Novembro Azul e as vivências de mulheres trans e travestis
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Novembro Azul e as vivências de mulheres trans e travestis


A campanha Novembro Azul teve início em 2003, na Austrália, e chegou ao Brasil em 2008, trazido pelo Instituto Lado a Lado pela Vida em conjunto com a Sociedade Brasileira de Urologia. O objetivo do movimento é conscientizar a população acerca do câncer de próstata, principalmente com relação à importância do diagnóstico precoce e ao tabu do exame de toque. Contudo, ainda que a campanha seja de suma importância para a manutenção da saúde dos brasileiros, poucos se fala sobre o fato de que o Novembro Azul sempre foi focado em homens cis.

Pessoas não-binárias  e  intersexo e especialmente mulheres trans e travestis também estão sujeitas a serem acometidas pelo câncer de próstata, mas ainda assim as vivências e demandas delas não fazem parte da camapanha, bem como o Outubro Rosa (mês da conscientização do câncer de mama) não abrange homens trans e pessoas transmasculinas. A falta de acolhimento dessas parcelas da população resulta em um desfalque direto no volume de atendimentos. 

De acordo com George Ferrari, médico urologista, existe sim a preocupação em acolher mulheres trans por parte da área médica, porém faltam iniciativas que de fato promovam a presença delas nos consultórios. “Existe uma preocupação em acolher essas mulheres por parte da classe médica, mas, infelizmente, não vemos uma campanha forte de conscientização voltada para esse público”. Já Pedro Paixão, também urologista, possui consultório particular e relata que a visita de mulheres trans para um atendimento é rara. 

“No meu caso, como meu consultório é totalmente privado, a frequência é muito baixa e esporádica. A média é de uma paciente por ano, ou até menos. A procura é bem baixa por parte dessa parcela da população”, conta. Ferrari reitera com o fato de que, mesmo no atendimento público, não é comum a presença de mulheres trans, especialmente na especialidade de urologia. Ele destaca ainda que alguns dos principais motivos envolvem o provável temor da paciente em ser julgada, a falta das campanhas que se atentem às necessidades delas e a própria transfobia em si.

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“Não é frequente o atendimento e acompanhamento dessas pacientes, até mesmo no serviço público. Acredito que vários estigmas atrapalhem essa busca por exames e tratamentos e que, no serviço público, a resistência seja ainda maior. Acho que falta conhecimento, exatamente por não existir uma campanha voltada para esse público e que questões como o medo da paciente de ser julgada são grandes entraves”, ressalta.

Em vista da baixa procura e, consequentemente, do atendimento precário -- ou nulo -- que as mulheres e travestis possuem, quando se trata do câncer de próstata as consequências podem ser bem sérias. George Ferrari destaca que o efeito da falta de acompanhamento para mulher trans, biologicamente falando, é o mesmo de homens cis que não realizam o acompanhamento corretamente. Ele também destaca qual seria a frequência ideal de visita ao urologista.

“As consequências são as mesmas para mulheres trans e para homens cis que não realizam a avaliação prostática. Esse não acompanhamento na idade correta pode gerar um diagnóstico de câncer muito mais tardio, que dificulta a cura. O ideal é que a frequência seja a mesma do homem cis: a partir dos 45 anos, com histórico familiar da doença, ou a partir dos 50 anos”, elucida.

A importância do diagnóstico precoce está justamente no fato de que, na fase inicial, o câncer de próstata não apresenta sintomatologia, ou seja, não há como a pessoa perceber. Os sinais de que algo está errado manifestam-se somente em estágios mais avançados da doença, e Pedro Paixão explica quais são esses sintomas para que a população possa ficar em alerta, além, é claro, de reiterar a importância do acompanhamento adequado a fim de evitar que o diagnóstico seja feito tardiamente. 

“Nas fases posteriores, os sintomas podem incluir dor na lombar, dor óssea, que pode indicar metástase, assim como dor abdominal. Já os sintomas locais são sangramento na urina e infecções urinárias. Justamente pelo fato de não existirem sintomas na fase inicial, é importante fazer a prevenção secundária, que chamamos de rastreio, uma consulta estimulada com periodicidade anual”.

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