Entenda as problemáticas do chá revelação
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Entenda as problemáticas do chá revelação




O primeiro chá de revelação de que se tem registros oficiais aconteceu em 2008, nos Estados Unidos. Jenna Karvunidis estava grávida de sua primeira filha, Bianca, e decidiu organizar uma festa para revelar o sexo do bebê. Na época ela fez um post sobre isso em seu blog e logo a festa viralizou. Desde então, tornou-se uma espécie de tradição reunir a família e os amigos para revelar o sexo do bebê durante o período de gestação. Normalmente os eventos são bem marcados pelas cores azul (referente ao sexo masculino) e a cor rosa (referente ao sexo feminino).

Desde bolos a balões, são criados cada vez mais métodos criativos de fazer a revelação. Contudo, há alguns pontos a serem questionados sobre esse hábito como, por exemplo, a separação das cores azul e rosa, que por si só faz parte da gama de estereótipos de gênero que separam cores, roupas, brinquedos e acessórios a “coisas de menina” e “coisas de menino”. 


Um bom exemplo de como esses costumes estão começando a ser refutados foi o chá revelação da influenciadora e ex-BBB Bianca Andrade.  Em fevereiro deste ano, Bianca e o jogador Fred foram aos stories do Instagram para conversar com os seguidores sobre os preparativos para o evento. A influenciadora anunciara que não seria nada tradicional.

“Bom dia, Brasil! Mais especificamente, minha terra! Estamos aqui no Rio de Janeiro, aqui será o nosso chá-revelação!”, começou ela em um dos vídeos. “E aí, gente, o que será: menino ou menina? Rosa ou azul?”, continuou, e então Fred continuou: “A gente não tem essa não, né, linda? A gente pensou junto e, independente se for menino ou menina, não tem essa. Pra gente, cor não tem gênero”. 

“A gente chegou até a pensar de fazer o rosa pro menino e fazer azul pra menina, mas aí a gente chegou a conclusão que, independente do sexo do bebê, vai ser roxo, que é uma cor que tem uma história muito importante pra gente. É a minha cor favorita e é uma fusão das duas cores, do rosa com o azul”, prosseguiu o jogador. Em seguida, Bianca complementou: “Azul e rosa são as minhas cores favoritas, quando junta dá o roxo. Então tem toda a história comigo, é a cor favorita do Bruno [nome verdadeiro do Fred]”. 

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A psicóloga Rosângela Casseano, do grupo PsicoPass, destaca que aos poucos a estrutura social está repensando a tradição do chá de revelação, embora ainda haja muito o que discutir e trazer à tona. Ela destaca principalmente a importância de reconhecer que há coisas mais importantes e que merecem mais atenção do que o sexo da criança. 

“A sociedade ainda está com muita defasagem sobre o assunto estereótipos de gênero, por isso acho importantíssimo falarmos sobre isso e começar o quanto antes um processo educativo para toda uma geração que há séculos só entende ‘A’ ou ‘B’. Vemos um processo de mudança, mas ainda há muito o que aprender e discutir. Estamos falando de uma tradição que tende a se ressignificar, e é importante celebrar a vida, a continuação do legado, mas com certeza há questões muito mais relevantes do que sexo do bebê. As festas de chá revelação, apesar de serem uma grande alegria para os pais, trazem um aspecto muito negativo quando reforçam a importância do gênero e não da nova pessoa que integrará a família”, explica ela. 

O papel dos pais tanto no acolhimento dentro da família quanto na reprodução de comportamentos e hábitos é notável e muito importante na formação da criança, de acordo com a especialista. Ela acrescenta que o ideal seria que os pais promovessem mais brincadeiras e atividades que estimulem o desenvolvimento emocional e sociais dos bebês e das crianças em vez de reforçarem papéis de gênero socialmente descritos como “de menino” e “de menina”. 

“Sem dúvida os pais são considerados como os maiores responsáveis pela aquisição da identidade e dos estereótipos de gênero de seus filhos, pois suas atitudes e comportamentos servirão como modelo na formação da personalidade e criação das crianças. Um fator importante é o reforço que os pais vão construindo através dos brinquedos que ofertam aos filhos, jogos e apontamentos de comportamentos adequados ou não para reforço dessas identidades. Porém acredito que os pais devam cada vez mais apoiar a experimentação de brincadeiras e brinquedos que sejam para a exploração da criatividade, autoconfiança e interação social, visando muito mais o desenvolvimento social e emocional”, elucida. 

Além da influência dos estereótipos de gênero no desenvolvimento das crianças, a própria expectativa dos progenitores é um ponto a ser refletido dentro das famílias. É importante ter em mente, de acordo com a psicóloga, que acolher os talentos e especificidades da criança é fundamental e vai muito além do que os pais esperam o planejam para elas, pois estar em um ambiente saudável é muito importante para que, no futuro, os filhos cresçam mais independentes. 

“Os pais sempre criarão expectativas em relação aos filhos em todos os campos. Temos uma grande oportunidade de abraçar e acolher enxergando nos filhos suas potencialidades desconectadas de padrões rígidos e oferecer ambientes seguros e afetivos. Uma criança que se sente acolhida e segura com os pais se tornam adultos independentes e fortalecidos”, diz. 

Por outro lado, a rejeição familiar ou a pressão por não estar de acordo com os estereótipos impostos, tanto no caso de filhos cis quanto no caso de filhos que em algum momento de suas vida descobrem sua identidade transgênero, causa muita dor e consequências emocionais que poderiam ser evitadas caso certas imposições fossem repensadas desde cedo. 

“A rejeição dos pais e dos familiares pode trazer dores emocionais e psicológicas e na formação de seu caráter e personalidade, podendo de fato minar toda uma jornada de sucesso para a vida futura e levando a problemas psíquicos e até suicídios”, conclui.

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