Croislla e Sophia Barclay ao lado de Vinícius Henuns para divulgação do single
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Croislla e Sophia Barclay ao lado de Vinícius Henuns para divulgação do single "Supera"

Gloria Groove. Pabllo Vittar. Grag Queen. Lia Clark. É impossível virar os olhares para a indústria musical brasileira sem se deparar com as drag queens. O espaço ocupado por elas, bem como todas as transformações que essas artistas proporcionaram, representam um caminho sem volta e um impacto jamais visto antes. Além da representatividade, a visibilidade e retorno que essas artistas conquistaram se tornaram esperança para outras artistas drag independentes que querem trilhar seus próprios caminhos na música.

Essa revolução na música é vista com muita animação pelo empresário e produtor vocal Diego Timbó, jurado do “Queen Stars”, reality show musical de drag queens, e nome por trás de artistas como Pabllo Vittar, Luísa Sonza, Cleo e Juliette.

“Enxergo isso com os melhores olhos possíveis, principalmente porque mostra pro mainstream a essência plural da cultura LGBTQIAP+ . Cada artista drag que está ganhando destaque hoje possui uma essência singular. Juntas, conseguem mostrar que além de serem grandes artistas drags, são também grandes artistas da música”, afirma o produtor.

Para ele, a música brasileira contemporânea vive um momento pulsante em que se destaca a diversidade de vozes e de gêneros. “As artistas com quem eu trabalho entenderam como traduzir essa essência em música. A autenticidade de cada uma, tudo o que vem delas tem um ar de renovação”, explica. Timbó ressalta que, no caso de Pabllo, há uma mescla de gêneros musicais da cultura Norte e Nordeste que saltam aos olhos do holofote musical.

Conseguir encontrar esse estilo próprio e passar a própria verdade é a chave para que drag queens que estão iniciando a carreira como cantora ou que estão no cenário independente consigam se destacar e fazer parte desse momento musical. Ao mesmo tempo, essas artistas renomadas se tornam uma vitrine do potencial da arte drag brasileira – e um inspiração para as que querem trilhar esse caminho.

A drag queen Croislla diz que canta desde os oito anos de idade, mas foi quando Pabllo Vittar começou a alcançar o sucesso que se sentiu influenciada a mostrar quem ela realmente era. “Sempre tive esse jeito afeminado e a Pabllo me deu coragem de ser a pessoa que eu merecia ser”, explica. No caso de Sophia Barclay, uma drag queen trans não binária, a montação veio pela primeira vez em uma Parada LGBTQIA+ do Rio de Janeiro, antes da transição de gênero – e nunca mais foi embora.

Cantar entrou nos planos de Sophia muitos anos depois. “Comecei como influenciadora digital e fazia lives no Facebook. Achava que para cantar era preciso ter um vocal gigante, até que a Croislla e o produtor dela me incentivaram e me fizeram acreditar no meu talento”, explica. As duas, que estão há seis anos fazendo música, se tornaram amigas e incentivam a carreira musical uma da outra – mais até do que familiares e outras amizades, segundo elas.

Enquanto Sophia se identifica mais como rapper, Croislla é da pegada do brega funk, e ambas já contam com músicas lançadas no Spotify e no YouTube. Em 2016, a música "Treme Devagar", de Croislla, alcançou a lista de hits virais do Spotify. A faixa chegou a ser comparada com "Envolvimento", um dos principais sucessos de MC Loma e as Gêmeas Lacração.

O próximo passo para a carreira delas é o lançamento do single “Supera”, no dia 20 de maio – e, no caso de Sofia, de seu primeiro álbum, “Bad Bitch”. A faixa também é cantada e produzida por Vinícius Henuns e tem como referência os trabalhos e sonoridades de Lia Clark e a própria MC Loma.

“‘Supera’ é um single em que buscamos enaltecer o movimento LGBTQIA+ e tem todo um contexto voltado para os relacionamentos abusivos, os abusos psicológicos e para mostrar que é possível passar por isso”, explica Croislla. “Queremos que os fãs ouçam e sintam que podem superar tudo pelo que passaram e dar a volta por cima, ser feliz e focar no sucesso”, destaca Sophia. A faixa também vai ganhar um clipe em animação e, segundo as artistas, será divulgado em programas de televisão.

O que é preciso para chegar lá

Diego Timbó
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"Não é sobre aplicar uma fórmula", diz Diego Timbó sobre fazer sucesso como drag queen cantora

Seja por ser jurado do “Queen Stars” ou por já estar imerso no contexto mais forte da música brasileira hoje, Timbó está de olho no que se destaca e no que é preciso para conseguir o sucesso. No caso das drag queens, ele afirma que há um favorecimento por parte da cultura LGBTQIA+ e drag em evidência. São elas que modelam atualmente o mercado do pop no país. “Para emplacar nesse mercado é preciso, além do talento, mostrar disposição para imprimir a sua própria marca”, indica.

Para Timbó, autoconhecimento é muito mais importante do que uma adequação. “É preciso ter consciência da marca que se deseja imprimir no panorama artístico”, afirma.

Como artistas independentes, Croislla e Sophia contam que, além de moldarem suas próprias estéticas, deixar essa marca consistia em aprender sobre a indústria musical sozinhas. Elas passaram a estudar o que é esperado dos artistas para conseguir agregar visibilidade ao trabalho que desejam fazer.

“No nosso caso, não tem uma gravadora para orientar ou dizer qual caminho tomar. Nos informamos muito por redes sociais, principalmente o TikTok, por ser uma plataforma que tem ajudado muito os artistas independentes”, afirma. A drag também aponta para os desafios característicos da era digital: “Tudo é muito rápido e o foco muda o tempo todo. Se uma hora o que está bombando é o forró e o funk, logo em seguida vem o pop e o brega funk”.

Croislla complementa que marketing, planejamento e produção estão incluídos no cronograma. Para elas, quanto melhor souberem realizar a gestão das próprias carreiras, melhor. As aulas de inglês e espanhol para que possam apostar em carreiras em outros idiomas também estão no escopo – um ensinamento que Anitta e Pabllo deixaram para a safra atual de artistas brasileiros. As duas afirmam que já têm faixas em espanhol gravadas, incluindo outra parceria.

“[Anitta] foi uma pessoa que quebrou todos os paradigmas, todas as barreiras e que mostrou que o Brasil tem potencial em todas as áreas. Ela é uma inspiração muito grande, sempre tenta se renovar, entrar em novos estilos”, aponta Sophia. Atualmente, o foco principal das duas é o mercado latino e, Croislla acrescenta, o público de Portugal.

Todo mundo conta?

Por mais que se esforcem, as duas afirmam que tem sido cada vez mais difícil que drag queens da cena independente se destaquem. De acordo com os relatos, boicote por parte da indústria, preconceito e eternas comparações com as drags que já ganharam destaque estão na lista de descontentamentos.

“A gente queria que existisse mais união na música, de mais apoio. É difícil a gente ver uma drag que está no topo ajudando uma drag iniciante”, desabafa Croislla. Sophia concorda e afirma que esse esquecimento (e até desprezo) também está dentro da própria comunidade LGBTQIA+. A drag queen conta que já se sentiu desmotivada e até mesmo atacada por essa população – que, ela afirma, é a que mais deveria dar apoio. “Hoje o meu maior público é cis hétero, e não LGBT. É quem mais me apoia. A própria comunidade maltrata.”

Por parte da indústria, as drags explicam que os produtores esperam repetir a fórmula do sucesso que as drags mais conhecidas possuem. Ou seja, acreditam que o sucesso está apenas no caminho já trilhado. “Eu escuto muito isso: ‘Você nunca vai ser a Pabllo Vittar’. Só que a questão é que eu não quero ser a Pabllo Vittar, eu quero ser a Sophia. Quero mostrar meu talento assim como a Pabllo mostrou o dela. Ninguém é melhor do que ninguém. Essas artistas estão lá para conseguir abrir caminho para quem está começando”, pensa Sophia.

“Os produtores tentam criar uma competição e não querem ver o melhor que as outras artistas têm a oferecer de diferente. Já ouvi muita gente comparar minha voz com a da Pabllo e falar que eu só cantaria bem com autotune”, acrescenta Croislla. Ambas colecionam más experiências com produtores que, elas afirmam, tentaram descaracterizar seus trabalhos e forçar estéticas, tons de voz e estilos que só as prejudicavam.

Sophia se lembra de quando começou a entrar em contato com produtores que afirmaram que ela tinha uma voz muito masculina para fazer sucesso. “Escutei de todos eles que minha voz era grossa e que eu devia tentar afiná-la, que eu tinha que forçar. Com as pessoas certas, fui ensinada de que eu tinha que achar meu tom e o meu ritmo”, diz.

O timbre da voz abre margem para que Sophia sofra diversos ataques transfóbicos: “Isso já me machucou e me afetou muito, até que entendi que se trata de um problema da sociedade machista e transfóbica. Percebi que não preciso ter a voz da Gloria ou da Pabllo. Minha voz é uma mensagem”. Como referências musicais com timbres semelhantes aos delas, Croislla e Sophia citam Lia Clark e Danny Bond, por exemplo.

Se por um lado é possível que novos artistas encontrem referência para explorar seus timbres mais graves, existem várias vertentes de drag que não tiveram seu caminho ainda desbravado pela indústria e pelo público. Mulheres que fazem drag queen, artistas drag kings e pessoas não binárias e trans são praticamente invisíveis.

Timbó atribui essa falta de inclusão ao fato de que o domínio da arte drag em relação ao cenário musical, apesar de cada vez mais sólido, é muito novo. “A inclusão ainda é parcial mesmo. Existem muitas barreiras que o mercado precisa quebrar para que a diversidade da cultura LGBTQIA+ seja contemplada cada vez mais”, reconhece.

Inspiração

Como artistas LGBTQIA+ independentes, Crosilla e Sophia sentem que têm a missão de não só entreter, mas encorajar e inspirar. “Acredito que a arte é muito mais do que chegar no microfone e cantar. É ser quem eu sou”, pensa Croislla. Sophia afirma que levar esperança é uma de suas metas, levando em conta as experiências que teve no passado: ela sofreu agressões físicas e sexuais e chegou a passar um período em situação de rua. “Minha missão é dizer às pessoas que não desistam e acreditem em si mesmas. Elas não precisam do mundo, só precisam acreditar nelas mesmas, ter Deus primeiramente e acreditar”, afirma a drag.

O que Croislla e Sophia desejam para que possam trilhar suas próprias carreiras é respeito, e elas indicam para outras drag queens cantoras que acreditem nelas mesmas e ignorem o preconceito e a sabotagem. “Ninguém deve esperar mensagem positiva porque não vão apoiar. É preciso não desanimar, acreditar em si, lutar, vencer e não desistir jamais. Seja uma fênix, seja uma bad bitch. Dá cara a tapa e não tenha medo de enfrentar porque o mundo sempre vai ser cruel, infelizmente”, conclui Sophia.

Para as drag queens cantoras que um dia esperam estar nesses mesmos holofotes, a dica é deixar fluir: “Cante a sua verdade. Não é sobre aplicar uma fórmula, é sobre saber se traduzir com verdade e arte na frente das outras pessoas”, diz.

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