "Foi a primeira que eu vi fazer rap. Foi aí que minha vida mudou".

Kendrick também aborda a criação LGBTfóbica que ele teve, tanto por parte da família como na escola, e aponta que esse tenha sido o motivo pelo qual ele reproduziu esses preconceitos em sua vida e em suas músicas.

"Quando era engraçado falar viado. 'Viado, viado, viado'. A gente não sabia o que sabemos hoje. Crianças da educação infantil são sem filtro. Mas minha tia virou um homem e eu tive orgulho disso. Ela não era gay, ela gostava de mulher, e essa era a diferença. Era isso que eu falava para os meus amigos da segunda série. Ela me buscava na escola e eles a encaravam muito. Eles não conseguiam compreender aquilo com que eu já havia me acostumado", lembra sobre a época da escola.

O rapper também inclui outra personagem trans em sua narrativa: a prima Mary-Ann, a qual Kendrick afirma que era "seu primo favorito" e a quem "retribuiu o favor e seguiu a tia com o mesmo comportamento". Ele afirma que o fato de o tio ter feito isso no passado auxiliou que sua prima se sentisse confortável a ser ela mesma.

Mesmo com a passagem do tempo, Kendrick aponta que a transição de gênero da prima foi ainda mais complicada que a do tio, já que a família dele teve mais problemas para aceitá-la. No entanto, ele afirma que isso foi algo natural para ele.

"Ele está mais confiante para viver seu plano agora. Mas a família não acredita dessa vez. Convencem a si mesmos de que ele não está vivendo discretamente, que ele está bem. Eles nunca viram as pistas nele, mas eu vi. As bonecas da Barbie refletiam Vênus. [...] Eu tomava bastante cuidado com o meu primo [na escola]. Eu sabia exatamente quem ele era, mas eu continuava o amando", canta.

O artista também relembra sobre um episódio em que defendeu a prima em uma missa. Ele explora a relação de Mary-Ann com a religião e afirma que a prima tinha uma "fé inabalável" por mais que fosse renegada na igreja. "Ele [o pastor] disse que meu primo estava passando por algumas coisas. Ele prometeu que o mundo em que nós vivemos era uma abominação e Demetrius [nome morto da prima de Kendrick] era o culpado", começa.

"Isso me fez levantar e te defender. Eu disse: 'Senhor Pastor, devemos nós amar o próximo? As leis do país ou do coração: o que é maior? Eu reconheço aquilo que ela foi ensinada desde o nascimento, mas isso não justifica os sentimentos do meu primo'. O prédio estava pensando alto, anjo mau. Foi aí que você me olhou, sorriu e disse: 'Obrigado'. O dia em que eu escolhi humanidade em vez de religião".

Kendrick revela que no mesmo dia Mary-Ann o questionou sobre o uso de palavras LGBTfóbicas em suas músicas. A prima teria ilustrado a Kendrick que ele não poderia usar a palavra "bicha" em suas músicas da mesma forma que uma pessoa branca não poderia falar a gíria "negão" ao cantar uma música dele. Esse fato chegou a acontecer em público quando Kendrick convidou uma fã branca para subir ao palco e cantar com ele em um show. Ela não censurou a palavra e deixou Kendrick desconfortável.

"Eu disse palavrões, eu não sabia de tudo. Erroneamente eu não achei que você pensasse diferente. Sabe, eu fui ensinado que palavras não são nada mais que um som. Se tudo fosse pronunciado sem intenções".

Polêmica

Apesar de Kendrick ter recebido muitos elogios pela faixa, "Auntie Diaries" causou controvérsia devido a alguns termos usados por Kendrick (como o uso da palavra "faggot", que em inglês significa "bicha") e pelo fato de o rapper praticar deadnaming – ou seja, citar o nome que seu tio e sua prima usavam antes da transição de gênero, o chamado nome morto –, prática considerada ofensiva e degradante para pessoas trans. Ele também se refere ao tio e à prima nos pronomes anteriores aos da transição de gênero, prática chamada de misgendering e que também é considerada ofensiva.

No entanto, fãs do rapper saíram em defesa do artista (incluindo pessoas trans e LGBTQIA+ ) que apontam que os termos usados na música vão mudando de acordo com a progressão da faixa. Isso porque "Auntie Diaries" também demonstra o amadurecimento e a conscientização do próprio rapper diante da convivência com pessoas trans em seu cotidiano.

Fãs também afirmam que o uso do nome morto e do pronome anterior tem conotação narrativa e salientam que, devido à proximidade e em sinal de respeito, Kendrick deve ter tido aprovação do tio e da prima para poder lançar a música dessa maneira.

Os internautas reforçam ainda que o fato de Kendrick abordar a transgeneridade em uma de suas músicas é um passo muito importante para a visibilidade trans devido ao grande alcance do rapper. Isso porque o assunto pode se expandir para outros públicos que podem não ter contato frequente com narrativas LGBTQIA+ – o que parece ter sido o caso do próprio Kendrick antes da transição de seus parentes.

Os homens heterossexuais continuam tendo mais presença no gênero musical. O rap é um dos gêneros que, no Brasil e no mundo, conta com letras que podem conter teores machistas, homofóbicos e transfóbicos. Com esses assuntos cada vez mais abordados e com pessoas LGBTQIA+ ganhando cada vez mais visibilidade e cobrando por mudança, essas posturas têm sido revisitadas por diversos artistas, que chegaram a usar suas plataformas para se desculpar e ainda visibilizar outros artistas que fazem parte dessas e outras minorias sociais.

No Brasil, por exemplo, Emicida e Criolo estão incluídos nessa leva de artistas que estão atualizando suas obras e que se desculparam publicamente por terem usado palavras ofensivas em trabalhos passados.

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