Em livro, autor reflete sobre o envelhecimento e solidão do homem gay
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Em livro, autor reflete sobre o envelhecimento e solidão do homem gay


Lançado originalmente em 1964, o livro “Um Homem Só” será publicado com nova tradução no próximo dia 19 de outubro, pela Companhia das Letras. Na época, o título abalou diversos leitores, que não estavam acostumados com uma linguagem explícita que retratasse a temática LGBTQI+. O livro aborda a mente e trajetória de George, professor de inglês de meia-idade, que tenta recomeçar após a trágica morte do jovem parceiro. Isherwood escreveu outras obras igualmente celebradas, como “Adeus a Berlim”, que inspirou o roteiro de “Cabaret”, filme musical de 1972 estrelado por Liza Minnelli. 

De acordo com o escritor brasileiro João Silvério Trevisan, que escreveu o posfácio da edição, o autor Christopher Isherwood constrói um personagem, abertamente homossexual, que se mescla com seu tempo e cultura. "Ele faz issopor meio desse inusitado protagonista. A maneira franca e resoluta com que aborda a homossexualidade funciona como uma lente para olhar o mundo a partir de um ponto de vista privilegiado: a sexualidade marginalizada que George habita”, diz. Na obra, Trevisan relata que Isherwood foi extremamente envolvido nas causas dos direitos LGBTQIA+, ainda na década de 1960. Dessa forma, o autor naturalizado norte-americano discutia publicamente e de forma clara sobre os próprios relacionamentos com outros homens em livros, palestras, artigos e programas de TV.

Para Débora Landsberg, responsável por traduzir “Um Homem Só” no Brasil, o processo de elaboração foi um desafio, devido às mudanças gramaticais entre o inglês e português. Além disso, nas primeiras páginas, o personagem não se identifica como “he” (ele) ou (ela), mas sim como “it” (isto). “Como não temos um pronome que transmita exatamente o que é esse “it”, não usei o pronome reto até que o personagem se identificasse como “ele”. O livro todo é permeado por um humor ácido e uma melancolia que também foram desafiadores. No entanto, o que mais me chamou a atenção durante o processo de tradução foi a precisão do Isherwood: o livro não tem nem uma palavra sequer a mais ou a menos do que deveria ter. Fiz questão de tentar ser igualmente precisa na tradução”, comenta. 

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Débora ainda discorre que são diversos temas existenciais discutidos em “Um Homem Só”. A obra é permeada pela dor causada pelo luto, bem como pelas dificuldades enfrentadas pelo protagonista, que deve lidar com o preconceito e tradicionalismo do período. “O livro cobre apenas um dia na vida de um professor universitário, mas são muitos os temas abordados: o amor cotidiano, o desejo, o sexo, a velhice, o luto, o moralismo, a literatura, as contradições que todo mundo tem. E, sem dúvida, o fato de ser um romance primoroso cujo personagem principal é um gay que acaba de perder o companheiro o torna um clássico contemporâneo da literatura LGBTQ+”, explica.

Christopher Isherwood nasceu na Inglaterra, mas mudou-se para os Estados Unidos em 1939. Em outubro de 1952, em Los Angeles, conheceu Don Bachardy, homem que se tornaria seu parceiro pelos próximos 34 anos. Os dois nunca esconderam que viviam em um relacionamento amoroso e por isso foram duramente perseguidos. “Um Homem Só”, foi escrito durante um tempo em que Isherwood e Bachardy estavam separados.

O escritor também foi figura constante em “Gay Sunshine”, jornal que surgiu nos anos de 1960 nos Estados Unidos, feito para o público homossexual. Em uma entrevista de 1973, ele deu uma declaração sobre a sua visão pessoal acerca de relações afetivas.

“No amor, tem que haver a necessidade de se preocupar o tempo todo. O amor não é uma apólice de seguro. Amor é tensão. O que eu valorizo num relacionamento amoroso é a contínua tensão, no sentido de nunca se iludir que a gente vai entender a outra pessoa”, finaliza. 

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