Hana Khalil, modelo, realitier, influencer
Reprodução Instagram
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Hana Khalil, dona de ótima oratória e bons insights, coleciona alguns vídeos virais em seu perfil no Instagram, sempre abordando pautas como machismo, homofobia, bem-estar e saúde mental. Assumidamente bissexual, ela participou de dois grandes realities da TV brasileira, “BBB” e “De Férias com o Ex”, e mesmo sendo holofote para muitas pessoas, ela assume evitar o assunto, pois não considera que ainda esteja pronta para isso. 

Em entrevista exclusiva ao iG Queer, Hana Khalil abordou um pouco seu passado difícil com os pais - que não lidam bem com sua bissexualidade -, violências verbais e físicas por parte de sua mãe, sexualização entre os amigos héteros e episódios de bifobia dentro da comunidade LGBTQIA+.

Natural do Rio de Janeiro e filha de pais conservadores, ela lembra de ter crescido em uma bolha social pouco flexível. Entretanto, ainda pequena, já notava que sua atração por pessoas não distinguia gênero. “Desde criança eu conseguia perceber que eu gostava de pessoas, não era algo voltado para mulher ou para homem, era algo mais geral, eu gostava de gente e não tinha essa consciência de distinguir gênero. Para mim, era tudo a mesma coisa”, inicia ela. 


Conforme cresceu, a jovem logo percebeu que suas “tendências”, que fugiam daquela realidade, não eram tão bem-vindas. “Na minha infância eu não sabia [o que era bissexualidade], até porque eu fui muito reprimida, meus pais morriam de medo que eu fosse LGBT, eles são duas pessoas conservadoras e homofóbicas em vários setores, então, quando me dei conta, eu fazia de tudo para não tornar aquilo real”, continua.

Por muito tempo, Hana disse que “nem cogitou pensar em mulheres”, mas que sabia que essa repressão interna não duraria para sempre. “Só fui começar a ter sensações novamente na adolescência, mas era sempre uma coisa muito secreta porque não só os meus pais reprimiam, mas o meu meio de convivência sempre foi muito heteronormativo, toda a minha realidade era ridícula, não me estimulava a descobrir minha sexualidade, era meio desonesto”, comenta.

Para evitar problemas dentro de casa, a infuencer continuou a “amassar” estes sentimentos dentro de si para que ninguém soubesse, mas isso, claro, gerou consequências. “Eu sabia do meu desejo por homens e mulheres, mas não me sentia acolhida para verbalizar”, diz ela. “Até porque… no meio que eu convivia as pessoas se referiam aos LGBTs de maneira muito cruel”.  

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Não saí do armário, ele desmoronou na minha frente

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Diferente de muitos LGBTs, Hana nem precisou sair do armário, ele desmoronou na frente dela. Aos 19 anos, ela foi confrontada por sua mãe e acabou confirmando as suspeitas da mesma. “Minha mãe ficou sabendo por intuição, ela achava que eu estava ficando com mulheres e eu acabei contando. Na época foi aquele texto ‘onde eu errei?’, o chororô, a gritaria, vários tipos de violência verbal, chorei muito. Depois ela contou ao meu pai e ele nunca lidou com isso pessoalmente. Já minha mãe fingia que não era real”, relembra. 

Hoje, aos 23 anos, por mais distante que possa parecer, sair do armário deixou marcas na influenciadora, que sempre procura lidar com os traumas. "Após me assumir,minha mãe foi violenta comigo várias vezes, rejeitava muito a ideia de [ter uma filha] ser bissexual. Não foi e não é um processo legal [se assumir]… eu falo pouco disso por que ainda tenho problemas. Hoje, pelo menos, moro sozinha, mas tenho cicatrizes”, desabafa Hana, sobre as violências que sofreu.

Somatizando a situação que vivia dentro de casa, na rua, Hana também não estava imune ao preconceito. "Meus amigos levavam como se fosse uma brincadeira e, na época, eu já tinha beijado algumas amigas. Porém, uma vez eu fiquei com uma menina que ninguém conhecia, todo mundo ficou chocado, disseram que fiz aquilo para aparecer, foi uma das vezes que mais me senti rejeitada. Depois desse trauma só os meus pais mesmo. Eles foram as pessoas que tornaram esse processo mais difícil", diz ela, sobre um dos primeiros episódios de bifobia que sofreu.

E dentro da comunidade LGBTQIA+ não foi diferente. Ela acredita que os amigos LGBTs e héteros, em lugares diferentes, se parecem muito entre si por conta da bifobia. "Tinha muito isso na minha vida, de pessoas ficarem me contestando, achando que eu sou 'bi de festa' ou hétero. Eu sempre sentia que tinha que provar que sou bissexual", relata.

Quando foi escalada para entrar no "Big Brother Brasil 19", a vida de Hana mudou e, mesmo desconfortável, ela conversou com os pais sobre a possibilidade de beijar uma mulher no programa - o que não ocorreu. Já no "De Férias com o Ex", ela teve outra conversa e explicou que se relacionou com algumas personalidades, como MC Rebecca e Stéfani Bays.

Mesmo com o sucesso na televisão e nas redes, a relação com os pais ainda não é das melhores. "Hoje eu não moro mais com eles, o que ajuda a amenizar muito. Mas eu e minha mãe não conversamos sobre o assunto e meu pai finge que não existe. A minha mãe até vê minhas redes, as coisas que faço e posto, já meu pai fica mais na dele", relata.

As redes sociais são palcos para seus protestos

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Nas redes, ela discute diversos assuntos como o veganismo, machismo, entre outras pautas da atualidade, e evita abordar a bissexualidade. Ao iG Queer, ela explica que essa postura, na verdade, é um cuidado com seus seguidores. "Não é que eu me controle para falar do assunto, mas eu não consigo romantizar o processo de contar aos pais. É muito legal ver as páginas postando 'Love Wins', mas a realidade não é fácil. Eu tive e ainda tenho muitos problemas com isso e não sou só eu, milhares de LGBTs passam por isso ou coisa pior dentro de casa", delibera. 

"Fico feliz por pessoas que são abraçadas pela família, mas não vou dizer para adolescentes de 13 anos que me chamam pensando em se assumir que é legal, não vou romantizar. Porque se alguém me dissesse quando eu era adolescente 'assume aí que é legal', eu teria apanhado mais do que apanhei, teria sofrido mais, teria entrado em uma depressão maior, teria tido problemas de saúde mental maior do que eu tenho hoje", acrescenta Hana.

"Então assim, a minha sexualidade não é pauta muitas vezes porque não vou aconselhar as pessoas sendo que eu ainda estou me descobrindo, no caminho. Ninguém é obrigado a saber e acreditar que sou bissexual", completa a ex-BBB.

Mesmo não sendo uma pauta recorrente em suas redes sociais (a bissexualidade), Hana Khalil não dispensa uma briga quando o assunto é homofobia. A influencer ressalta que não se importa com os ataques direcionados a ela, mas fica muito triste ao presenciar atos LGBTfóbicos. 

"Hoje em dia as pessoas querem ser respeitadas por não gostarem de LGBTs, mas essas pessoas não entendem que o fato deles não gostarem de LGBTs os mata", discursa. "É legal ver um especial feliz da Globo sobre os LGBTs, mas é importante lutarmos por pautas de um jeito mais político, só assim será feita a diferença".

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