As escolas ainda não são um ambiente realmente seguro para alunos LGBTQIAP+
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As escolas ainda não são um ambiente realmente seguro para alunos LGBTQIAP+


Com a retomada das aulas presenciais e a volta dos alunos à convivência direta com os colegas e corpo docente, é possível levantar o debate acerca da recepção das instituições de ensino para com alunos LGBTQIAP+. Uma pesquisa realizada em 2016 pelo presidente da Comissão da Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o defensor público João Paulo Carvalho Dias aponta que cerca de 82% das pessoas trans e travestis abandonaram os estudos ainda na Educação Básica.

Outro levantamento feito em 2017 pela Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), com relação à violência contra alunos LGBT nas escolas, aponta que 25% dos alunos foram agredidos fisicamente dentro da escola, e 68%, verbalmente. 

É muito comum que pessoas da comunidade tenham histórias – positivas ou negativas – relacionadas ao colégio, como é o caso do ativista gay e gordo Dave Avigdor. Ele conta que sempre se entendeu como homem gay, o que lhe fazia permanecer reprimido dentro do ambiente escolar.

“Eu me escondia muito na escola. Sempre tive medo do julgamento das pessoas, principalmente porque eu estudava em um colégio judaico que tinha esses tabus, por conta da religião, e também porque essa é uma comunidade muito fechada aqui no Rio de Janeiro. Eu pensava: ‘Se alguém da escola descobrir, minha mãe também vai’, então era um medo relacionado à família também. Só tentava mascarar isso [sexualidade] ao máximo. O Dave da escola e o Dave fora da escola eram pessoas totalmente diferentes”, explica ele. 

Dentro das salas de aula, as experiências podem ser bem negativas tanto para os alunos quanto para os próprios professores. Dani Caitano é uma pessoa formada em psicologia, acompanhante terapêutica e professora que conta um pouco sobre como o fato de ser uma pessoa não-binária e lésbica influenciou na experiência como parte de um corpo docente. 

“Quando se é uma pessoa sapatão não-binárie, como eu, você pode, em ambientes escolares LGBTfóbicos, ser cobrada ainda mais e sentir que não pode errar porque já apresenta um fato desfavorável no mundo capitalista heterocispatriarcal branco e europeu, então você se exaure para apresentar suas qualificações e sente medo ao expor aspectos básicos da sua vida, como com quem você mora, ou de andar com sue companheire pelas ruas da cidade”, expõe. 

Quanto a postura das escolas perante alunos e professores LGBTQIAP+, a educadora Georgya Correa explica que, mesmo que existam recomendações e orientações sobre a importância de promover espaços que não sejam LGBTfóbicos, as escolas podem ter diferentes posturas, o que torna difícil resumir a situação desse cenário de maneira geral. 

“Tem escolas que sim [possuem políticas de abordagem para a comunidade LGBT], tem escolas que não, algumas mais e outras menos. Claro, existem as políticas públicas na área dos Direitos Humanos com questões contra a homofobia e estudos desse tipo que orientam atenção e cuidado a esse público. É uma contraversão você ser homofóbico, mas existem vários caminhos para lidar com isso: desde políticas públicas a métodos que se estabelecem de acordo com a comunidade em questão e o entorno da escola”, explica. 

Dani comenta ainda que, uma vez que não existe uma garantia de segurança nem para os docentes LGBT, não há como confiar que as escolas de fato possuem iniciativas eficientes e ativas para fazer dela um ambiente realmente seguro.

“Se entre es adultes que trabalham na escola o assunto é tabu e motivo de rechaço, não há como pensar que alunes LGBT serão acolhidos e respeitados em um ambiente que não se reconhece enquanto tal, mas que é LGBTfóbico, uma vez que se trata de uma questão social, estrutural, e não de algo individual e pessoal”, diz. Ela cita alguns dos principais perigos aos quais as crianças e adolescentes que estão fora das normas cis-hétero estão submetidos. “Serem expostos sistematicamente a violências sem receber nenhum apoio nem perceber nenhuma mudança no ambiente que lhes acolha e respeite, de modo que sejam obrigades, ainda que indiretamente, a abandonar os estudos”.

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Quanto aos riscos psicológicos que a falta de cuidado e acolhimento na escola pode causar em pessoas LGBT, o psicanalista Gregor Osipoff ressalta que as consequências podem incluir isolamento por parte das crianças e adolescentes, além do adoecimento emocional. Ele também chama a atenção para a importância da escola e dos professores manterem-se atentos para oferecer suporte necessário aos alunos. 

“Quando qualquer ambiente não é agradável ao convívio social, pode afetar o aluno negativamente, provocando um isolamento e até o adoecimento emocional, em muitos casos precisa de um atendimento diferenciado na clínica. Muitas vezes, por conta de uma análise superficial, a escola não consegue observar os acontecimentos nos seus detalhes, por isso é imprescindível que os educadores estejam atentos a todos os movimentos entre os alunos para avaliar o quanto a convivência interfere no desenvolvimento da saúde mental. Sabemos que ainda há muito preconceito na sociedade em geral, que reflete no comportamento dos alunos, muitas vezes imitando familiares que autorizam de forma indireta tais ações como o bullying e ataques pessoais”, diz. 

As barreiras para um futuro melhor

O preconceito ainda é o ponto chave da dificuldade de convivência de pessoas LGBT nas escolas
Anete Luisina/Pexels
O preconceito ainda é o ponto chave da dificuldade de convivência de pessoas LGBT nas escolas

O preconceito continua sendo o principal fator dificultante na promoção de uma convivência mais saudável e segura para alunos LGBTQIAP+. Georgya Correa pontua que muitas escolas ainda sofrem com o déficit de comunicação sobre essas questões, além da ausência de políticas públicas que regularizem essa abordagem para que ela possa ser devidamente aplicada. 

“Há até mesmo uma falta de conhecimento e saber como lidar e falar a respeito disso, principalmente porque existem faixas etárias específicas para falar sobre sexualidade. Qualquer coisa que difere disso deve ser cuidadoso, porque não há muitos fatores que apoiem esse tipo de orientação, então é um movimento muito individual das instituições. Não há uma política hoje que traga essa discussão, inclusive na própria estrutura do ambiente escolar”, explica.

Dave traz à tona o fato de que não existiu preocupação por parte do colégio no qual ele estudou em falar sobre questões LGBT e promover a inclusão desses alunos. “Discussões acerca de LGBTfobia e bullying não aconteciam”, conta. “Era um colégio muito opressor, então posso dizer que, pelo que eu sabia, não tinha nenhuma pessoa assumidamente LGBT. Em vista disso, não se via um ataque direto, mas se o indivíduo se sentia tão reprimido ao ponto de não conseguir ser ele mesmo, acredito que isso possa ser considerado como um bullying indireto. Além disso, muitos se referiam às pessoas LGBT de maneira pejorativa, usando termos como ‘viadinho’ e ‘boiola’”. 

De acordo com o ativista, o ponto de partida para que esses ambientes se tornem mais acolhedores seria principalmente a conversa. “O mínimo é que as escolas falem sobre isso e tenham essa questão em pauta para educar as crianças e encorajar aqueles que passam por LGBTfobia a buscar a diretoria e até mesmo profissionais de psicologia para promover ambientes mais seguros. É muito difícil para uma minoria estar em um ambiente tão tóxico como a escola, enfrentar a própria turma e ser quem você é. Seria bom ter algum tipo de grupo de apoio, mas não vejo isso acontecer”. 

Para que os alunos consigam lidar com episódios de bullying, Gregor Osipoff reitera a importância da ação da própria escola em minimizar ao máximo os efeitos desse tipo de trauma. “O impacto que o bullying tem na vida de cada pessoa é um terremoto, e reduzir isso deve ser parte da institucionalização do respeito ao próximo e as suas individualidades. A escola tem que estar sempre em alerta para estas ações, por intermédio dos seus professores e coordenadores, não para ter uma ação punitiva – salvo quando necessário –, mas trabalhar a conscientização e fazer com que haja a socialização de todos”, ressalta. 

Como forma de conseguir alcançar essa sintonia da equipe do colégio e de fato dar início a ações ativas no acolhimento de alunos LGBT, Georgya Correa destaca que todo o processo começa nos profissionais envolvidos para depois propagar-se para os demais espaços. “Os professores, a coordenação e a direção precisam ser sensibilizados para saberem como sensibilizar”, diz. “De forma geral, ainda há muitas dificuldades, tanto na escola quanto em outros lugares. As escolas acolhem de diferentes formas, e os grupos LGBT ainda sentem essa exclusão, principalmente nas escolas que não possuem um olhar específico para eles”. 

Sobre as expectativas quanto ao futuro da educação para com pessoas LGBT, Dani destaca a importância de fazer desse espaço um local realmente democrático, mas admite que é uma visão ainda distante da atual realidade e que não será alcançada tão rapidamente. 

“Acho que expectativas são diferentes de desejos. Eu quero que pessoas em geral sejam acolhidas e respeitadas dentro das escolas, que assim seriam de fato um espaço democrático. Que, enquanto microcosmos social, as instituições de ensino pudessem abarcar discussões e complexidades nas quais se inserem, e que pudessem romper com o ciclo de reprodução de opressões como racismo, LGBTfobia, capacitismo, gordofobia, xenofobia… porém é algo utópico pensar nessas transformações de questões tão arraigadas em um futuro próximo, ainda que, na história, tantas tenham acontecido e sigam acontecendo, a cada dia, nas minúcias das frestas e brechas do sistema”.

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