A pressão de se encaixar nos estereótipos vem de fora e de dentro da comunidade LGBT
Alexander Grey/Pexels
A pressão de se encaixar nos estereótipos vem de fora e de dentro da comunidade LGBT

Descobrir-se trans e assumir a própria identidade envolve muitos aspectos da vida de alguém, e um deles é a aparência. Apesar de ter a vivência ligada unicamente à disforia – desconforto – corporal na maior parte das vezes, a forma como cada pessoa trans lida com o próprio corpo é muito relativa, ou seja, ser transgênero não significa que aquele indivíduo necessariamente irá recorrer à terapia hormonal, intervenção cirúrgica ou mudará de estilo. 

Contudo, levando em conta que o sistema vigente é cis-heteronormativo e binário, a figura do homem e da mulher são diretamente associadas a estereótipos de “masculinidade” e “feminilidade”, e as identidades não-binárias, por sua vez, sequer são consideradas em muitos espaços. Os padrões vão desde os trejeitos até a forma de se vestir e se maquiar – ou não –, e atingem toda população. Apesar disso, vê-se que tal fenômeno recai com maior peso sobre pessoas trans, uma vez que elas fogem da cis-normatividade. 

A pressão para que a letra T da sigla se adeque aos estereótipos em questão pode causar consequências variadas. A psicopedagoga da Ipefem e pessoa não-binária, AJ Dalmaso, destaca que os efeitos dos padrões estéticos e comportamentais agem principalmente no sentido de “afastar internamente a atitude social da real essência de uma pessoa, provocando angústia, por exemplo, e levando a um estado de sofrimento muito difícil de reverter”. 

Ainda de acordo com ela, “nós experimentamos com muita frequência o sentimento de não pertencimento e de preterimento em relação à parcela cisgênera da sociedade. É como se a gente não existisse, e quando existe e é vista, somos associadas à prostituição e às doenças. Com isso, a saúde mental e emocional da pessoa trans fica extremamente afetada. Imagine: em diferentes círculos e grupos políticos ou privados, vivendo a rejeição a cada interação”. 

Luz Lisboa é uma pessoa não-binária agênero e atualmente adota pronomes masculinos. Ele conta ao iG Queer que durante o processo de autoconhecimento descobriu que estereótipos de feminilidade o deixavam profundamente desconfortável, e que já se sentiu obrigado a se “masculinizar”. 

“Hoje em dia, diminuí ao máximo as vestimentas vistas pela sociedade como ‘femininas’, mas não é algo que me deixa confortável. Fiz isso não por querer, mas para que as pessoas possam me ver e respeitar meus pronomes”, explica. “Se eu disser que me sinto 100% confortável usando roupas ditas ‘masculinas’, seria mentira. Às vezes tenho vontade de usar peças ditas como ‘femininas’, mas evito pelo fato de que as pessoas me olham com essas roupas e me tratam no feminino”. 

Lisboa ressalta ainda que a visão que as pessoas cisgênero possuem sobre corpos trans é muito rasa. “A partir do momento em que elas [pessoas cis] veem uma pessoa trans, acham que ela tem que cumprir uma série de requisitos para ser validada. É como se os cis precisassem ‘aprovar’ a nossa existência, e dentro desse pensamento eles dão ‘check’ em uma lista imaginária: cobram feminilidade para pessoas transfemininas e masculinidade para pessoas transmasculinas”.

Ele traz à tona que alguns desses estereótipos inclusive o impedem de vivenciar a própria identidade de maneira mais livre: “Sensualidade, por exemplo, é vista como algo muito ligado ao feminino. Levando em conta que sou uma pessoa trans e uso pronomes masculinos, me sinto pressionado a não fazer algumas coisas, como sensualizar, porque isso é colocado na caixinha do feminino”. 

Para Luz, apesar dessa visão mais estereotipada por parte de pessoas hétero-cis, a pressão estética também vem de dentro da comunidade. Ele próprio já sentiu isso na pele, como explica ao iG Queer: “Já ouvi de mulheres cis lésbicas e de homens cis gays essa padronização, como ‘quando você vai se hormonizar?’. Dentro da comunidade trans também existe, principalmente dentro do binário. Ainda existe transfobia quanto a identidades não-binárias dentro da própria comunidade transgênero”. 

Vivenciar as pressões estéticas de dentro da comunidade é algo que também esteve presente na vida de Nathália Rodrigues, mulher trans, musicista e influenciadora . Ela aponta que entre os integrantes da letra T da sigla também existem expectativas quanto ao corpo trans. 

“Até no nosso meio existe cobrança”, diz. “Dizem que ‘se você não for feminina, você não é trans, e sim gay’. Por isso, a terapia hormonal é colocada como uma obrigatoriedade pelas próprias pessoas da comunidade, por exemplo. Eu não sabia com quem falar sobre isso, então dependia de pesquisas na internet para conhecer os hormônios, saía tomando anticoncepcionais antes de saber que nossa terapia hormonal não é feita por meio deles”.

Mais especificamente sobre a visão externa, Nathália aborda como a passabilidade, ou seja, o quão próxima uma pessoa trans é de uma “aparência cis” também influencia na pressão para que essa parcela da população se adeque aos estereótipos vigentes. “Tem muito a ver com a passabilidade , e por conta das exigências da sociedade e das próprias pessoas trans, mulheres transgênero que possuem traços considerados ‘masculinos’ sofrem muito mais preconceito. As pessoas jogam piadas, criticam, se afastam. Existe uma série de situações. Mas o pior de tudo é ver que isso parte de dentro da nossa própria comunidade também”.

Além de estarem sujeitas a ouvirem comentários e receberem olhares nos ambientes sociais, pessoas trans também se deparam com a pressão estética ligada à transfobia no mercado de trabalho. Nicholas Campioni, homem trans, conta que trabalhou em um supermercado durante um tempo e que lá vivenciou um dos momentos mais difíceis durante a transição. 

“Como eu ainda estava no processo de retificação dos documentos, eles disseram que eu poderia ter o nome que eu quisesse no crachá”, explica ele. “Apesar disso, os clientes me olhavam e me chamavam pelos pronomes errados. Isso por si só já é difícil, mas como se não bastasse eu fui orientado a não corrigi-los porque eles poderiam me dar uma avaliação negativa depois, além do famoso ‘o cliente sempre tem razão’”. 

“Acho que toda pressão que eu senti de me masculinizar partiu de mim mesmo”, continua Nicholas. “Porque eu percebi que eu não seria reconhecido como homem se não correspondesse às expectativas. Não é sempre que eu quero ‘parecer um homem’. Por exemplo: eu não gosto muito dos meus pelos na perna, porque tenho muitos e isso me incomoda, mas eu deixo porque se eu andar de short sem pelos vão pensar que sou mulher. Isso é bem chato e me deixa bem mal”. 

Ele diz ainda que onde trabalha atualmente não encontra problemas com colegas de trabalho, mas “com relação à clientela é diferente. Os clientes realmente enchem o saco e, por conta disso, cada vez mais sinto vontade de mudar algo no meu corpo. Exemplo: se antes eu achava minhas bochechas fofas, hoje já quero ter um maxilar marcado porque as pessoas ficam notando isso. Bem, só mais um dia na vida de um trans no Brasil”. 

A fim de reduzir os impactos negativos das pressões sobre o próprio corpo, AJ Dalmaso ressalta que é importante estar em contato com pessoas que dividam experiências semelhantes e que de fato estejam ali para prestar apoio. Ambientes saudáveis podem ser difíceis de construir para pessoas trans, mas se mostram bastante necessários. 

“As redes sociais podem ser grandes aliadas nesse processo”, ressalta. “É muito importante se vincular a pessoas que buscam o mesmo que a gente e que mostram que a vida é possível sendo quem nós somos. Conhecer diferentes histórias pode ser muito benéfico para que a pessoa trans se perceba como parte integrante de uma sociedade e que ela viva genuinamente o sentimento de pertencimento”.

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