Johnny Massaro como Suzano no filme
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Johnny Massaro como Suzano no filme "Os Primeiros Soldados"

O vírus HIV foi avassalador no início da década de 1980, principalmente dentro da comunidade LGBTQIA+, quando começou a epidemia da Aids que vitimou milhares de pessoas em todo o mundo. Neste período, a população não tinha muitas informações e tinha de esperar por respostas da ciência que ainda não era tão evoluída quanto hoje.

É neste cenário que se passa o novo filme “Os Primeiros Soldados”, do diretor Rodrigo de Oliveira, que conta a história do biólogo Suzano e da atriz trans Rose, interpretados por Johnny Massaro e Renata Carvalho, que chega aos cinemas no primeiro semestre de 2022. Durante duas semanas, o elenco ficou concentrado em Vitória, capital do Espírito Santo, e cenário do longa, para participar de uma preparação junto ao diretor.

“O trabalho do Rodrigo me chama muito a atenção porque ele também dirigiu a preparação de elenco. Tivemos encontros intensos de leituras, ensaios, vivências e conversas. Além dessa dinâmica, também passei por um processo acelerado de emagrecimento que, com certeza, fez parte dessa construção”, explica Johnny.

Ele acrescenta que, durante os estudos, percebeu que a humanidade está muito vulnerável diante de epidemias como do HIV ou mesmo da Covid-19, que ainda tem assolado todos os países do mundo. 

"O que mais me impressiona é perceber o quão somos frágeis e o quanto precisamos uns dos outros. Claro que a epidemia de Aids tem suas particularidades, mas é inevitável não a relacionar com o momento atual. Sinto que qualquer epidemia impressiona por escancarar justamente o quanto não sabemos. Ao mesmo tempo que isso assusta, também ensina ao colocar em evidência o que realmente importa."

Renata também mergulhou profundamente na personagem Rose e afirma que a personagem é uma homenagem à transcestralidade. Ela salienta que tanto no filme quanto na vida real, as travestis são mães que acolhem e aconselham.

“Rose é daquelas travestis divas de espetáculos que cantam ou dublam pela noite, que precisam recorrer à violência para se manterem vivas, de luta, abandonadas pela família. Eu vejo a Rose, eu a conheço, eu a ouço. Rose é essa junção afetiva de todas essas travestis”, descreve.

No contexto do longa, Suzano sabe que algo de muito terrível começa a transtornar seu corpo, sem ao menos saber o que realmente estava acontecendo. Coincidentemente, Johnny estava em outro trabalho com o mesmo tema e já havia estudado muito sobre o assunto quando foi convidado para protagonizar o filme. De todo modo, como um homem gay, ele conta que o tema sempre povoou seu imaginário.

“Na época, conversei com soropositivos mais próximos da minha faixa etária. Também assisti bastante material sobre o começo da epidemia e filmes sobre o tema. O Rodrigo, no nosso primeiro encontro, me presenteou com um livro que serviu muito como apoio, ‘Para o amigo que não me salvou a vida’, do Hervé Guibert”, conta.

Já a atriz lembra que nasceu em 1981, em Santos, litoral sul de São Paulo, quando as infecções começaram no Brasil e justamente na cidade que ficou conhecida como a capital mundial da Aids. Ela lembra que, naquele período, pode ver de perto as ações de entidades e governantes que mudaram a realidade do munícipio que virou referência mundial no enfrentamento ao vírus.

“Tínhamos aula na escola sobre o tema. As primeiras ONGs de Aids nasceram lá, como Gapa, Philadelfia, ativistas vivos dessa época como Beto Volpe e Moniquinha Moura. Já em 2007, me tornei agente de prevenção voluntária de ISTs, HIV/AIDS, hepatite e tuberculose atendendo travestis e mulheres trans na prostituição durante 11 anos. Por ser uma travesti e magra, sou automaticamente ligada ao vírus. A cidadania travesti veio com a epidemia da Aids, foi a partir dela, que o Estado brasileiro nos reconheceu para ‘controlarem o contágio’, pois se a peste é gay, a mãe dela é a travesti.”

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Renata também destaca que, apesar dos avanços da medicina, de testagem e de métodos para barrar a infecção, ainda tem muita gente que desenvolve a Aids e morre em decorrência do vírus. De acordo com os relatórios do UNAIDS, programa das Nações Unidas, somente em 2020, cerca de 680 mil pessoas morreram em todo o mundo de doenças relacionadas à Aids e 36,3 milhões perderam a vida desde o início da epidemia.

“A grande maioria das pessoas não pensa sobre o tema porque o vírus é a doença do outro -  título de uma peça de teatro do ator e dramaturgo Ronaldo Serruya -, então imagine se testarem. Hoje, no Brasil, as pessoas cisgêneros heterossexuais são os maiores infectados, assim como os corpos negros são mais infectados comparado às pessoas brancas. Passados 40 anos do HIV no Brasil, ainda estamos tentando desmistifica-lo, desfolcloriza-lo. Essa luta também é pedagógica”, ressalta ela.

Renata Carvalho como Rose no filme
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Renata Carvalho como Rose no filme "Os Primeiros Soldados"


Preconceito

Um dos assuntos mais discutidos atualmente, dentro da epidemia da Aids, é sobre a sorofobia, que é preconceito voltado especialmente às pessoas que vivem com o vírus. Johnny acredita que colocar o assunto em constante debate é essencial para que a aversão a esses pacientes seja eliminada.

“Por isso a importância de filmes, peças, livros, novelas sobre o tema. Precisamos falar sobre PEP, PREP, carga viral negativa. O principal antídoto, tanto contra o preconceito quanto contra a doença, é a informação. E claro, políticas públicas inteligentes, sensíveis e adequadas. Mas isso só podemos esperar de um governo que respeite a vida”, aponta.

“O preconceito sobre HIV/Aids é moral. A construção social sobre o vírus ainda está impregnado nas pessoas como nas décadas de 80, tudo mudou, menos o imagético social que continua no senso comum estereotipado, caricato, moral, ligado a promiscuidade. Por isso precisamos continuar a falar e debater sobre o vírus de forma ética e responsável, e a arte pode ser um desses caminhos”, completa Renata.

Ela ainda salienta que, para uma mulher trans, tudo é mais difícil dentro de uma sociedade preconceituosa e conservadora, em que as mulheres trans contaminadas com o vírus são ainda mais discriminadas.

“A travesti ou pessoa trans sofre mais dependendo de onde está localizada socialmente, região onde mora, classe social, cor da pele, profissão entre outros. A transfobia é estrutural, assim como a sorofobia, e, por isso, precisam ser enfrentadas juntas. ‘Dizem que para acabar com o estigma da Aids, primeiro precisa acabar com o estigma da travesti’ (manifesto transpofágico)”, diz.

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