Paula Garde (Salão Paula Garde); Helvio Tavares (Sparks Cuts) e Brune Mantese (Peluqueria Furiosas).
1. Divulgação; 2. Divulgação; 2. Reprodução/Instagram
Paula Garde (Salão Paula Garde); Helvio Tavares (Sparks Cuts) e Brune Mantese (Peluqueria Furiosas).

Para muita gente, fazer uma mudança no visual é algo que costuma levar tempo. Afinal, a escolha sobre o novo cabelo, por exemplo, vai muito além da estética, pois envolve autoestima, liberdade, segurança. Entretanto, quando se trata de comunidade LGBTQIAPN+, esse tempo pode ganhar outra conotação se a transformação for feita em um lugar que não acolhe essas pessoas.





Alguns profissionais da beleza estão criando espaços mais livres, sem feminino e masculino, inovando com suas próprias regras e criando cortes e penteados únicos.

Por esse motivo, o iG Queer com a ajuda do Tudo Pra Cabelo (hub de conteúdo de cabelos da Unilever) listou alguns salões de beleza genderless (sem gênero), que são espaços pensados por quem realmente entende do assunto e onde qualquer pessoa é bem-vinda, fugindo de padrões conservadores e binários; conheça alguns. 

Salão Paula Garde

Paula Garde sentada em cadeira do seu salão
Divulgação

Paula Garde, pessoa à frente do Salão Paula Garde.

A cabeleireira Paula Garde, 33, foi pioneira e abriu em 2017 o Salão Paula Garde, em Campo Grando (MS). Defensora da liberdade capilar e totalmente avessa aos padrões de beleza opressivos, ela criou um ambiente despojado e confortável, pensando especialmente no público LGBTQIAPN+. Enquanto uma mulher lésbica, ela começou o salão como um experimento, no quintal de casa, antes de largar a segurança do emprego fixo.

“Depois de alguns meses, vi que era isso o que queria e só daí comecei a planejar a abertura do espaço”, conta. “Nesse tempo pude definir o que queria e o que não queria, sempre considerando o acolhimento. Um lugar seguro para qualquer pessoa ser quem quiser ser”, relembra.

Em sua concepção, a principal diferença entre um salão pensado para a comunidade queer e um salão unissex, se dá pelo ambiente e pelos preços. “Uma diferença que é bem básica, e ainda usado nos salões da minha cidade, é diferenciar o valor do corte por gênero, já começam a segregar aí. Nesse meio da beleza, sempre tentam enquadrar a gente dentro de um padrão, e o salão queer quer justamente não enquadrar ninguém”, diz.

Para ela, outro ponto essencial na construção desses espaços é a escuta para fazer um corte mais humanizado: “Sempre converso com os clientes para decidirmos o corte juntos. Não acho que cabe eu decidir pelo cliente, meu papel é entender os desejos e expectativas e conseguir recriar em cada cliente. Até porque cada pessoa é única e merecem cabelos únicos”, defende.

Endereço:  Rua Professor Xandinho, 126 – Vila Antonio Vendas, Campo Grande (MS). 

Sparks Cuts

Helvio Tavares, 34, é uma pessoa que se idenfica como queer e gay e está à frente do salão localizado no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Sparks Cuts, nasceu de uma inquietação e desejo por mais liberdade de Helvio que, antes de criar o salão, trabalhava como coordenador em uma escola de inglês. Ele se sentia sufocado pela obrigação de usar terno ou camisa polo para esconder sua subjetividade em prol de uma imagem tida como “masculina”.

Helvio Tavares em pé posando para a foto
Divulgação

Helvio Tavares, responsável pelo Sparks Cuts.

Em busca de estabilidade financeira, mas sem renunciar sua identidade, optou por abrir o próprio negócio após observar uma movimentação no mercado com muitas barbearias fazendo sucesso no Instagram. Notou existir espaço para algo novo e assim criou um salão para exaltar belezas diferentes, longe de padrões machistas, sexistas, LGBT+fóbicos e gordofóbicos.

Para ele, a expectativa de gênero que os lugares impõem às pessoas nos salões tradicionais fazem com que muita gente acabe cortando seus cabelos em casa. “Ou pedindo para ume amigue cortar, para evitar experiências ruins em lugares que não te tratam no pronome correto, nem te oferecem respeito e dignidade”, completa. “Passo boas horas do meu dia no estúdio, onde nada remete a um salão tradicional. Não quero nada que possa trazer lembranças ruins de experiências ruins ligadas a qualquer preconceito”, conta.

“Quando a gente fala em salão unissex, a gente está afirmando que existem dois gêneros: o masculino e o feminino, e que nesse lugar você corta esses dois tipos de cabelo. A diferença de um salão pensado para a população queer é que as pessoas não-binárias, por exemplo, que não se identicam com esses gêneros, também sejam abarcadas. Elas propõem novas possibilidades de existência e não se apegam a esses padrões sociais do que é ser homem e do que é ser mulher”, avalia o profissional.

No espaço, ele realiza o corte de acordo com o desejo pessoal da pessoa, não ao gênero. E conta que seu processo também é feito a partir da escuta, assim como os outros salões pensados para a população LGBTQIAPN+.

“Existe esse rótulo de que a mulher tem o cabelo longo ou o homem tem o cabelo curto. A gente acredita que isso não existe. As pessoas podem ter o cabelo que elas quiserem, no comprimento e cor que desejarem, e que isso não seja definido pelo gênero, mas pela vontade de cada pessoa”.

Ele ainda argumenta que o cabelo deixou de ser uma simples superficialidade estética, mas virou também uma manifestação política dos corpos.

“As pessoas estão entendendo isso, deixando os cabelos afros crescerem, assumindo a beleza natural. E, enquanto profissional, busco fugir tanto desse padrão de beleza quanto dessa regra binária".

Endereço:  Rua Alves Guimarães, 327 – Pinehiros, São Paulo (SP). 

Peluqueria Furiosas

O espaço, também em Pinheiros, é gerido por Brune Mantese, 44, pessoa não-binária e pansexual. Abriu o salão após desconforto que sentia ao ir em salões convencionais. A favor de um espaço seguro para quebrar ciclos, criou seu próprio negócio e hoje oferece cortes de cabelo “para construção e desconstrução de corpos dissidentes, existentes, resistentes e flamejantes”, como descreve em sua bio no Instagram.

“Nos salões tradicionais, quando entra uma pessoa que o profissional lê como uma mulher, ele já aciona na cabeça uma série de estereótipos, de convicções sobre o que é ser homem e ser mulher. Não é perguntado o gênero da pessoa, os pronomes que ela utiliza, não é questionado sobre como o cliente quer ser tratado, porque ocorre uma projeção em cima daquela pessoa a partir dos padrões binários. Por isso, quando vem alguém até mim, busco sempre considerar essas individualidades”.

Brune Mantese posando para foto encostade no espelho
Reprodução/Instagram

Brune Mantese, responsável pelo Salão Peluqueria Furiosas.

Os cortes criativos e únicos surgem justamente porque há mais liberdade na criação. “A gente não precisa ficar repetindo padrões, fazendo sempre a mesma coisa ou tentando fazer as pessoas caberem em um determinado corte de cabelo. Há espaço para muita criatividade, pois o cabelo faz parte da corporeidade da pessoa, da expressão e individualidade dela”.

“O mundo da beleza é muito centrado em uma perspectiva cis, heterossexual e branca: ‘As mulheres têm que conquistar os homens e os homens têm que conquistar as mulheres. Então, o que os homens gostam nas mulheres é x, e o que as mulheres gostam nos homens é y’, isso acaba impossibilitando novas possibilidades, seja no cabelo ou não”.

Além disso, Brune reconhece que todos esses padrões binários se cruzam com  problemáticas de raça, idade e peso. “É falado que mulheres gordas não podem usar cabelo curto porque ‘engorda’ o rosto. Esses conceitos não são difundidos no meu espaço”, finaliza Mantese.

Endereço: é preciso solicitar pelo Instagram, mas fica próximo ao metrô Pinheiros. 

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** Julio Cesar Ferreira é estudante de Jornalismo na PUC-SP. Venceu o 13.º Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão com a pauta “Brasil sob a fumaça da desinformação”. Em seus interesses estão Diretos Humanos, Cultura, Moda, Política, Cultura Pop e Entretenimento. Enquanto estagiário no iG, já passou pelas editorias de Último Segundo/Saúde, Delas/Receitas, e atualmente está em Queer/Pet/Turismo.

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