Bandeira transgênero
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Bandeira transgênero


Numa entrevista de emprego para uma grande rede atacadista, Wanessa de Souza, em vez de achar trabalho com carteira assinada, se deparou, mais uma vez, com olhares preconceituosos e portas fechadas. Wanessa, hoje com 38 anos, é uma mulher trans que, na pandemia, chegou a acreditar que pudesse ocupar uma vaga que lhe rendesse uma renda certa todo mês. Embora tenha chegado antes do horário marcado para a seleção, às 8h, só foi chamada depois das 13h: enquanto esperava, viu outros candidatos passarem a sua frente. Da entrevistadora, ouviu que não poderia ser contratada por haver uma pendência no seu CPF. Ela estranhou e foi checar: não encontrou nada de errado em relação ao seu nome e registro.

— Eu fui superanimada, comprei até roupa nova. Mas, quando cheguei, tive que encarar os olhares suspeitos. E depois inventaram essa história para não me contratar. E isso mexeu com a minha autoestima. Amo o que sou, mas por que as pessoas por serem negras e trans têm que ser tratadas desse jeito? A sociedade é muito preconceituosa — conclui Wanessa, que tem ensino médio completo e é um retrato das dificuldades enfrentadas por trans e travestis no Rio: 71% já sofreram preconceito em entrevista de emprego e 60% têm renda mensal insuficiente, como mostra uma pesquisa do projeto Garupa, realizada entre julho e outubro de 2021 pela prefeitura com 526 pessoas.

O levantamento chama a atenção também por um dado cruel: dois em cada três entrevistados foram alvos de violência por serem trans. Além disso, 83% disseram ter sofrido violência dentro da escola. A pesquisa ainda mostra que 72% dos participantes deixaram de estudar devido à falta de dinheiro e que um a cada três faz apenas uma refeição por dia ou menos.


— Dentro da comunidade LGBTQIAP+, as pessoas trans e travestis são as que enfrentam as maiores barreiras de acesso à saúde, ao trabalho formal e a condições dignas de vida, e estudos apontam que a pandemia agravou ainda mais esse cenário. Os dados dão um panorama de como ainda há muito a se fazer em prol dessas pessoas, e poderão servir de base para inúmeras políticas públicas — destaca o coordenador executivo da Diversidade Sexual, Carlos Tufvesson.

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O levantamento foi liderado pela Secretaria de Governo e Integridade Pública, por meio da Coordenadoria Executiva da Diversidade Sexual e em parceria com a Secretaria de Saúde e a Coordenadoria-Geral de Relações Internacionais e Cooperação. Já o projeto Garupa facilita o acesso da população trans e travesti à saúde, tendo atendido, até agora, 723 pessoas. O programa foi uma das 18 iniciativas selecionadas do “Partnership for Healthy Cities: Covid-19 Response”, da Bloomberg Philanthropies junto com a Organização Mundial da Saúde e a Vital Strategies, que concedeu ao Rio US$ 50 mil para a sua execução.

Acesso à saúde pública

As estatísticas revelam que 27% nunca tiveram vínculo de trabalho; 37% acreditam não haver vagas formais de trabalho para pessoas LGBTQIAP+; 56% nunca receberam orientação do serviço de saúde pública sobre hormônios ou silicone; e 29% tomaram hormônios por conta própria. É o caso de Wanessa, na fila da rede de saúde para receber informações adequadas sobre o tema e para conseguir as tão sonhadas próteses de silicone.

Ela também se encaixa nos números que tratam de violência. Na adolescência, antes da transição, era alvo de bullying no colégio, onde a direção chamou a mãe para tratar do comportamento “afeminado” do filho, criado na Cidade de Deus. Aliás, Wanessa foi vítima de agressões de colegas e professores durante toda a sua vida escolar, o que lhe rendeu uma gagueira.

Em casa, diante da violência física por parte do pai, que não aceitava sua orientação, a saída foi arrumar as malas. Na rua, precisou fugir de homens violentos enquanto se prostituía para conseguir viver. Mas uma vez quase foi morta por dois sujeitos armados: precisou se jogar para fora de um carro em movimento, após levar coronhadas. Hoje, formada num curso de empreendedorismo, atua com vendas de maquiagens e itens de sex shop e mora sozinha numa quitinete em Curicica.

— Praticamente não há oportunidades para trans trabalhar. Houve uma melhoria, mas muito pequena. Você vê travesti trabalhando em posto de gasolina, em supermercado? A gente não vê igualdade — desabafa ela, que, apesar de dores e cicatrizes, se orgulha de nunca ter sido seduzida pelas drogas e se mantém esperançosa. — Embora a sociedade seja resistente, eu sou mais.

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