Thamirys Nunes e a filha, Agatha, de mãos dadas
Reprodução/Instagram
Thamirys Nunes e a filha, Agatha, de mãos dadas




Agatha e Guilherme, de 6 e 12 anos, respectivamente, possuem algo em comum: os dois são crianças trans, ou seja, já na infância descobriram que não se identificam com o gênero que lhes foi imposto no momento do nascimento. Diante disso, várias questões (família, escola e saúde mental, por exemplo) se tornam muito mais complexas na vida deles e de outras crianças trans. 

“O que brilharia nos olhos de qualquer menino, não brilhava nos olhos da minha criança”, diz Thamirys Nunes , autora do livro  “Minha Criança Trans?” e mãe da Agatha. De acordo com ela, sua filha dava sinais de que não se sentia confortável no papel de gênero que lhe foi imposto desde muito cedo. Eram gestos simples, mas que diziam muito. 

“Uma vez, quando fomos à praia, meu marido, meu pai e meu irmão estavam sem camisa e eu e a minha madrasta com camiseta. Quando eu tentei tirar a camiseta da minha criança, ela fez ‘não’ com o dedo e disse ‘mamãe, não’. Durante as brincadeiras, sempre queria assumir o papel de menina”, conta. 

Aline Thais de Melo , jornalista e mãe do Guilherme, diz que tentou criá-lo de maneira não sexista desde sempre. Não havia separação de “masculino” e “feminino”, então quando ele pedia um carrinho ou uma camiseta do Super-Homem, ela comprava. Mas, ao mesmo tempo, ele também gostava de brincar de boneca e tinha afinidade com esteriótipos femininos, como maquiagem, por exemplo. 


“Entre 5 e 7 anos, ele falava ‘mãe, às vezes eu acho que queria ser um menino’. Nessa época, eu não achava que poderia ser uma questão de transgeneridade porque a vó e o pai dele reforçavam muito que ‘bola é coisa de menino’, e o irmão mais próximo dele, 7 anos mais velho, joga futebol e ele sempre o adorou, então achei que pudesse ter a ver com isso”, explica.

Aline ressalta, porém, que sempre esteve ciente da possibilidade de ter uma criança transgênero. Como ela mesma diz, “crianças trans não aparecem adultas em vasos”, logo as infâncias trans são possíveis e legítimas tais quais as vivências trans de adolescentes, adultos e idosos, o que muda é o momento em que cada um se descobre. 

No caso de Agatha, a falta de afeição aos estereótipos de masculinidade foi o principal aspecto que chamou a atenção de Thamirys. Ela conta que, certa vez, quando estavam comprando adesivos, ela oferecia os do Batman, mas Agatha queria os da Princesinha Sofia. Surpreendendo a mãe, a criança disse: “Mamãe, vamos fazer o seguinte: para você ficar feliz nós compramos o do Batman e para eu ficar feliz compramos o da Princesinha Sofia”. 

Esses episódios começaram a causar muita angústia nos pais de Agatha. Thamirys então procurou uma psicóloga e, após várias sessões, a profissional disse que o problema estava nos pais porque eles estavam falhando em mostrar o “universo feminino” e o “universo masculino” para a criança. 

De acordo com Karin Kenzler , psicóloga que trabalha com psicoterapia para famílias, crianças e adolescentes, os padrões de comportamento associados culturalmente ao feminino e ao masculino são percebidos pela criança desde cedo por meio das figuras da mãe e do pai. 

“Por volta dos dois anos de idade, elas já têm consciência das diferenças do feminino e masculino e, no caso de crianças trans, elas percebem uma discrepância entre o seu comportamento e o que o seu corpo indica. Essa desconformidade entre sexo biológico e gênero vai ficando mais evidente até os sete anos de idade”, aponta. 

“Começamos a comprar todos os brinquedos voltados para meninos e, por dois anos, vivemos um inferno. Impomos o universo masculino para a criança de todas as formas possíveis, mas ela sempre dava um jeito de dizer não”, conta Thamirys. Com três anos e nove meses, Agatha foi até a mãe enquanto ela fazia o almoço e disse “sabe o que seria muito legal? Se eu tivesse nascido menina”. 

O estopim para Thamirys foi o aniversário de quatro anos de Agatha: ela queria uma festa com o tema unicórnio, mas ao invés disso a festa foi do Mickey, sem qualquer personagem feminina. Quando a aniversariante entrou, a primeira pergunta foi “mãe, cadê a Minnie?”. Thamirys tentou contornar a situação, mas a resposta que recebeu de Agatha foi “essa festa não é minha”. 

“Ela não participou do próprio aniversário. Ficou 4 horas na porta do buffet. Esse foi o limite. Prometemos que a partir de então a nossa criança poderia vestir o que quiser e fazer o que quiser em casa. O processo foi gradual porque fazíamos as coisas conforme ela desejava. Eu perguntava ‘o que você quer hoje?’, e ela respondia ‘uma saia’, por exemplo, então íamos comprar a saia e assim por diante”, conta. De acordo com Thamirys, essa transição durou cinco meses, até que finalmente Agatha disse “mãe, eu realmente sou uma menina”. 

Thamirys Nunes: mãe da Agatha e autora do livro
Arquivo pessoal
Thamirys Nunes: mãe da Agatha e autora do livro "Minha Criança Trans?"


Apesar da falta de interesse por estereótipos masculinos ou femininos fazer parte do processo de descobrimento de crianças trans (e de pessoas trans de outras faixas etárias também), é importante ressaltar que isso não é uma regra, pois identidade de gênero, expressão de gênero e preferências de brincadeiras e atividades em geral são diferentes, como ressalta Karin Kenzler.

“A criança querer brincar de carrinho ou bonecas não deve ser tomado como indício de transgeneridade isoladamente; o mais importante é a manifestação do desejo da criança de ser do gênero oposto. Não se trata sobre o que ela quer ou gosta de fazer, mas de quem ela é”, explica. 

No caso do Guilherme, Aline conta que ele a chamou para conversar e disse que achava grande a possibilidade de ser um menino trans. Ele já tinha um diagnóstico de depressão e idealizações suicidas e costumava pedir para que comprassem roupas mais largas e peças da seção masculina, algo que não incomodava Aline. 

“Um dia, quando chegamos à casa da minha mãe depois de uma viagem, ele subiu direto para o quarto do meu irmão mais novo para conversar com ele. Quando estávamos nos arrumando para dormir, ele desceu e disse ‘mãe, eu preciso te contar uma coisa: eu não tenho dúvida nenhuma de que sou um menino e quero que a partir de hoje você me chame de Guilherme’”, lembra. 

Aline Thais de Melo: jornalista e mãe do Guilherme
Arquivo pessoal
Aline Thais de Melo: jornalista e mãe do Guilherme


A partir daí, começaram algumas mudanças. A transição social demorou um mês e ele se tornou uma criança muito mais feliz e satisfeita, suavizando os sintomas depressivos que tinha antes. Sobre esses sinais emocionais, Karin Kenzler ressalta que quando a criança trans percebe que não corresponde às expectativas dos pais, por exemplo, ela pode se sentir rejeitada e com uma autoestima muito baixa que, por sua vez, gera um sentimento forte de inadequação. 

“Esses sentimentos podem vir acompanhados de forte sensação de culpa e de vergonha pela própria aparência, que se manifesta muitas vezes pelos comportamentos mais agressivos e auto-agressão, na forma de acidentes involuntários frequentes em crianças ou automutilação em adolescentes”, esclarece. 

O luto das mães

Falar sobre crianças trans é, também, falar sobre as famílias, já que esse normalmente é o primeiro apoio ao qual elas recorrem e o ambiente com o qual possuem mais contato. Tanto Aline quanto Thamirys manifestaram algo em comum: o sentimento de luto após os filhos assumirem sua verdadeira identidade. No caso da jornalista, ela conta que demorou para entender que o seu filho era um menino, mesmo tendo contato com outras pessoas trans anteriormente. 

“Eu chorava e pensava que estava perdendo a minha filha, minha companheira. Escrevi uma carta para ela e pedi perdão por não poder ajudá-la a ser feliz. Quando o Guilherme se assumiu eu fiquei desesperada, não por não aceitá-lo, mas porque eu sabia o quanto a sociedade é violenta com pessoas trans”, confessa. 

Thamirys, por sua vez, tinha uma relação muito particular com a maternidade e foi rompida quando Agatha deixou claro que é uma menina trans. Ela sonhava em ser mãe de um menino desde jovem e quando se casou disse ao marido que lhe daria um filho homem. 

“Eu tinha pavor de ser mãe de menina. Perceber que eu nunca mais veria meu menino me causou um luto muito forte. Cheguei ao ponto de achar que eu nunca mais seria feliz e que a minha maternidade seria de conformismo”, explica. 

Desde a gravidez existe uma cultura de ‘é menino ou menina?’, a expectativa dos familiares e dos amigos, a preocupação em decorar o quarto com rosa ou azul, dentre outros estereótipos que reforçam imposições de gênero antes mesmo da criança nascer, como o chá de revelação, por exemplo. Sobre isso, Jaqueline Bifano , psiquiatra da infância e adolescência, expõe que o sofrimento das mães nasce justamente da pressão colocada sobre a maternidade. 

“As mães relatam a sensação de perda, ao passo que decidem por validar os sentimentos da criança, presenciando um novo desabrochar. É como se toda a expectativa depositada naquela criança se perdesse e elas ganhassem um outro filho”, salienta. 

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Aline, após superar o sentimento do luto, destaca que a sociedade é extremamente binária e romantiza a gravidez de modo a limitar a visão das mães sobre os próprios filhos, além do assunto em si (crianças trans) ser precariamente discutido. 

“Quando estamos grávidas, já pensamos se é menino ou menina, mas a vida não é assim. Eu já conhecia pessoas trans, mas querendo ou não foi um impacto muito forte porque ninguém prepara a gente para isso”, diz. 

Thamirys também superou o luto e hoje vive a sua maternidade de maneira totalmente diferente, mais leve e de braços abertos. Ela reconhece que as suas expectativas eram muito romantizadas.

“Aos poucos, fui me apaixonando por ser mãe de uma menina, mais especificamente uma menina trans e me abri para essa possibilidade. A Agatha é minha maternidade real. Eu mato e morro pela minha filha”, declara. 

Além das mães, os demais familiares também estão envolvidos na história e na vivência das crianças trans. Jaqueline chama a atenção para isso e destaca que o respeito por parte dos familiares quanto a identidade das crianças trans é fundamental para que elas se sintam verdadeiramente acolhidas. 

“Para elas (as crianças), o reconhecimento da sua identidade acarreta em influências positivas na qualidade de vida e proporciona um maior conforto psíquico no processo de construção de identidade destas crianças, que se encontram em um processo de descobertas”, ressalta. 

Porém, nem sempre toda a família aceita e respeita a identidade trans, principalmente na infância. Thamirys conta que foi um processo muito difícil e doloroso porque ela e o marido estavam sozinhos, sem nenhum tipo de amparo. 

“Fomos muito julgados e criticados pela família e nossos amigos também não compreenderam, tanto que já não nos chamavam para mais nada e cortaram relações conosco”, diz. Aline, por sua vez, não teve problemas com a sua parte da família e sim com a família paterna do Guilherme, especialmente os avós. 

“Uma vez ele foi à casa da avó e ela disse ‘para mim, você sempre será uma menina’. Nesse dia eu liguei para ela e disse que se ela não fosse capaz de respeitá-lo, não iria mais conviver com ele”, conta. “O avô também reagiu mal e disse que não sabia como contar para as pessoas que não tinha mais uma neta”. 

O acolhimento e abertura para diálogo é fundamental para que crianças possam se sentir livres e vivenciar sua identidade sem limitações que possam causar angústia. Mesmo que o processo de aceitação por parte dos pais e familiares seja difícil, o apoio é muito transformador para a criança. Karin Kenzler salienta que os pais precisam ter em mente que ser trans não é uma escolha da criança e muito menos resultado de certas influências. 

“Não é raro os pais perguntarem se pode ter sido por causa deste ou daquele ocorrido ou dito, e se conversar a respeito não pode incentivar ainda mais conflito. Na verdade ocorre o contrário: ao acompanhar e conversar com a criança sobre o tema, os pais ajudam ela a se sentir aceita e amada e a tomar a decisão mais acertada no futuro”, esclarece. 

Crianças trans e o ambiente escolar

Outro desafio enfrentado pelas crianças trans é a convivência no ambiente escolar, onde a pauta transgênero ainda é muito pouco discutida. Para Janine Rodrigues , educadora e fundadora do projeto Piraporiando - Educação para Diversidade , no Rio de Janeiro, a escola precisa discutir os assuntos que repercutem na sociedade e deixar de lado a ideia de que alguns assuntos “não são responsabilidade da escola” e “isso se aprende em casa”. 

“A educação é um trabalho árduo de todos. A família tem que reforçar o que a escola ensina e vice-versa, então não tem como afirmar que determinado assunto é somente da escola e outro é somente da família, afinal o indivíduo transita por todos esses meios para que ele se eduque”, salienta. 

Tanto Thamirys quanto Aline disseram que as maiores dificuldades que seus filhos tiveram na escola foram causadas por adultos e não por crianças. Uma das professoras da escola em que Agatha estudou, por exemplo, trabalhou de babysitter na casa de Thamirys e, de acordo com ela, outras professoras da escola a questionavam sobre o que tinha na casa de Agatha para que ela fosse como é. 

“Começaram a perguntar qual era a minha religião, tentando descobrir por que eu tinha uma filha trans. Chegou ao ponto de eu entrar na escola e ninguém olhar na minha cara”, conta. 

Janine chama a atenção para o discurso que muitos profissionais da educação apresentam: “Eu respeito, mas não concordo”. Para a especialista, existe uma problemática muito grande em basear condutas sociais à concordância quando se trata de algo inerente ao indivíduo. 

“Concordar e discordar partem das nossas experiências pessoais, e esses tipos de discussão não podem estar relacionadas a isso. O respeito não tem a ver com concordância, e sim com uma conduta que permita que os indivíduos vivam bem e que todos tenham as mesmas oportunidades”, esclarece. 

Aline relata um episódio em que uma das professoras de Guilherme mandou uma mensagem dizendo que o nome que ela anotou em seu caderno facilitava as coisas, e era o nome civil dele (ou nome morto). 

“Ela disse que tinha confundido quando a corrigimos, mas sei que é mentira porque ele já iniciou o ano na escola como Guilherme. Eu acredito que essa situação não teria acontecido se a instituição já estivesse preparada para receber um aluno trans”, conta Aline. 

Sobre a abordagem atual dessa pauta nas escolas, Janine diz que as discussões ainda estão muito rasas e normalmente partem de uma pirâmide que quando fala sobre diversidade, normalmente não possui representantes adequados, ou seja, não são pessoas trans que trabalham para orientar as escolas a como tratar esse assunto, por exemplo. 

“Essas questões ainda são discutidas com base em opiniões de determinados indivíduos que estão no topo de uma pirâmide, composta principalmente por pessoas brancas e hetero-cis normativas e isso reverbera em todos os âmbitos”, explica. Além disso, ressalta a importância de uma regularização na forma de abordagem de assuntos relacionados à diversidade. 

“Quando falamos de educação, precisamos de políticas públicas porque ela é a principal base da educação. Caso contrário, cada instituição fará as coisas do seu jeito, ou seja, enquanto uma escola fala sobre isso, outras continuam sem debater o tema”, finaliza. 

Para a psicóloga Rayane Barreto, do grupo PsicoPass , o cuidado que a escola deve ter com crianças trans abrange também as próprias famílias, pois infelizmente muitos contextos familiares ainda são violentos para essa população, então cabe à escola educar não apenas os alunos, mas os pais, responsáveis e tutores também. 

“A escola deve ensinar desde cedo sobre diversidade e desvincular o diferente de algo ruim e normalizar as vivências ao invés de tratar como tabu. Além disso, há a premissa básica de respeitar a criança que está se descobrindo, que pode carregar uma questão familiar complicada, então dar orientação à família também é importante”, ressalta. 

A falta de amparo e o medo do futuro

Ainda não existem pesquisas, levantamentos e políticas públicas efetivas que garantam a segurança e o bem-estar de crianças trans. Ambulatórios como o Amtigos (Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual da USP) existem, mas são poucos e estão concentrados territorialmente falando, então não são todas as famílias que têm acesso. 

Thamirys expressa a sua preocupação quando se trata da filha. Em seu perfil no Instagram e no projeto Aliança LGBT, ela luta pela causa das crianças trans para que Agatha possa ter um futuro seguro e feliz. 

“Precisamos sempre viver com base na sorte, e não nos direitos, porque isso nos é negado. Não existe, por parte dos órgãos federais, uma regulamentação das políticas voltadas para crianças trans. Temos que provar que nossos filhos existem e que precisamos que alguma coisa seja feita em prol deles”, desabafa. Ela ainda ressalta a importância de conectar pessoas trans e criar redes de apoio. 

“Da mesma forma que para mim é importante olhar para o lado e ver uma mãe que entende a minha trajetória, para as crianças e adolescentes trans é importante olhar para o lado e ver pessoas que os compreendem bem”, diz, e por fim desabafa: “A principal conquista que eu quero para a Agatha é que ela chegue viva em casa todos os dias”. 

Aline chama a atenção para o fato de que ainda há muito pouco aprofundamento nos estudos e mapeamentos com relação a crianças trans, além da precarização de iniciativas que possam expandir o acesso dessa população ao atendimento na área da saúde e a conscientização nas escolas. 

“Somente nos manifestando é que conseguiremos algum tipo de avanço, porque não existem números sobre isso. É uma população muito subnotificada porque, uma vez que os espaços não permitem que as crianças trans se apresentem e não discutem essas questões, elas continuarão reprimidas, majoritariamente por medo de represálias”, expõe. 

A psicóloga Ana Paula Leão Batista , membro do grupo PsicoPass, ressalta que em setembro de 2019, foi publicada no Diário Oficial a Resolução Nº 2.265 , que norteia os cuidados com crianças e adolescentes transgênero, mas de acordo com ela esse processo ainda é muito raso. 

“Temos muitos entraves, tais como desconhecimento, desinteresse e pré-conceitos ainda muito arraigados na nossa sociedade em relação a esta temática, e isso acaba refletindo na pouca ou nenhuma efetividade voltadas para crianças, adolescentes trans e suas  famílias”, conclui.

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