duas pessoas de mãos dadas; em uma das mãos, está uma bandeira
Pexels/Anna Shvets
Depressão, ansiedade e crise de pânico são recorrentes na comunidade LGBT



Há três décadas, a Organização Mundial da Saúde (OMS) deixou de classificar a  homoessexualidade como uma doença ou transtorno mental. O reconhecimento da instituição se tornou um marco, já que, antes dele, as expressões, identidades de gênero e sexualidades que não fossem a heterossexualidade eram consideradas como anomalias.

A psicóloga Maria Júlia Viana, que faz parte do Grupo Reinserir, diz que, no entanto, essas noções ainda povoam a mentalidade de muita gente. “Muitas vezes, pessoas  LGBTQIA+ se sentem culpadas e geradoras do próprio sofrimento e adoecimento que estão sentindo”, diz. A saúde mental de LGBTs pode se tornar mais vulnerável devido a fatores externos: o preconceito e, consequentemente, o medo que ele causa.


No último ano, devido às medidas restritivas da pandemia do novo coronavírus, o distanciamento social impactou significativamente a saúde mental de LGBTs. De acordo com a pesquisa Diagnóstico LGBT+ na Pandemia, feita entre abril e maio de 2020, 42,7% de 9.500 LGBTs afirmaram que sentiram sintomas de ansiedade, depressão e crises de pânico no confinamento. Além disso, 16,58% se sentiram mal diante das novas regras de convívio, 11,7% se sentiram sozinhos e 10,6% estavam com problemas financeiros.

Viana afirma que, dentro da comunidade LGBT , está muito presente o relato de sintomas que estão diretamente ligados à depressão, ansiedade e crises de pânico, capazes de gerar sofrimentos que, em casos extremos, podem levar ao suicídio.

A psicóloga explica que essas dores são resultados de violências e opressões como: a não aceitação da família, relações sociais que se tornam violentas, falta de acolhimento e trabalhos mais precários , aos quais as pessoas LGBTs estão sujeitas. “São questões de como a socieade enxerga a população LGBT, como uma espécie de subgente”, diz Viana.

Como identificar que uma pessoa está sofrendo?

Viana explica que existem diversos sinais que necessitam de atenção, como: isolamento; dificuldade de dormir; choro constante; perda de interesse por atividades cotidianas; sentimentos persecutórios e preocupação excessiva.

“Mas não se trata de algo concreto. Não existe um exame para identificar depressão ou ansiedade. Essa identificação se dará a partir de uma observação das questões que a própria pessoa apesenta”, diz a psicóloga.

A profissional alerta que é preciso ter muito cuidado para que não aconteça um diagnóstico equivocado. Para ela, é preocupante que se faça uma associação equvocada: a de que o uso de medicamentos pode curar um sofrimento.

“A pergunta que devemos nos fazer é: qual o caminho para o sujeito que, ao longo da sua vida, foi e é submetido a inúmeras opressões, que não pode expressar sua sexualidade, gênero ou quem verdadeiramente é, se não o do adoecimento e sofrimento?”, questiona.

Tratamento e acompanhamento

Para se tratar de quadros de depressão e ansiedade, Viana afirma ser imprescindível a busca de ajuda profissional. Existem serviços assistenciais gratuitos no Centros de Atenção Psicossocial (CAPS)

O Brasil tem uma lei da reforma psiquiátrica que redimensionou o cuidado na saúde mental (Lei 10.216/2001) que fechou hospitais psiquiátricos e passou a assistência para os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e Unidades Básica de Saúde (UBS). Há, ainda, grupos e ONGs de apoio a pessoas LGBT, como é o caso do Reinserir , onde Viana atua.

Além de tratamentos e acompanhamento psicológico, a profissional indica que é importante encontrar um grupo de apoio com pessoas que passaram pelas mesmas experiências e sentem sofrimentos similares.

“A gente não pode atribuir uma fórmula pronta ao cuidado de uma pessoa, mas auxiliar a partir do seu relato. Não podemos nos colocar no papel de dizer o que é o bem viver, mas acompanhar seu sofrimento e pensar junto a ela caminhos que a fortaleça e espaços que reafirme a vida”, explica.

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