Paredão da Gaga, novo baile funk LGBTQIA+ de Campo Grande, se tornou opção de entretenimento seguro para comunidade queer funkeira
Divulação/Carol Almeida
Paredão da Gaga, novo baile funk LGBTQIA+ de Campo Grande, se tornou opção de entretenimento seguro para comunidade queer funkeira

A cena de bailes funk de Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, nunca mais será a mesma depois do dia 1º de outubro. A noite daquela sexta-feira recebeu pela primeira vez o Paredão da Gaga, um baile funk voltado totalmente para a comunidade LGBTQIA+ . A proposta, criada pela produtora cultural Ana Claudia Meira e a drag queen, blogueira e DJ Gaga Funkeira, é simples: criar um espaço seguro para pessoas LGBTs funkeiras se jogarem na pista sem medo.

O Paredão da Gaga é definido pelas organizadoras como o primeiro baile funk LGBTQIA+ que mais cresce no Mato Grosso do Sul. A expressão não é exagero: com apenas uma edição, o evento balançou a cena funkeira e LGBT da cidade de tal forma que surpreendeu até as criadoras. “A gente falou ‘ah, nem vai dar tanta gente’. Apareceram umas 700 pessoas. Bombou mesmo”, conta Ana Claudia ao iG Queer por telefone.

O feedback de frequentadores também foi positivo. Basta jogar o nome do evento no Twitter para entender o sucesso da noite. “Até casal a festa formou. Duas meninas se conheceram no rolê e começaram a namorar. Vieram falar comigo, agradeceram pela festa. Achei muito legal”, diz Gaga.

Ana e Gaga receberam tantos retornos positivos, seja pessoalmente ou no Instagram, @paredaodagaga , que elas estão se organizando para realizar a festa bimestralmente. A próxima será em dezembro deste ano e deve receber em torno de 1.200 pessoas.

O Mato Grosso do Sul é um dos estados em que a vacinação contra a Covid-19 está mais avançada. Além disso, especialistas apontam que o estado é o que mais vacina no Brasil todo. Por esse motivo, todas as medidas restritivas foram relaxadas em setembro e não demorou muito até que as festas voltassem a acontecer — ou, no caso da Paredão, começassem a surgir. “A gente tinha uma segurança para ter esse momento e colocar essa ideia em prática”, explica a produtora da festa.

Demorou apenas dez dias desde a concepção da ideia entre amigas até torná-la realidade. “A Gaga é uma figura muito conhecida na cidade e ninguém tinha apostado nela para fazer algo com a cara dela. Falei: ‘Vamos fazer uma festa, eu e você, e vamos botar para quebrar’. Ela topou. E foi mesmo um sucesso”, diz.

Pop proibidão

Gaga Funkeira percebeu a falta de drags funkeiras e começou a se montar para tocar funk na noite
Divulação/Carol Almeida
Gaga Funkeira percebeu a falta de drags funkeiras e começou a se montar para tocar funk na noite

Gaga Funkeira conta que o pagode, o rap e o funk estão presentes na sua vida desde a infância. “Eu cresci dançando o Créu”, conta. Ela considera que se entendeu como gay de forma mais tardia, aos 17 anos, e cresceu frequentando bailes hétero. Quando entrou em contato com a cultura LGBT, sentiu falta de uma drag funkeira.

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Por conta disso, começou a se montar para tocar funk como DJ nas festas LGBT. Tradicionalmente, o pop, principalmente dos Estados Unidos, é o que mais toca nos eventos para esse público. No Paredão da Gaga, tocar pop é proibido. “A ideia é ser uma noite de funk e minimizar o máximo possível. Tem muito funk legal, desde os mais antigos até os mais atuais. Dá para mesclar. E o povo curtiu a ideia”, explica.

Ana também sentia falta desse espaço. Bissexual, ela cresceu em Corumbá, cidade que faz fronteira com a Bolívia e o Paraguai. “Lá tinha um porto e tinha muita gente do Rio de Janeiro. Rolava muito funk lá. Cresci ouvindo o ritmo”, diz. A mãe, hoje falecida, também foi responsável por essa influência nela.

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Ana Claudia Meira sentia falta de um baile funk em que pessoas LGBTQIA+ poderiam se expressar de forma livre e sem receios
Arquivo pessoal
Ana Claudia Meira sentia falta de um baile funk em que pessoas LGBTQIA+ poderiam se expressar de forma livre e sem receios

“Fui crescendo e me distanciando um pouco do funk. Daí tive um momento roqueira emo, acho que todo mundo teve. Depois fui para o funk, me distanciei de novo, e agora voltei por causa das reuniões com amigos”, lembra.

O que ajudou a fisgá-la novamente para o funk também foram as séries documentais sobre Anitta: “Vai Anitta”, de 2018, e “Anitta: Made In Honório”, de 2020, cruciais para que ela entendesse que o funk tem um poder muito grande. “É você poder se expressar, se empoderar. Quando você está no baile funk você se expressa de uma forma totalmente diferente. É um lugar de liberdade”, pensa.

Segurança e lugar de acolhimento

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"As meninas foram de hot pant, até de calcinha. Nos bailes comuns, elas têm medo", diz Gaga Funkeira

Mas essa liberdade não se estendia totalmente às pessoas LGBTQIA+ nos bailes gerais. Apesar de serem para todos os públicos, Gaga e Ana afirmam que há quem não se sinta à vontade. Além disso, integrantes da comunidade podem estar mais vulneráveis a abusos e situações LGBTfóbicas.

“Tenho uma amiga lésbica que foi em um outro baile no dia depois do meu e foi assediada. Passaram a mão na namorada dela”, lamenta Gaga. “Ela falou para mim que, no Paredão, conseguiu se soltar. As meninas foram de hot pant, até de calcinha, e dançaram em cima da caixa de som. Nos bailes comuns, elas têm medo”, continua.

Ana afirma que, desde o início, o intuito era criar um perfil estratégico para que pessoas LGBTQIA+ pudessem se sentir confortáveis para comparecer. Ela e Gaga contam que foram muito inspiradas pelo coletivo artístico Batekoo, criado em 2014 em Salvador, que roda o Brasil com festas para o público queer e negro.

Para Ana, a linha que delimita o público funciona não é só sinônimo de segurança para quem frequenta, mas como um posicionamento político. “O nosso estado é totalmente conservador, totalmente voltado para a cultura agro, para o sertanejo”, contextualiza Ana.

Para ilustrar esse teor de contracultura local, Gaga lembra que foi convidada para aparecer montada em um evento de sertanejo e se sentiu deslocada. “Recebi muitos olhares, as pessoas me comiam com os olhos. Não fui diretamente destratada em momento nenhum, no fim as pessoas adoraram minha performance, mas não me senti no meu local. Não iria de novo”.

Perguntada se a sensação de deslocamento apareceu quando ela estava no Paredão, Gaga nega. “Na minha festa eu fiquei super à vontade, fiquei muito feliz. O povo tava superanimado”, responde.

A presença LGBT não se restringia apenas ao público. Gaga afirma que pessoas trans foram chamadas para trabalhar no bar. Ela considera importante que isso seja feito para dar não só entretenimento e segurança, como oportunidade de trabalho. “Você não vê uma trans trabalhando no bar da festa de sertanejo”.

O resultado da primeira edição do Paredão da Gaga foi sinônimo de realização para Ana. “Meio que voltei àquilo que eu era quando pequena, ao que minha mãe escutava. Foi muito gratificante”, celebra. O desejo dela e de Gaga é que a festa tenha reconhecimento e patrocínio necessário para rodar o país.

Ana espera que o baile seja um incentivo para que a comunidade se sinta cada vez mais à vontade para buscar locais de segurança e que eventos promovam essa atmosfera acolhedora para todas as pessoas, independentemente de gênero ou orientação sexual.

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