Conheça o pet play, fetiche do BDSM de interpretação de papéis de animais de estimação; na foto, Rê Kessel (direita) está ao lado de sua pet,, Equina Nur, que encena uma pony
Acervo pessoal
Conheça o pet play, fetiche do BDSM de interpretação de papéis de animais de estimação; na foto, Rê Kessel (direita) está ao lado de sua pet,, Equina Nur, que encena uma pony


Já se imaginou tendo relações sexuais enquanto interpreta o papel de um gato ou chegando em um bar rastejando de quatro e levado por uma coleira? Essas práticas existem e estão longe de ser algo considerado esquisito para quem é adepto do pet play. A prática, que está dentro do BDSM , consiste em um jogo de submissão em que uma pessoa imita um animal doméstico, enquanto outra desempenha a função de treinador ou dono.

Essa encenação pode durar horas, dias e até semanas. O pet imita os comportamentos de um animal pré-definido, seja filhote ou adulto, enquanto o dono ensina truques, faz elogios, dá recompensas ou pune por erros. É o que explica o psicólogo Marcos Santos, psicólogo especialista em sexualidade da plataforma Sexo sem Dúvida. Todos os atos dentro do pet play, até as punições, são consensuais entre as pessoas participantes.


Santos esclarece que o pet play pode ou não ser um jogo erótico. “No BDSM, as práticas não necessariamente envolvem sexo. Por ter conotação de brincadeira, disciplinadora e, às vezes, até mesmo terapêutica”, pontua. Como estabelecido dentro do BDSM, o jogo geralmente é baseado em uma hierarquia de comando, submissão e obediência.

Para aprimorar a prática, participantes podem utilizar apetrechos como coleiras, correntes, mordaças e chicotes. Nesse contexto, eles podem ser usados para fazer o adestramento do pet. Santos aponta que os desejos dos participantes podem ir de carinhos e lambidas até a palmadas corretivas e humilhações.

A ligação entre o pet play e as pessoas LGBTQIA+ é muito forte, tanto que há diversos integrantes que conseguem transparecer na prática e nos fetiches as próprias experiências. “Mesmo que uma parte da população veja a comunidade BDSM como excêntrica, existe uma maior probabilidade das pessoas LGBTQIA+ estarem bem com elas mesmas pela própria expressão de suas sexualidades”, afirma Santos.

O especialista emenda que pessoas que são vistas pela sociedade como “excêntricas” são mais propensas a ter uma saúde mental melhor do que as que não aceitam seus desejos. “Falar e expor suas fantasias é tanto uma transparência do que se deseja, quanto uma pré negociação com o consentimento da parceria para viver uma fantasia”.

Estrutura do pet play

Rê caracterizade como gato
Acervo pessoal

Rê Kessel descobriu que se identifica com o cat play na prática

Dentro do pet play, existem variações dos tipos de animais que são representados. Santos explica que a escolha do animal que será representado no jogo é o fio condutor dos interesses das pessoas participantes e da dinâmica das cenas. O psicólogo aponta que as principais representações do pet play são:

  • Dog Play: é um cachorro que está em estágio adulto e deve ser tratado como tal.
  • Puppy Play: é um filhotinho de cachorro. Precisa ser treinado e adestrado.
  • Cat Play: são gatos, pois gostam de lamber, ronronar e estar próximo de seu dono.
  • Kitten Play: é um filhotinho de gato. Precisa tomar leite e ser cuidado com a mesma atenção.
  • Pony Play: é um pony ou cavalo que usa cascos, orelhas, selas e até puxam carrinhos.
  • Piggy Play: é um porco com focinho, pode ficar num chiqueiro e pode rolar na lama.

Rê Kessel, 50, começou a praticar o pet play a partir da vertente pony play, mas atualmente tem praticado o cat play após sessões de BDSM de forma lúdica, sem adestramentos. “Fazer isso no fim me ajuda a me conectar com tudo que vivi durante a sessão”, conta. Essa descoberta aconteceu na prática.

Além da vivência com o cat play, Rê também tem experiências na vertente Pony Play como pessoa treinadora. No entanto, sua pet, Equina Nur, já veio adestrada. “Ela já veio bem treinada para mim. Entre as atividades que fazemos estão passeios de charrete ou passeios comuns”, explica.

Santos explica que faz parte da brincadeira que o pet realmente imite características do animal desejado. Para isso, pode-se emular os sons dos animais (latir, miar, relinchar ou roncar) e usar acessórios, maquiagens e fantasias (orelhas de gato, coleira de cachorro, rabo de pony e nariz de porco).

Para reproduzir o rabo, as pessoas praticantes podem optar pelo tail, que reproduz a cauda do animal escolhido e pode ser tanto externo como interno. Neste último caso, ele é vendido como plug anal com a cauda na extremidade. Patas em forma de luvas e joelheiras para acostumar a ficar de quatro também são opções aderidas ao pet play.

O psicólogo aponta que essa caracterização auxilia na imersão dos participantes por mais tempo. “Isso ocorre seja servindo de imersão, ao entrar de cabeça nos personagens, ou pela prática de manter alguém em cativeiro. Isso pode ser diretamente inspirado por itens que mantêm os animais em restrição, como correntes e jaulas. Existem também orelhas e fantasias completas dos animais”.

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Também pode ser incluído na brincadeira o ato de imitar um comportamento (comer do pote de ração, dar a pata e ficar de quatro). Para conseguir essa harmonia entre pet e dono, é necessário muita dedicação e vínculo entre as pessoas participantes. “É essencial para quem for o bichinho que entre no personagem, literalmente pensar e agir como um animal. Assim, a brincadeira ficará muito mais verdadeira e divertida”, instrui o psicólogo.

Pet play pode ir além das quatro paredes

Como Santos já pontuou, o pet play é uma prática que não é totalmente erótica e, com isso, ela acaba transbordando para a vida pública. As interpretações podem durar horas, dias e até semanas, dependendo do combinado entre as pessoas integrantes.

Os locais mais frequentados por adeptos do pet play são festas fetichistas e bares temáticos. “Nestes locais os donos e adestradores podem até servir petiscos no chão”, diz o psicólogo. Encontros públicos e casais que optam por continuar a prática em shoppings, por exemplo, também existem. No caso de quem decide desempenhar funções corriqueiras, como ir às compras, o pet anda de quatro e pode usar coleira e focinheira.

O prazer causado pelo pet play

Rê conheceu o pet play em um concurso no Dominatrix Augusta, bar temático em São Paulo. "Fizeram um concurso de pet e eu participei, ainda sem perceber a questão de pet ser de estimação. Fui de tigresa", lembra.

Rê conta que esse primeiro contato foi interessante para colocar para fora seu lado animal. Um ano depois, começou a praticar. “O pet play me proporciona a possibilidade de viver o meu lado instintivo, sem travas sociais”, diz.

Santos explica que, no geral, adeptos à prática sentem prazer ao poder liberar a própria fantasia, desde que isso seja feito de forma consensual e que respeite o limite entre a saúde e o mal estar. “Se pararmos para pensar, a maioria das pessoas omite, reprime ou sabota os desejos sexuais. Entretanto, cada pessoa tem na individualidade e em seu universo de desejos a capacidade de se soltar um pouco mais e até mesmo se libertar das amarras da vida cotidiana durante o sexo”, pondera.

Tem-se a ideia de que praticantes de pet play (e de qualquer outra prática sexual não convencional) são pessoas “esquisitas” ou “perigosas”. Na verdade, elas podem ser de qualquer tipo. “O que acontece ao chegar em casa é que cada um assume seu novo papel, retirando a pressão e libertando-se dos pudores e preconceitos. Isso pode aumentar significativamente tanto a excitação sexual como tornar a vida mais leve e divertida no dia a dia”, diz o especialista.

“A brincadeira pode ser uma atividade muito divertida quando as pessoas mergulham de cabeça na interpretação. É uma oportunidade de tirarem uma folga da vida comum e permite também a inversão de papel assumido para a sociedade. É comum que pessoas em posição social de liderança e autoridade se submetam aos comandos de alguém durante a brincadeira. Isso significa tirar o peso e estresse em ser alguém preso a uma rotina, virando durante alguns momentos um bichinho inocente e brincalhão”, acrescenta.

No entanto, Santos alerta que é necessário observar como esses desejos têm sido explorados na prática. Caso a pessoa praticante fique muito dependente ao fetiche e só consiga sentir prazer dessa forma, pode ser importante procurar um especialista. “Fantasias são imagens mentais que despertam o desejo e erotismo da pessoa e deixam de ser saudáveis quando se tornam indispensáveis para o prazer”, justifica.

Rê recomenda que, antes de praticar, as pessoas pesquisem sobre o pet play e sobre BDSM em geral para não cair em ciladas. “É preciso ter muito cuidado em qualquer situação. Gente ruim existe em todo lugar”, adverte.

Pet play não tem a ver com zoofilia

As práticas sexuais não convencionais, principalmente as que são englobadas no BDSM, tendem a ser vistas com maus olhos e de forma equivocada por quem está de fora desse nicho. Um dos principais mal-entendidos ligados ao pet play é de que esse fetiche está diretamente ligado à zoofilia; ou seja, sentir desejo por animais.

“Na prática, o pet play não possui qualquer relação com isso e é totalmente abominável entre os praticantes”, começa Santos. Rê complementa que, por mais que a prática envolva a interpretação de animais, quem está ali ainda é um ser humano capaz de fazer escolhas e ciente do que está acontecendo. “Por mais que se assemelhe ao animal em comportamento, não se parece fisicamente. Não tem nem como confundir. Para mim, isso é coisa de gente que não vê nada além de sexo hétero e influência religiosa demais”, rebate.

Quando o ato não tem relação com o desejo sexual, pessoas de fora da prática podem tentar ridicularizar as cenas e os desejos das pessoas envolvidas. No entanto, Santos afirma que, ao deixar os julgamentos de lado, a prática pode ser vista como amigável e até mesmo fofa.

“Muitas pessoas acham interessante porque já estão mais acostumadas com a questão do cosplay, que consiste em se fantasiar e interpretar personagens de filmes e histórias em quadrinhos. Outras ainda precisam de uma boa dose de educação e imaginação”, afirma.

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