Lívia Ferreira (@afrocaminhao) e Lucas Caette (@lucascaette)
1. Reprodução/Instagram 2. Arquivo Pessoal/Foto de @lua.mpeg
Lívia Ferreira (@afrocaminhao) e Lucas Caette (@lucascaette)

A comunidade LGBTQIA+ está sempre lutando pelo direito de amar e existir livremente, pela maneira que são. Embora haja alguns direitos e mudanças conquistadas, a população preta da sigla, ainda ocupa um lugar de preterimento quando o assunto é o amor e o afeto. Isso se deve ao fato de que o Brasil é um país racista e seus desdobramentos continuam atingido todos os espaços em que há um corpo preto ocupando.

Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que a raça é o fator predominante na escolha de parceiros conjugais. Dados do Censo 2010 revelam que 70% dos casamentos no país ocorrem entre pessoas de mesma cor e que as mulheres pretas (27,8% da população) são as que menos se casam, sendo o casamento entre pessoas de mesma cor ou raça maior entre os brancos (74,5%), pardos (68,5%) e índios (65%), mas, neste caso, para a preservação dos povos.

E se os dados são transportados para o contexto da comunidade LGBTQIA+, não há muita mudança, pois o corpo preto continua sendo rejeitado ou usado apenas como objeto sexual, por meio de uma hipersexualização criada também pelo racismo, dando-lhes sempre um "não-lugar", porque ocupam espaços desconfortáveis na maioria dos casos.

Lucas Caette (@lucascaette)
Arquivo Pessoal/Foto de @lua.mpeg
Lucas Caette (@lucascaette)

Lucas Caette, 22 anos, artista e estudante de História da Arte na Unifesp, conta que para ele, sendo um homem gay preto afeminado, todos os dias é um desafio porque é sexualizado constantemente e, muitas vezes, o desejo do outro por ele é efêmero.

“Precisei passar por inúmeras situações para abrir meus olhos e me tocar que o meu corpo, visto como ‘mulato’ por eles, estava sendo apenas desejado e não sentido”, explica.

O jovem relata um caso recente em que foi vítima de assédio sexual seguido de racismo, o que engatilhou nele várias dores. Ele conta que estava em uma balada e quando foi ao banheiro, três homens gays brancos o abordaram (o trio era formado de um relacionamento poligâmico).

“O primeiro chegou e começou a puxar assunto comigo, perguntando a minha idade, eu respondi e continuei me olhando no espelho, então ele falou ter 40 e eu respondi que não parecia. Ele começou a puxar assunto e comentou que não via problema em ver seu marido, nem seu namorado beijando outros, eu já fiquei desconfortável nesse momento porque o marido dele e o namorado dele estavam do meu outro lado."

"Eu já queria ter saído de lá, mas do nada, ele começou a passar a mão nas minhas costas e não tive reação. Ele continuou me elogiando, com o marido dele. O namorado dele perguntou: ‘Nossa você colocou preenchimento labial?’, eu fiquei irritado e retruquei, dizendo ‘não, amor, é natural, sou preto e não preciso disso’", narra Lucas.

“Mas após eu dizer isso, ele contestou dizendo ‘você não é preto, olha seu tom’ naquele momento eu já estava esgotado com a situação, mas ainda falei educadamente ‘apenas não sou retinto, mas isso não apaga o fato de eu ser uma pessoa preta’", enfatiza.

Nesse momento, o outro homem que passou a mão em Caette, solta uma frase falando que ele também era preto porque tinha "nariz de batata", e o jovem não sabia mais o que fazer e o homem passou a mão novamente nele, mas agora em sua bunda e fez um comentário ironizando a situação.

“Ele soltou um ‘você deve estar acostumado a ser assediado porque você é tão gostoso'. Essa frase me pegou forte. Uma coisa é você ter ciência disso por ser um corpo sexualizado a outra é outra pessoa sendo branca dizer isso.”

Quando ele saiu do banheiro, apenas um homem entre os três pediu desculpa, mas mesmo isso não foi o suficiente para deixar o estudante menos traumatizado. Lucas conta que ficou estático em frente ao espelho e foi atrás de amigo em busca de ajuda.

"Fiquei sentado durante uns 10 minutos segurando a mão dele tentando digerir o que aconteceu, mas depois voltei para a pista de dança para não ficar pensando nisso, afinal não foi a primeira vez e não será a última”, desabafa.

O afeto na vida dele existe, mas quando o assunto é sobre relações homoafetivas, diz que chegou a se conformar com a situação, mas isso criou nele uma barreira que fez ele acreditar que não poderia sentir algo além do carnal ou até mesmo que não fosse merecedor de sentir o amor de outra pessoa.

“Após ter passado por tantas situações que fizeram eu me tocar que o que era desejado era apenas o meu corpo, chegou um momento da minha vida na qual era bem difícil acreditar que eu poderia ser amado por alguém ou que alguém estaria interessado por mim e não apenas pelo meu corpo. Tenho uma relação muito boa com ele, gosto de mostrar pele e ser quem eu sou. Amo sair do jeito que me sinto bem e vestir o que me faz bem e não permito que situações como essas façam eu me apagar ou me esconder”, finaliza o artista.

Lívia Ferreira (@afrocaminhao)
Reprodução/Instagram
Lívia Ferreira (@afrocaminhao)

A escritora Livia Ferreira, de 28 anos, uma mulher lésbica negra desfem (que não é feminina), expõe também como o racismo atravessa sua vida quando o assunto é o amor dentro da comunidade LGBTQIAP+ para corpos pretos.

“A sensação é de preterimento porque sendo um corpo negro hiperssexualizado ou rejeitado, ambos trazem consigo a solidão e clandestinidade. Você serve para satisfazer prazeres, nunca para ser amada ou visível”.

Por saber de todos esses problemas, em suas obras ela escreve sobre realidades possíveis, subvertendo esse lugar negativo que o racismo sempre busca reverberar.

“A minha escrita é feita para nos tirar desse lugar de dor e colocar em lugares felizes. Para além disso, escrevo para podermos ser protagonistas em livros lésbicos de romance, sem a sexualização dos nossos corpos."

Outro fato que ela pontua é sobre os esteriótipos criados dentro da própria comunidade, o que acaba afastando ou adoecendo mulheres negras, desfem, gordas e outras que estão fora do padrão e, em grande número de casos, relações de afeto para ela, que está inserida neste lugar.

“Fui em uma festa sáfica (termo guarda-chuva para mulheres que se relacionam com mulheres) e fiquei sozinha, além do fato de ter sido tratada como um homem por causa da minha desfeminilização. Ser comparada com um homem traz muitos estereótipos que me impossibilitam de ser tratada como uma pessoa. Esse estereótipo me coloca em um "não-lugar" na sociedade”.

O amor preto

Ambos concordam que os corpos pretos sofrem na procura de um relacionamento duradouro, mas Livia, atualmente está noiva de Hiana Santos, outra mulher negra, e comemora que, em meio aos processos traumáticos, conseguiu achar alguém para construir uma relação.

“O racismo nos coloca nesse lugar e acredito que hoje, no mundo em que podemos falar mais sobre isso, temos a chance de conscientizar pessoas negras e criar lugares seguros onde não ocuparemos esse espaço. Esse lugar que nos colocam foram criados por brancos, precisamos elaborar os nossos espaços”, enfatiza a escritora.

Ela conta que já se relacionou com mulheres brancas, mas diz que a diferença é enorme. “Agora me sinto compreendida e respeitada em relação às minhas questões enquanto mulher negra e consigo dialogar sobre elas com a minha noiva sem ter a sensação de que, no fundo, a pessoa não me entenderá”.

Caette também comenta sobre a importância de um relacionamento com outra pessoa preta em sua vida. “Meus relacionamentos sérios até o momento foram com pessoas pretas e a diferença é gritante, além de poder se sentir à vontade com seu cabelo e traços, você sabe que ali também tem outro preto à margem do racismo e da sexualização, e é como falam: ‘Nós pretos precisamos nos amar’ e demorou para eu entender isso”.

Rede de apoio

Tanto Lucas quanto Livia aconselham a importância de buscar ajuda para casos como esse. Ele acredita que esse tipo de situação cria feridas que só com muita terapia e autocuidado vão cicatrizando.

"Cria a dificuldade de se relacionar e de se entregar a um amor verdadeiro, a uma relação mútua e intensa, faz com que nos sabotemos sempre, tendo um pensamento mentiroso de que não somos merecedores do amor. É preciso se amar acima de tudo, elevando nossa autoestima. Não permitir ser olhado e tratado como objeto sexual pelos brancos que nos veem como o 'corpo do sexo bom'", comenta Lucas.

Já Livia fala que é preciso, além de terapia, o diálogo com outras desfem negras, pois essa rede de apoio é essencial para mostrar para a pessoa que ela não está sozinha.

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** Julio Cesar Ferreira é estudante de Jornalismo na PUC-SP. Venceu o 13.º Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão com a pauta “Brasil sob a fumaça da desinformação”. Em seus interesses estão Diretos Humanos, Cultura, Moda, Política, Cultura Pop e Entretenimento. Enquanto estagiário no iG, já passou pelas editorias de Último Segundo/Saúde, Delas/Receitas, e atualmente está em Queer/Pet/Turismo.

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