Entenda as inseguranças e apreensões de pessoas transgênero não assumidas para a família
Anete Lusina/Pexels
Entenda as inseguranças e apreensões de pessoas transgênero não assumidas para a família


Estar inserido em um ambiente tóxico que não abraça a diversidade de modo orgânico e respeitoso é um obstáculo que muitas pessoas LGBTQIAP+ enfrentam diariamente, inclusive os transgêneros. Nesta época de fim de ano, é comum que as famílias se reúnam para celebrar, mas essa não é uma situação confortável para aqueles que não possuem a segurança e liberdade de compartilhar quem realmente são com os parentes.

O medo de represálias é um dos sentimentos mais comuns, mas a psicóloga Rosângela Casseano pontua, entre outros pontos, a existência do sentimento de não adequação às expectativas da família. Além disso, negar a própria natureza também acaba sendo um fenômeno recorrente.

“São muitos sentimentos e emoções reprimidas, especialmente culpa por não corresponder às expectativas dos familiares. Apesar disso ser um sentimento muito comum a todos, pessoas trans absorvem de forma mais doída por guardarem e demorarem muito tempo até enfrentarem essas questões. Outros sentimentos como negação de seus desejos, muitos tentam lutar contra sua própria natureza por bastante tempo, trazendo dor e conflitos internos que são abafados e, às vezes, desenvolvem uma timidez por tentarem se fechar em seu próprio mundo... é realmente muito libertador poder ser verdadeiro consigo mesmo”, aponta.

Theo [nome fictício] é um homem trans não assumido para a família. Ele conta que o principal motivo de não ter compartilhado a transgeneridade com os parentes é justamente a incerteza sobre as reações que irá receber. Ele diz que o principal motivo de não ter se assumido é a apreensão pelo o que pode acontecer.

"Sempre penso: ‘Será que meus pais vão me aceitar?’, ‘será que eles vão me apoiar ou eles vão me botar para fora de casa?’”, conta. Ao ser questionado pelo iG Queer qual o principal sentimento que vivencia estando “dentro do armário”, Theo é direto: “Insegurança. Insegurança por não ter uma certeza de futuro e não poder ser quem eu realmente sou dentro da minha própria casa, que deveria ser o meu ambiente de conforto”. 

A escolha de muitas pessoas trans em permanecer “no armário” é majoritariamente guiada pelo fato de estarem sujeitas a sofrer algum tipo de consequência negativa, caso compartilhem isso com a família. Rosângela deixa claro que essa não é exatamente uma opção: “Infelizmente isso acontece, pois pessoas trans, por tantas questões conflituosas da família, preconceitos e ignorância no assunto, faz com que temam demais perder o amor e o respeito da família. Por isso se sentem obrigadas a omitirem quem verdadeiramente são, o que causa muita dor”, explica. 

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Theo diz que já conhece suficientemente o comportamento e posicionamento dos pais com relação às questões LGBTQIAP+ para saber que assumir-se, pelo menos por enquanto, é bastante arriscado. “Já tive conflitos e sei como é a opinião dos meus pais sobre o tema: eles não me aceitariam. Isso me causa apreensão de não poder ter apoio nem expectativas para com eles”.

Especialmente na época de fim de ano, com as famílias reunidas, é comum que comentários LGBTfóbicos circulem e machuquem diretamente aqueles que não são assumidos, principalmente. Rosângela pontua que cada família é diferente neste aspecto e, portanto, ações de enfrentamento podem variar bastante, dependendo do espaço e das possibilidades que essa pessoa trans tiver para tentar fugir dessas situações de estresse. Ela também deixa clara a importância de realizar acompanhamento psicológico, se possível for.

“Não existe bem um padrão de respostas aceitáveis; cada família, cada meio tem seus valores e suas crenças limitantes, obrigando pessoas trans a passarem por esse tipo de agressão verbal e psicológica. Não é piada, e sim agressão, e quanto mais as pessoas se conhecerem e se fortalecerem como seres, mais coragem terão para esse enfrentamento e, às vezes, mais força para um afastamento, se necessário for. É o que ajudará nessa jornada do enfrentamento. Por isso a psicoterapia é fundamental para esse ajuste e ganho de autoconfiança”, afirma.

Theo conta que é difícil lidar com o fato de não ser assumido, principalmente porque o apoio da família é algo que todos almejam. Para ele, é como estar preso. "Não é fácil esconder quem você é. Gostos, opiniões, expressões... é como se fosse uma gaiola e não vejo ainda meios viáveis para conseguir sair dela. Dói também não ter o apoio dos meus pais, pois querendo ou não eles sempre estiveram comigo e vivenciaram todas minhas fases até agora, mas infelizmente eles nunca vão saber como eu realmente sou – como o filho deles realmente é. A cada passo para trás que eu dou para poder me assumir, é como uma facada em todas as minhas expectativas para comigo mesmo. Se eu tivesse o conforto do abraço e do apoio dos meus pais, não seria dessa forma”, desabafa.

Para quem deseja “sair do armário” e poder compartilhar com a família sobre a identidade de gênero, é preciso ter todo um preparo psicológico, como explica Rosângela, pois assim, estando ciente dos limites e dos possíveis obstáculos, pode-se programar previamente uma forma de lidar com isso.

“Em primeiro lugar: autoconhecimento, autoconfiança e ganho de força para enfrentar essa quebra de expectativa, entender que os familiares, mesmo aqueles que estão dispostos a aceitar e acolher, têm suas dificuldades e limites para ressignificar. Não é fácil para uma mãe e um pai acolher de repente uma mudança radical, no sentimento deles é uma nova pessoa que está surgindo, um novo ‘ser’ na família. Importantíssimo o acompanhamento de todos em uma terapia familiar e participar de grupos de pais que já passaram pela mesma situação que se dispõe a compartilhar suas experiências”, recomenda. 

Theo confidencia que tem planos de assumir-se para a família, mas para isso precisa primeiramente sair de casa, pois sabe que o ambiente no qual está inserido não será muito receptivo. “Na verdade, é algo que penso muito frequentemente. Para me assumir, primeiramente preciso me tornar independente e seguir meu próprio caminho, pois dentro de casa eu nunca vou conseguir isso”, finaliza.

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