Veja dicas de como se comportar para evitar situações de conflito e violência em festas de fim de ano
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Veja dicas de como se comportar para evitar situações de conflito e violência em festas de fim de ano

Se para algumas pessoas o período de festas o momento é de felicidade, confraternização e união com familiares, para outras o Natal e o Ano novo em família pode ser um período de muito desconforto e sofrimento psicológico. Esses sentimentos podem aflorar em pessoas  LGBTQIA+ durante esse tempo – principalmente no caso de pessoas que não estão assumidas ou que vivem em ambientes totalmente restritos e não acolhedores.

A população LGBTQIA+ enfrenta altos índices de violência ao longo de todo ano, e esse receio permeia em lares e famílias nucleares em que a segurança e o afeto são inexistentes. A psicóloga Niceia Monteiro explica que é no ambiente familiar que boa parte desses ataques acontecem.

“Essa falta de acolhimento, que em tese é esperado por parte da família, pode resultar em situações de humilhação e medo, o que causa danos psicológicos gravíssimos”, explica a profissional. Ela também alerta que o período de festas requer atenção redobrada, já que os índices de automutilação aumentam nessa população. O mesmo é esperado em relação às tentativas de suicídio.

Por esse motivo, é importante que as pessoas LGBTQIA+ se sintam acolhidas, escutadas e respeitadas neste momento. No entanto, muitas não sabem como se defender ou como lidar diante de familiares e possíveis situações de confronto.

Para ajudar no preparo psicológico deste período, a psicóloga dá dicas de como “sobreviver” nas festas de fim de ano e contornar situações desagradáveis visando a própria segurança. Niceia também instrui sobre o que fazer quando a situação sair do controle e a importância de ressignificar essas datas.

Crie novas tradições para o fim de ano

Niceia explica que é importante sempre lembrar que o conceito de família é muito abrangente e vai além do que o ensinado na sociedade. “Não existe uma família ideal como vemos nos comerciais de televisão, que mostram união e felicidade. Esses exemplos podem intensificar a solidão, a incompreensão e o não pertencimento em quem gostaria de ter esse vínculo”, analisa.

Saber disso pode ter um lado bom: é possível criar uma família nova e escolher com quem compartilhar esses momentos importantes. “Se possível, a pessoa pode iniciar uma nova tradição de Natal com pessoas com quem ela se sinta mais bem recebida, como amigos, por exemplo”, diz.

Fuja de perguntas que considere invasivas

Todo fim de ano é a mesma situação: o temor pela pergunta sobre o status de relacionamento, principalmente por parte de parentes distantes que aparecem para o Natal e o Ano Novo. “Essa pergunta é clássica, e é comum que a pergunta surja por parte de parecer com quem não conversamos ao longo do ano e que querem se informar sobre nossa vida”, aponta Niceia.

A psicóloga aponta que a resposta depende muito da personalidade da pessoa que a recebe e da sensação que aquele questionamento causa. Por isso, existem diversas saídas que podem ser optadas. “A pessoa pode usar do bom humor como também pode ser prática, respondendo diretamente se está namorando ou se não”.

No caso de pessoas mais reservadas, seja por não terem se assumido ainda ou porque não querem compartilhar informações sobre a vida pessoal, um pouco de rispidez pode não ser tão ruim. Esse artifício pode ser usado para falar com parentes com quem não se tem proximidade alguma, mas que querem “fazer fofoca” da vida pessoal de alguém. “Nesses casos pode-se dar um corte, dizer que não quer falar sobre isso ou simplesmente afirmar que não vai compartilhar aquela informação com aquela pessoa”, instrui.

Mesmo assim, o mais indicado para manter a segurança e evitar confrontos indesejados é ir direto ao ponto e, rapidamente, trocar de assunto. Essa atitude pode passar o recado de que não se quer falar sobre isso e quem recebe essa reação tenta ter mais cautela para não parecer indelicada.

Entenda como se portar diante de falas LGBTfóbicas

Ninguém deveria precisar conviver em um ciclo de pessoas que não respeitam outras identidades de gênero, expressões de gênero e orientações sexuais; no entanto, isso está longe de deixar de ser uma realidade.

Por esse motivo, uma pessoa LGBTQIA+ que passa o fim de ano em família está, sim, passiva de ouvir ofensas, mesmo que não sejam direcionadas a ela. Em alguns casos, pode ser que algum termo inutilizável e ofensivo seja usado sem que a pessoa saiba que o que ela disse é desrespeitoso.

Neste caso, o que se pode fazer é tentar contribuir para que a pessoa reflita sobre o preconceito que sente de forma clara e respeitosa, por mais difícil que isso possa parecer. “Nunca fale de forma a querer convencer alguém, mas sim com um tom de convite para que aquela pessoa repense e corrija falas e termos pejorativos”, diz.

No caso de ofensas mais diretas, Niceia afirma que é importante deixar bem claro quando se sentir desconfortável. A tática que ela ensina é de tentar deixar a pessoa LGBTfóbica desconfortável após o ataque. “Por exemplo: se a pergunta for mais direta, do tipo ‘você gosta de meninos?’, é possível responder com outra pergunta, como ‘você é homofóbico?’”, diz. Dependendo do tom, também pode ser a chance de ter sinceridade e responder a pergunta de forma verdadeira.

Outra tática muito utilizada é a de se fazer de desentendido. Quando uma pessoa fizer alguma afirmação ofensiva, diga a ela que não entendeu. Muitas vezes, quando essas pessoas tentam explicar o motivo pelo qual aquilo foi “engraçado”, acaba se atrapalhando e entendendo que aquele comentário foi maldoso.

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No entanto, isso tudo deve ser feito com cuidado, principalmente quando se está falando com alguém que se sabe que é mais agressivo. “A pessoa precisa ter claro quais são os limites em uma conversa e perceber o momento de encerrar”, diz.

“Algumas vezes, o diálogo não será proveitoso porque já se tornou agressivo verbalmente. Neste caso, interrompa para não correr riscos de agressão física”, complementa Niceia.

Explique quando alguém errar seus pronomes

No caso de pessoas transgênero ou pessoas não binárias , é comum que alguns familiares, principalmente os menos abertos, ignorem a transgeneridade daquela pessoa e entenda aquilo como algo supérfluo. No entanto, isso não é verdadeiro e a identidade de gênero de cada pessoa deve ser respeitada.

Por essa razão, não se acanhe em corrigir se alguma pessoa a chamar pelo pronome errado ou pelo nome morto. “Tente exercitar a paciência e aproveitar a oportunidade para um diálogo franco sobre como se sente. Explique que o nome morto não combina com sua identidade”, afirma Niceia.

A psicóloga explica que podem existir pessoas que querem respeitar a transgeneridade, mas se confundem e têm dificuldade maior de se adaptar. “Nesses casos, tente compreender que é uma questão de adaptação para que alguém possa usar o nome e o pronome correto”, indica a psicóloga.

No caso de uma pessoa cisgênero que está presenciando o caso, vale a pena intervir de forma cautelosa e com respeito, ajudando aquela pessoa trans a sair de um momento de desconforto.

Mostre que está aberto a conversas

Em alguns casos, pode ser que exista uma abertura para conseguir conversar com parentes e familiares sobre questões ligadas à comunidade LGBTQIA+, mas não sabem como conversar sobre o assunto. Por outro lado, outros podem tentar menosprezar porque não entendem do que se trata.

Caso se sinta confortável, indique para as pessoas que pode conversar sobre o assunto. “Aponte isso de forma educada. Não aceite ser desrespeitado ou ofendido, mas lembre-se que, para muitas pessoas, o heterossexismo impera e estamos em um processo de mudança”, diz.

Se retire se o clima ficar tenso

Infelizmente, existem alguns cenários em que um “final feliz” para essas conversas estejam absolutamente fora de cogitação. “Existem famílias muito rígidas, moralmente e religiosamente, que não estão preparadas para essa conversa. Então, é preciso ter uma percepção da verdade do momento e perceber se há abertura”, começa a psicóloga.

“Às vezes, o outro não quer ouvir porque a verdade dele é o que lhe basta. Então, pode não adiantar falar com quem não quer ouvir. Devido à rigorosidade de cada um, pode ser que não se consiga dizer nada nem fazer com que pensem sobre a verdade do outro”, acrescenta.

Caso sinta que isso está fazendo mal ou que há sinais de que pode ocorrer alguma violência física, o melhor é se retirar do local. “Não adianta falar com quem não quer ouvir. Se preservar é o melhor caminho”, diz.

Se o encontro está acontecendo na sala, por exemplo, tente encontrar um lugar mais reservado. Caso esteja sentindo sintomas de ansiedade ou crise de pânico, tome o tempo necessário até que consiga se recompor. Exercícios de respiração ou técnicas habituais usadas para ficar mais calmo podem ser utilizadas neste momento.

Peça ajuda caso a situação fique violenta

Niceia afirma que é de extrema importância entender quando a situação pode se tornar perigosa. É importante se manter em contato com uma rede de apoio externa (com familiares ou amigos que estão em um local diferente de você) e interna (caso exista alguém da família que ofereça apoio e possa te proteger). Caso alguém faça menção de causar mal, peça ajuda imediatamente.

Caso uma violência física venha a acontecer, Niceia afirma que é importante não se calar. Também não se deve pensar em “estragar” a festa para outras pessoas, já que um caso de violência é muito mais importante que isso. “É muito importante realizar uma denúncia, que pode ser feita pelo Disque 100 ou pelo Disque Denúncia [181]”, instrui.

Busque a polícia e registre um boletim de ocorrência e leve o caso à Defensoria Pública. Conte sempre com a rede de apoio que tem e não sinta medo de realizar a denúncia ou de magoar algum familiar por isso. A integridade e segurança de alguém é importante e deve ser respeitada.

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