Paulo Vaz morreu aos 37 anos após ataques transfóbicos
Reprodução/Instagram - 20.08.2020
Paulo Vaz morreu aos 37 anos após ataques transfóbicos


Na noite da última segunda-feira (14), tivemos a triste notícia da morte do policial e ativista trans Paulo Vaz . O mineiro de 38 anos cometeu suicídio.

Falar sobre o tema é um assunto muito delicado. Sabemos que os motivos que levam uma pessoa a tirar a própria vida podem ser vários, muitas vezes sem qualquer tipo de sinal. Por isso debater saúde mental é tão importante, principalmente sobre atitudes que podem levar a um ato tão extremo.

Um dia antes de Paulo morrer, aconteceu algo nas redes sociais que pode ter sido um gatilho para ele. Por um motivo que não vem ao caso, o policial começou a receber uma enxurrada de ataques transfóbicos, principalmente pelo fato dele ser um homem com vagina.

Eu acompanhei estes ataques e o que mais me chocou foi o fato de que a maioria veio de pessoas da comunidade LGBTQIA+, principalmente de homens gays cisgêneros (aqueles que se identificam com o gênero de nascença). E ai me pergunto: como pode no país que mais mata pessoas LGBTs no mundo, que tem um presidente que foi eleito com um discurso de ódio à essa população, ter a própria comunidade se atacando deste jeito? E aí te convido para pensarmos juntos sobre esse tema.

Lembrando que neste texto eu não generalizo a comunidade gay nem apago a luta de muitos militantes por direitos da comunidade LGBTQIA+. Estamos falando de uma visão macro desta população, a qual eu faço parte.

O patriarcado gay

Vivemos em uma sociedade patriarcal, na qual o homem é valorizado e privilegiado. A ideia de ser homem passa pelos signos que foram criados sobre a masculinidade. Só é homem quem tem pênis, de preferencia grande, é musculoso, sem sentimentos, rude, alto, bravo, caçador, protetor e por ai vai.

Essa ideia é disseminada através da igreja, da cultura e dos costumes. Desde os tempos antigos até os atuais, ela faz parte do cotidiano da maioria da população. E isso é muito perigoso, pois ao mesmo tempo que o número de feminicídio só aumenta, pois a violência é uma das características desse comportamento, o número de suicídio entre homens também é superior, o que mostra como esse modelo de sociedade prejudica a todos.

E quando falamos da comunidade gay, esse comportamento patriarcal se mantém. Hoje se você entrar em qualquer aplicativo de encontros, destinados à esse público, encontrará com facilidade discursos que mostram isso. Homens colocam como regras que só saem com homens discretos (não afeminados), fora do meio, altos e musculosos. Ou seja, tem que ser tudo que uma sociedade patriarcal espera de um homem para poder ser desejado. E nas festas e bares o comportamento não é diferente.

Quem foge deste modelo de masculinidade é jogado à margem dentro do comunidade, e isso inclui pessoas afeminadas, gordas, magras, pobres (afinal, homem precisa ser poderoso) e transexuais. O racismo também é trazido para dentro do movimento e as bixas pretas também são marginalizadas. As letras da cantora Linn da Quebrada mostram muito bem isso.

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E como chamamos quando se tem repulsa de tudo que lembra o universo feminino? Sim, de misoginia. Nossa comunidade é misógina. E claro que essa misoginia se intensifica quando falamos das pessoas trans. As mulheres trans e as travestis são identidades femininas, logo consideradas inferiores nessa lógica misógina. Já os homens trans, mesmo performando a masculinidade, têm suas identidades questionadas pelo simples fato de não terem pênis, pois a ideia do homem perfeito é falocêntrica.

Foi o que aconteceu com Paulo.

E o caso do Paulo não é isolado. De acordo com a Associação de Travestis e Transexuais (Antra), há uma estimativa que 42% da população trans já tentou suicídio. Um relatório chamado “Transexualidades e Saúde Pública no Brasil”, do Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT e do Departamento de Antropologia e Arqueologia, revelou que 85,7% dos homens trans já pensaram em suicídio ou tentaram cometer o ato. 

União dos machos

Partindo dessa lógica misógina, os homens gays se uniram para lutar por direitos e ganharam protagonismo nesta luta. As mulheres lésbicas sempre denunciaram o silenciamento dentro das organizações e marchas, e as pessoas trans foram simplesmente excluídas das pautas e reivindicações.

Em 1994, a sigla GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes) foi criada, colocando os homens como prioridade e excluindo travestis e transexuais.

Anos depois a sigla mudou, mas o resultado desse apagamento de pessoas trans se deu em direitos. Enquanto nós, homens gays, podemos casar, adotar, temos uma lei que nos protege e, cada dia mais, representatividade, as pessoas trans estão lutando para conseguir usar o banheiro, trabalhar, ter seus nomes respeitados e sobreviver.

Entendendo que essa falta de direito vem de um apagamento das pessoas trans dentro da luta, temos uma dívida histórica com essa população. E ai eu pergunto: o que estamos fazendo para mudar isso? Quantas pessoas trans ainda precisam morrer para lutarmos por seus direitos?

A LGBTfobia tem uma base misógina e você, homem gay, por mais que tenha a masculinidade desejada, não é hétero, logo não se beneficiará em uma sociedade patriarcal. Então para que reproduzi-la?

Ontem foi o Paulo, hoje pode ser eu e amanhã, você. Se a gente não se unir, questionar nossos gostos, opiniões e atitudes, o cenário é favorável para o surgimento de novos Bolsonaros, que vão nos apagar dia após dia.

Que a morte de Popo Vaz não seja em vão. Que a luta dele se torne presente, sempre.

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