Os apps de namoro permitem que pessoas LGBT filtrem os outros de acordo com os próprios interesses
Brett Sayles/Pexels
Os apps de namoro permitem que pessoas LGBT filtrem os outros de acordo com os próprios interesses


O uso de aplicativos por parte dos brasileiros saltou entre 30% e 400%, dependendo da região do país, de acordo com dados da Pew Research. No caso de apps voltados para relacionamento não foi diferente: a Dating.co aponta que ocorreu um salto de 82% no “namoro on-line” global em março de 2020, quando as medidas de isolamento impulsionadas pela pandemia entraram em vigor em vários países.

Entre o público que busca por ambientes virtuais, está a comunidade LGBTQIAP+. Além de aplicativos clássicos como Tinder e Badoo, existem outros que foram desenvolvidos justamente para a comunidade, como o Grindr, Her, Fem, OkCupid, Hornet, Blued, entre outros. A possibilidade de conhecer pessoas on-line por meio de um perfil no qual são listados interesses e características gerais propicia que as pessoas possam selecionar previamente com quem desejam se relacionar, como explica a psicóloga Daiane Daumichen. 

“Para as pessoas LGBT, essa é uma forma de buscar um parceiro fazendo uma pré-seleção antes de qualquer coisa, sem a necessidade de se expor, analisando ‘à distância’ outras pessoas que têm interesses comuns, tornando a experiência menos tensa, pois os aplicativos geram um ambiente mais confortável, mais seguro evitando os riscos de um contato real imediato. A gente sabe que as relações homoafetivas são mais difíceis pelo fato do preconceito, da não-aceitação da sociedade, gerando medo da rejeição, julgamento”, expõem. 

Giulia Rossi, mulher cis lésbica, conta que começou a recorrer aos aplicativos de relacionamento logo após terminar o namoro. “Como não sou muito de sair, foi a alternativa que achei para encontrar gente que também buscava algo”, explica. Ela conta ainda que esses espaços tornam possível que pessoas LGBT possam buscar ambientes mais voltados para os próprios interesses. 

“Temos mais alternativas do que os aplicativos padrão que oferecem opções LGBT. Além disso, nós temos um espaço mais ‘afastado’ do público que não tem intenção de usar esses aplicativos. Como a maioria dos apps voltados ao público LGBT fica mais conhecido dentro da própria comunidade, então é mais fácil encontrar alguém e também estamos um pouco mais seguros”, diz. 

Giulia ainda conta que o motivo das pessoas LGBT buscarem pelos aplicativos de relacionamento é “tanto por ser algo usado pela maioria das pessoas hoje em dia, quanto por ser um local seguro para flertarmos. Como temos a opção de escolher quem queremos ver nos apps, temos a segurança de falar com a pessoa sem correr o risco de ser alguém que possa ser violento”. 

Por outro lado, Layla Thamm, psicóloga psicanalista e parte da comunidade LGBT, pontua algumas questões relacionadas aos aplicativos de relacionamento que não são tão positivos, especialmente no que diz respeito à autoestima dos usuários que acabam se vendo dependentes do ambiente virtual para criarem relações – uma vez que a possibilidade de filtrar quem apetece aos interesses ou não acaba segregando as pessoas de alguma forma.

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“Assim como é fácil conhecer pessoas, é fácil descartá-las também. Ver as pessoas numa tela contribui com essa impessoalidade. Existe o perigo de se frustrar, caso a pessoa esteja buscando uma relação mais aprofundada, além da questão da autoimagem e autoestima. Num aplicativo, não só a pessoa é avaliada por sua imagem, como também é comparada com os outros. Em alguns aplicativos é dito explicitamente num perfil que a pessoa só se interessa por pessoas que não sejam gordas, por exemplo. Existe muita reprodução de preconceito e imposição dos padrões de beleza. Isso existe na nossa realidade, mas por trás de uma tela essas opiniões são colocadas de modo muito mais explícito do que fora dela. Estar num ambiente de app pode ser complicado para pessoas que têm questões com relacionamentos e autoestima e pessoas que estão enfrentando questões de saúde mental, já que elas já estão num momento mais vulnerável de vida”, discorre.

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Em vista dos tópicos ressaltados por Layla, Daiana chama a atenção para o fato de que as pessoas LGBT não podem esquecer que fora dos aplicativos existem espaços e possibilidades de conhecer pessoas, ou seja, não colocar-se refém dessas tecnologias é algo que merece atenção – inclusive para evitar que haja complicações nas habilidades sociais.

“É preciso estar atento quando a pessoa acredita que ela só conseguirá arrumar um parceiro por meio de um aplicativo, e não se desafia no mundo real, com isso ela vai perdendo a habilidade de se relacionar pessoalmente. Os aplicativos são saudáveis, é um recurso a mais para se buscar relacionamentos, mas existe uma vida fora deles, e a pessoa não pode perder a sua capacidade de se permitir conhecer pessoas numa festa, num barzinho, num show, de sentir a emoção da troca de olhares, de ideias que existem ao vivo”, declara. 

Layla por sua vez dá algumas dicas importantes para garantir que o uso dos aplicativos de relacionamento não tome proporções que possam fazer a atividade deixar de ser saudável e construtiva. Ela diz que, diante desse cenário dos riscos e dificuldades de usar apps, seria interessante tentar fazer escolhas mais conscientes como se perguntar se a pessoa beneficia si mesma usando o app.

"Será que estou curtindo ou usando como uma válvula de escape? Mais me divirto ou mais me cobro em relação ao meu corpo quando estou usando apps? Será que existe algum modo de usar o app que me beneficie mais? Será que consigo sinalizar mais que tipo de relacionamento quero no meu perfil, ou que tipo de exposição quero? Será que tenho que me encaixar no padrão do outro? São alguns questionamentos válidos para avaliar se o app está ou não te fazendo bem. Se ainda fizer sentido usá-lo, faça isso de uma maneira que te beneficie mais e esteja mais alinhada com o que busca e se sente mais confortável fazendo”, aconselha. 

Inclusivo e seguro?

Tanto nos aplicativos tradicionais, como Badoo e Tinder, quanto nos próprios aplicativos voltados para a comunidade LGBTQIAP+, infelizmente existe o risco de ser vítima de ataques de teor preconceituoso, especialmente transfobia e também misoginia. Valentim Bastos Albuquerque, homem trans, conta um pouco sobre a sua visão perante esses espaços. 

“Tanto o Tinder quanto o Badoo não são seguros”, aponta. “Nem para mulheres, nem para LGBTs. Existem muitas pessoas que vão ao chat dessas pessoas para xingar ou assediar. O Grindr também sofre com casos assim, principalmente porque homens hétero marcam encontros e acabam usando a oportunidade para ferir e até mesmo assassinar as pessoas”. 

Esse tópico levantado por Valentim pode ser ilustrado com casos recentes. Em 2021, a polícia de Curitiba investigou dois casos envolvendo o assassinato de homens gays que eram usuários do aplicativo Grindr. Em conclusão a esse tipo de risco, Valentim expõe que os perigos aos quais a comunidade fica exposta não se limitam apenas aos ambientes hétero-cis. 

“Acho que nem os aplicativos LGBTs adiantam muita coisa porque há quem finja ser da comunidade apenas para fazer mal às pessoas. Sinceramente, acho que não existe uma solução totalmente segura”, conclui.

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