Felipe Cabral lançou seu primeiro livro,
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Felipe Cabral lançou seu primeiro livro, "O Primeiro Beijo de Romeu", com história inspirada em censura na Bienal do Livro do Rio de Janeiro

No dia 5 de setembro de 2019, a Bienal do Livro do Rio de Janeiro se tornou o centro dos holofotes em todo país. O motivo foi a tentativa de censura realizada pelo então prefeito da cidade, Marcelo Crivella, que quis recolher exemplares do gibi "Vingadores - A Cruzada das Crianças", que tinham imagens de dois homens trocando um beijo.

Na época, Crivella afirmou nas redes sociais que se tratava de um "conteúdo sexual para menores", o que mobilizou diversos autores e editores contra a decisão. Naquele mesmo ano, o autor, ator e roteirista carioca Felipe Cabral também estava no evento como curador e mediador de duas mesas sobre literatura LGBTQIA+.

Agora, Felipe conta que os acontecimentos foram marcantes. "Mesmo com toda resistência e protestos emocionantes, a situação foi muito pesada e tensa para todos que estavam lá. Eu pensei como deveria ser para quem ainda estava dentro do armário cheio de inseguranças ver o Prefeito da sua cidade ser nitidamente homofóbico, que peso teria esse gesto de uma autoridade pública", conta ao iG Queer.

Um mês depois da Bienal ele tinha na cabeça toda a premissa do livro "O Primeiro Beijo de Romeu", seu primeiro romance juvenil publicado em novembro deste ano pela Galera Record. O livro acompanha Romeu, um menino de 15 anos que tem a vida toda alterada pouco antes de dar seu primeiro beijo. Ele é tirado do armário para toda a escola e descobre que seu pai, um escritor gay, teve seu livro censurado pelo prefeito da cidade antes de lançá-lo na Bienal do Rio.

"É uma releitura, uma livre interpretação dos fatos, uma ficção, mas que escrevo contagiado pelas minhas lembranças. Um dos desafios da escrita, inclusive, foi justamente transmitir a sensação de estar no meio daquele furacão. Celebrávamos os 50 anos da Revolta de Stonewall e eu me senti no meio de uma revolução dos livros”, explica o autor.

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Capa de "O Primeiro Beijo de Romeu", que traz dois garotos se beijando na capa; a orelha do romance é escrita por Jean Wyllys

Além do diálogo entre realidade e ficção, o livro também se tornou um marco importante para a literatura LGBTQIA+: é a primeira vez que um livro publicado por uma grande editora traz na capa um beijo entre duas pessoas do mesmo gênero, ilustrado pelo artista Johncito. Os beijos, aliás, fazem parte da trajetória de Felipe como roteirista. Foi ele quem escreveu o primeiro beijo gay em uma novela das 19h, na Globo, em "Bom Sucesso" e o primeiro beijo do personagem Ferdinando (Marcus Majella), da série "Vai Que Cola", do Multishow.

“Os beijos entre pessoas do mesmo gênero ainda geram turbulências na nossa sociedade e o meu livro parte dessa problemática", começa. "É muito importante que nossos beijos sejam cada vez mais comuns na indústria cultural. As novelas, filmes, peças e livros constroem o imaginário de uma sociedade e podem derrubar preconceitos através da arte. Quanto mais beijos forem exibidos, menos tabus eles serão”.

Felipe também se recorda da falta de referência na literatura e na televisão ao longo de sua infância e adolescência. "Eu não sabia nem que livros com protagonismo LGBTQIA+ existiam", pontua, ainda mais por ter estudado em colégio católico só para meninos nos anos 1990.

Além disso, a história de pessoas LGBTQIA+ nas telas e nas páginas sempre era trágica. Felipe dá como exemplo a morte das personagens lésbicas Leila (Silvia Pfeifer) e Rafaela (Christiane Torloni), que morrem em uma explosão de shopping no início da novela "Torre de Babel". "Nada nem ninguém me dizia que ia dar tudo certo e que não tinha problema nenhum eu ser gay".

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Hoje, o autor enxerga que houve muitas melhorias em relação ao alcance de pessoas LGBT a personagens que as representem. "É essencial termos representatividade LGBTQIA+ na literatura porque se nós não nos vemos nas histórias, nós não nos sentimos pertencentes à nossa sociedade", aponta.

"Ler um livro que tenha um personagem parecido com você, que tenha a mesma orientação sexual que a sua, a mesma identidade de gênero, conflitos semelhantes, contextos familiares próximos, gera uma identificação e pode ajudar muito quem ainda está dentro do armário ou se sentindo sozinho e rejeitado", acrescenta.

No entanto, ele frisa que a presença de personagens LGBTQIA+ são histórias universais como as de qualquer outro livro. O que muda é a maneira como a história evolui seus personagens para emocionar e prender. Para isso, a presença de mais autores LGBTQIA+ é imprescindível nesse processo.

Orelha escrita por Jean Wyllys

A orelha de "O Primeiro Beijo de Romeu" é escrita pelo ex-deputado federal do Rio, Jean Wyllys, que vive exilado desde janeiro de 2019. Para Felipe, a participação de Jean na obra é "uma honra e uma alegria imensurável".

"O Jean é uma inspiração pra mim e hoje eu tenho a sorte de poder chamá-lo de amigo. Em 2005, quando ele venceu o ‘BBB 5’, eu ainda estava dentro do armário, com 19 anos, ainda receoso de me assumir e de me aceitar, e ele estava lá na televisão aberta, orgulhosamente gay e vencedor", lembra.

Os dois se conheceram quando Felipe foi convidado para o programa "Cinema em Outras Cores", que Jean fazia no Canal Brasil. Quando soube pela editora que poderia convidar alguém para escrever o texto, o primeiro nome que pensou foi no de Jean.

"Não pensei duas vezes e o convidei, pensando que seria impossível, já que o prazo era muito apertado para ler o livro todo e escrever uma orelha. O Jean aceitou na hora! Quando eu recebi o texto da orelha, no meio de um almoço com um grande amigo, nós lemos o texto juntos e nos emocionamos no meio do restaurante", se recorda.

Para Felipe, o amigo se tornou uma referência importante para pessoas LGBTQIA+ e para a política. "Ele sempre acreditou no poder da educação e da cultura, que é amante das artes, que é apaixonado pela literatura e um grande defensor da nossa democracia".

"O que ele enfrentou aqui é muito duro e cruel e, mesmo assim, ele segue na luta. Ter a orelha do meu livro escrita por ele é uma benção pra mim, como se um ídolo de uma geração um pouco mais à frente do que a minha, compartilhasse o bastão para que a gente seguisse lutando juntos por um mundo mais justo e com respeito às diversidades", acrescenta o autor.

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