As principais informações e dicas para quem quer começar a praticar BDSM
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As principais informações e dicas para quem quer começar a praticar BDSM




O BDSM  (sigla para Bondage, Dominação, Sadismo e Masoquismo), conjunto de práticas sexuais consideradas não convencionais, tornou-se popular após algumas produções cinematográficas, como “50 Tons de Cinza”, por exemplo. Ainda que os filmes tenham despertado o interesse do público por estas práticas, dúvidas, tabus e questionamentos que cercam a sigla persistem e a tornam oculta ao senso comum, de modo que falar livremente sobre o assunto é algo que ainda precisa ser naturalizado aos poucos.

Rum  é gênero-fluido, uma pessoa não monogâmica e fala sobre erotismo e sexualidade, além de ser praticante de BDSM. Um dos principais tópicos de debate com os seguidores é justamente o BDSM e como ele precisa ser explorado com consciência e cuidado, especialmente por quem está tendo o primeiro contato com essas práticas. Em entrevista ao iG Queer, Rum começou destacando a importância de falar abertamente com a comunidade LGBTQIAP+ sobre liberdade sexual. 

“Eu defendo que a sexualidade em todos os seus compostos -- gênero, orientação e erostimo, onde entra a questão do BDSM -- é fluida. Ela precisa ser estudada, explorada e conhecida. O autoconhecimento é um processo que nunca acaba, então, no meu ponto de vista, se você tiver 20, 40, 60 ou 80 anos, durante todo esse tempo você terá a chance de explorar e se conhecer. É importante que se tenha a mente aberta para o erotismo, para a libido e para os próprios desejos e fetiches para entender o que lhe dá prazer e quais são os limites”, conta. 

Ainda de acordo com Rum, os mitos que giram em torno do BDSM e que por vezes desestimulam as pessoas a conhecerem as práticas e experimentá-las se for o caso, giram em torno principalmente da cultura sexual a qual os indivíduos estão inseridos e como ela passa impressões equivocadas não apenas sobre o BDSM.

“Tem muito a ver com a nossa cultura. O medo do BDSM começou quando Krafft escreveu sobre as Psychopathia Sexualis com base no que o banco de réus tinha como desejo sexual. Ali iniciou-se a falácia de que o BDSM, as pessoas sádicas e masoquistas, são doentes. Hoje conseguimos diferenciar o sadismo e masoquismo patológicos do sadismo e masoquismo abordados dentro do BDSM, que são naturais e saudáveis. A sociedade atualmente ainda carrega a ideia de que essas pessoas são doentes e que tais gostos são pecaminosos. Esses tabus são os mais difíceis de quebrar, porque são alegações que passam de geração para geração, está enraizada em nosso cotidiano. O Brasil é o país que mais consome a pornografia BDSM, mas ao mesmo tempo é o que mais o rejeita”, explica. 

Para Natali Guitierrez, sexóloga, o BDSM é resumido a aspectos que soam de modo pejorativo e equivocado, pois interpretam essas práticas como um tipo de violência deliberada. “Um dos maiores mitos quando falamos de BDSM é que as pessoas o resumem a dor e dominação. Acham que a prática consiste em ter uma coleira no pescoço, alguém com uma guia levando você ao shopping e ser humilhado, queimado, chicoteado ou enfrentar algum tipo de sofrimento, mas na verdade ele é baseado em consentimento e respeito aos limites do outro. Nada ali  é feito sem que ambos estejam de acordo. Esses mitos atrapalham demais quem tem vontade de experimentar e entender mais sobre o assunto, porque acaba caindo no achismo, que pra mim é o maior problema: um muro que impede as pessoas de explorarem essa opção”, esclarece.

BDSM é mais do que a indústria vende

Para falar sobre BDSM e principalmente aprender sobre o assunto, adquirir informação de qualidade é fundamental, ainda mais por se tratar de algo diretamente relacionado ao prazer e ao bem estar emocional e físico durante o ato. É comum que muitas pessoas se orientem por filmes e vídeos, entre outros materiais, e os utilizem como referência. De acordo com Rum, essas indústrias não retratam o BDSM com a devida fidelidade. 

“A indústria cinematográfica, pornográfica e literária reproduz aquilo que vende, e não o que realmente é o BDSM. Alguns dos estereótipos mais vistos e vendidos é que o dominador é uma pessoa sádica, fria e sem nenhum romantismo, mas não é assim que funciona. O dominador é aquele que monta a sessão e dita as regras, mas não necessariamente é uma pessoa sem carinho. Também não precisa ser sádico, que é outro estereótipo muito forte. Muitas coisas foram distorcidas na imagem do BDSM”, esclarece. 

João Ribeiro, sexólogo da INTT, ressalta que o BDSM é muito amplo e que a imagem retrata nos filmes e nos vídeos apresenta essas práticas de maneira idealizada e pouco verossímil. “BDSM é algo bem amplo, então ele oferece prazer para quem está envolvido nesse jogo, porém as pessoas nunca podem pensar em um prazer igual a um filme. Aquilo é algo idealizado, pois existe um prazer na dor, mas nem sempre a pessoa está preparada para sentir esse prazer. É preciso estar ciente do que vai ser feito, do que se quer fazer e os limites de ambos”, pontua. 

Quando se coloca o pornô em si no foco da discussão, é importante ressaltar que muitas pessoas ainda o utilizam como um instrumento para “aprender” a fazer sexo. Renan de Paula, sexólogo, deixa claro que usar a pornografia como referência oferece uma noção equivocada do ato, e reproduzir isso pode comprometer a qualidade das experiências sexuais. 

“Os erros estão relacionados a querer iniciar, mas não saber o que fazer. Muitas vezes as pessoas procuram o pornô, e na minha visão esse é o pior jeito de aprender a transar. A pessoa vai entender que só é legal se machuca e se o parceiro ou parceira se grita. Esse tipo de filme mostra muitas coisas que geralmente são uma hipérbole do que é o BDSM. Essa prática não pode ser uma atuação e sim algo prazeroso”, aponta.

O que é preciso saber para começar? 

A primeira coisa que Rum ressalta sobre o que norteia as práticas do BDSM é o pilar ético e a importância dele para tudo que envolve as práticas. “Qualquer coisa para ser BDSM precisa respeitar os nossos pilares básicos, o SSC: são, seguro e consensual. Tudo que foge disso, como retratado em ‘50 Tons de Cinza’ e ‘356 Dias’, retrata o BDSM de modo distorcido e não representa a comunidade. Se não está de acordo com o SSC, então não é BDSM”. 

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Muito se debate sobre como resumir o BDSM de maneira prática, mas como Rum chama a atenção: a sigla consiste em um conjunto de práticas distintas que atendem diferentes fetiches, logo é equivocado utilizar um exemplo em específico para resumir tudo que a comunidade BDSM pratica e aborda. 

Rum
Reprodução/Instagram

Rum é gênero-fluido e uma pessoa não-monogâmica

“Quando a gente fala de uma prática em específico, ela não tem como resumir todo o universo. Estamos falando de bondage, disciplina, dominação, sadismo, masoquismo e submissão: essa é a sigla, mas existem infinitas práticas. Quando falamos do spanking, por exemplo, é uma prática que envolve o bater o apanhar. Uma entre milhares”. E, para quem quer começar a se aventurar por todas essas possibilidades, Rum destaca que essa pessoa “vai ter que estudar muito e diferenciar a questão do fetiche e da fantasia do que realmente é sadio para ela. Eu sempre indico a leitura de perfis que passam informação de boa qualidade, então sempre desconfie de tudo até ter certeza de que aquilo é verdade. Não se jogue nem se coloque em risco para tentar ter experiência”. 

Sobre as práticas, é importante ressaltar que muitas delas podem oferecer riscos, o que apenas frisa a importância de agir com responsabilidade, cuidado e respeitar todos os limites dos que estão envolvidos. Rum reforça que, antes de tudo, é preciso estar ciente de tudo que pode acontecer durante uma sessão e ter bem definidas todas as vontades e desejos.

“Nem toda prática pode ser totalmente segura, então é preciso conhecer todos os riscos e saber se você está disposto a correr esses riscos. Tendo isso em mente, pegue seu caderno e anote tudo pelo qual tem interesse: os seus fetiches e o que você gostaria ou não de fazer. Construa os seus termos, isso é muito importante. Eles consistem nas suas restrições, seus desejos e aquilo que você não tem vontade de realizar. Tudo isso deve ser feito antes de entrar de fato na comunidade”, orienta.

Natali Guitierrez também chama a atenção para o cuidado com a pessoa envolvida no ato, ou seja, com quem irá se envolver e se tudo está de acordo com os limites impostos. “Existem pessoas que são especialistas em BDSM e super envolvidas nesse universo e algumas que acham que sabem o que estão fazendo. O famoso achismo, que acho que permeia todas as perguntas. É importante tomar cuidado com quem estou me envolvendo, se está seguindo ou fazendo as coisas que acordo com a própria vontade ou se é para agradar o outro”, ressalta. 

Todos os cuidados e precauções se estendem antes, durante e depois das sessões. Ao falar sobre o antes, Rum destaca especialmente a palavra de segurança, que possui função e poder fundamental dentro de qualquer prática realizada durante uma sessão BDSM, além de medidas fundamentais que compõem um durante e um depois seguros. 

“Combine uma palavra de segurança. Se ela não for utilizada ou respeitada, está errado. Além disso, se você está em um bondage, por exemplo, é preciso saber como sair dessa amarração sozinho, sem depender de outras pessoas. As sessões devem ser feitas em locais públicos, e com isso me refiro a um motel ou em porão -- eles são bem comuns. Essa conduta parte do ponto de que precisa ter alguém em volta para quem pedir socorro caso aconteça alguma coisa, mas a sessão em si é uma construção. Quando se conhece uma pessoa dominadora ou submissa e deseja ter uma sessão, é preciso conhecer essa pessoa, conversar com ela, apresentar os seus termos e ler os termos dela antes de marcar a sessão”, instrui. 

Para ter ainda mais segurança durante as práticas, Rum destaca o chamado north safe. “Conhecer as saídas de emergência do local, conseguir sair do bondage e saber tirar uma algema. É preciso ter essa segurança”, orienta. 

A entrega do autocontrole

Um dos fetiches que faz parte da comunidade BDSM e que pode ser trabalhado por ela é a entrega do autocontrole, mas Rum chama a atenção para o fato de que, em hipótese alguma, isso deve ser desenvolvido de modo a quebrar a barreira do são, seguro e consensual. 

“A palavra de segurança tem que estar na ponta da língua e precisa ser utilizada. As pessoas tendem a extrapolar os próprios limites para agradar o parceiro de sessão, como se isso fosse uma obrigação, e esquece que elas estão ali pelo próprio prazer. Todos estão ali para se sentirem bem, então não é um que serve ao outro. Se no momento em que a pessoa se sente confortável ela não usa a palavra de segurança e não encerra os atos, isso pode resultar em uma relação tóxica e abusiva, pois ela não está sentindo prazer, está negligenciando seus limites e colocando-se em risco”, diz. 

Se tratando de BDSM e da importância da segurança antes, durante e depois das práticas, deve-se destacar que os danos causados por ações irresponsáveis não apenas físicos, mas também mentais e emocionais. “Tudo bem querer receber alguns tapas, por exemplo. Mas não está tudo quando isso desrespeita seus limites e consentimento, te faz sentir um objeto e não valoriza a sua integridade como ser humano”, aponta Rum. 

Aftercare é fundamental

O aftercare nada mais é do que os cuidados que o dominador deve ter com o submisso após uma sessão. Rum explica que, por ser quem conduz a sessão, a pessoa que domina precisa estar preparado para fazer um aftercare adequado e auxiliar a pessoa submissa a manter a manutenção da sua saúde física, mental e emocional. 

“Esse cuidado envolve fazer a pessoa entender que ela é um ser especial, um indivíduo que está ali devido ao próprio consentimento para explorar o prazer particular. Já tive muitos relatos de pessoas que nem sabiam o que era um after , que nunca tiveram esse cuidado depois das sessões. A falta dessa medida afeta diretamente a saúde emocional. Imagina: depois de uma prática de humilhação, na qual são tirados todos os pilares sociais que ela impõe no dia a dia, como a pessoa se sente? Como que aquele ser vai se sentir após levar um cuspe no rosto, por exemplo, que é uma prática comum na humilhação? É preciso conversar com essa pessoa depois e ela tem que colocar na mesa tudo o que sentiu para que isto seja debatido durante o after ”, esclarece. 

Natali Guitierrez chama a atenção ainda para a importância de se permitir experimentar coisas novas em função das próprias vontades e para agradar primeiramente a si mesmo, com base no que ainda não foi experimentado antes. “É importante se permitir coisas novas para experimentar, vivenciar. Funciona mais ou menos como comer todos os dias a mesma coisa e não fazer ideia de outras comidas até experimentar, então é legal saber o que podemos achar interessante, explorar novas zonas erógenas, descobrir novas formas de prazer e novos tipos de relacionamento com a parceria. Isso é importante para nossa autoestima, relacionamento, corpo e emocional, desde que seja um desejo nosso e não para agradar alguém”, conclui.

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