Estudo que avalia transição social de crianças transgênero é considerado inédito e já dura quase uma década
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Estudo que avalia transição social de crianças transgênero é considerado inédito e já dura quase uma década

Uma pesquisa realizada e publicada pela Trans Youth Project aponta que o índice de crianças pequenas que realizam a transição para um novo gênero devem continuar se identificando com o gênero novo após cinco anos. De acordo com a pesquisa, que acompanhou 317 crianças trans nos Estados Unidos e no Canadá, apenas 2,5% voltaram a se identificar com o gênero anterior à transição.

Os pesquisadores do projeto acompanharam pessoas que transicionaram entre os 3 e 12 anos. Para crianças trans, a transição é social; ou seja, consiste em mudança de nome, pronome, roupas e cabelo, por exemplo. A média é que essas pessoas realizaram a transição entre os cinco e seis anos e a maior parte continuou se identificando como transgênero cinco anos depois.

"Existe esse tipo de pensamento de que as crianças vão começar essas coisas e que vão mudar de ideia. E, pelo menos em nossa amostra, não estamos encontrando isso", afirma Kristina Olson, psicóloga da Universidade de Princeton, responsável pelo estudo.

O levantamento também aponta que muitas dessas pessoas passam a usar medicamentos hormonais na adolescência para alcançar a adequação corporal de acordo com o gênero. Oito crianças quiseram reverter a transição, sendo que sete delas iniciaram a transição social aos seis anos e a última, que realizou aos 11 anos, reverteu após usar medicamentos bloqueadores na puberdade.

Ao passo que 94% do grupo pesquisado ainda se identificava como transgênero, cerca de 3,5% passou a adotar o rótulo de gênero não binário, que não era tão utilizado quando a apuração começou, há quase uma década. Em 2020, quando o estudo se encaminhou para o final, 60% das crianças iniciaram o uso de bloqueadores de puberdade ou medicamentos. Olson afirma que ainda é pesquisado o número de adolescentes que realizaram cirurgias de adequação corporal.

Apesar dos primeiros resultados, os pesquisadores iniciaram o recrutamento em 2013 e viajaram por cerca de 40 estados e duas províncias do Canadá. Neste processo, foram realizadas entrevistas com a família. A metodologia é considerada inédita, já que, no caso de pesquisas sobre a população transgênero, as pesquisas são online ou realizadas por clínicas de gênero específicas.

Esse é considerado um dos primeiros estudos a coletar dados sobre a experiência de pessoas trans em todo mundo. Essas crianças devem continuar em análise por pelo menos mais 20 anos após a transição social. A pesquisa é realizada em meio a momentos de tensão nas câmaras estaduais e nos tribunais da América do Norte em relação ao debate sobre cuidados de saúde para crianças trans, tema que ainda tem poucos dados.

A líder do estudo aponta que os resultados podem ser desiguais, já que dois terços das crianças participantes eram brancas e as pessoas responsáveis por elas tendiam a ter uma renda mais alta e maior escolaridade em comparação com a população geral. No entanto, todos os pais deram apoio para que a transição social fosse facilitada. Até o momento, não se sabe se os padrões atuais refletem o de uma década atrás, quando a pesquisa começou, já que atualmente mais crianças se identificam como transgênero.

Dois terços das pessoas participantes eram meninas transgênero (ou seja, foram designadas como meninos no nascimento). Clínicas de gênero para jovens espalhadas pelo mundo também apontam que, nos últimos anos, aumentou o número de pessoas designadas como meninas no nascimento mas que, atualmente, se identificam como  pessoas não binárias ou meninos trans.

Laura Edwards-Leeper, psicóloga clínica do Oregon e especialista em atendimento de crianças trans, aponta que esse último grupo tem taxas maiores de problemas de saúde mental, o que inclui autismo e TDAH. Edwards-Leeper afirma que esse é o grupo que mais a preocupa no momento.

De acordo com o estudo, crianças transgênero que são apoiadas pelas pessoas responsáveis têm experiências melhores e vivenciam de forma mais confortável com suas identidades de gênero. Amy Tishelman, psicóloga do Boston College e autora principal do capítulo sobre padrões de cuidados com crianças da Associação Profissional Mundial de Saúde Transgênero, aponta que é importante também dar apoio para as crianças que mudaram de ideia.

"Algumas pessoas podem dizer que as crianças entram nessa trajetória de desenvolvimento e não podem sair e que as intervenções médicas podem ser irreversíveis e podem se arrepender. Outras pessoas dirão que as crianças conhecem seu gênero e, quando são apoiadas, ficam felizes”, explica. "É realmente importante que as crianças possam continuar a sentir que não há problema em ser fluida, continuar explorando", acrescenta.

Tishelman aponta que mais dados sobre crianças que optaram pela reversão serão publicados e que, quando apoiadas pelas famílias, se saíram bem. "Em nosso trabalho, não queremos apenas saber em que categoria eles se encaixam hoje versus amanhã. Penso em todas essas crianças de maneiras diferentes, e queremos entender como ajudar suas vidas a serem melhores”, complementa Olson.

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