Conheça o movimento pioneiro que originou o Dia do Orgulho Lésbico
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Conheça o movimento pioneiro que originou o Dia do Orgulho Lésbico

Em 19 de agosto de 1983, o Grupo de Ação Lésbica e Feminista (GALF) fez a primeira manifestação exclusivamente homossexual do país, invadindo um bar de São Paulo de onde suas integrantes haviam sido expulsas e proibidas de voltar. A manifestação, que marca o Dia do Orgulho Lésbico , foi intensamente noticiada pela imprensa da época e chegou a ter alcance nacional, com a ida de uma das militantes do grupo ao programa da apresentadora Hebe Camargo, na TV Bandeirantes.

Tudo começou por causa do boletim Chanacomchana, uma publicação produzida pelo GALF em formato de fanzine e que tinha como objetivo falar com outras lésbicas e refletir sobre as questões da época relacionadas a elas: preconceito, saída do armário, amor entre mulheres. As fundadoras do grupo, Rosely Roth, falecida em 1990, e Miriam Martinho, 66, comercializavam o jornal no Ferro’s Bar, um estabelecimento que ficava na Avenida 9 de Julho, no centro da capital paulista.

De acordo com Martinho, a publicação era a única do gênero naquele período. “Conheço outras, de um grupo do Rio de Janeiro, o Xererecas, e uma do grupo da Bahia, o Amazonas. Mas naquele momento, em que o Chanacomchana ressurge, ele estava sozinho”, diz. O jornal foi publicado pela primeira vez em 1981, pela ala lésbica do grupo homossexual Somos, e voltou a ser publicado pelo GALF em 1982.

O boletim Chanacomchana foi relançado pelo Galf em 1982 e circulou até o final dos anos 1980
Reprodução
O boletim Chanacomchana foi relançado pelo Galf em 1982 e circulou até o final dos anos 1980



Apesar de a publicação ser feita ainda durante os anos de ditadura militar, o GALF não chegou a ter problemas com o governo. “Em 1982, a ditadura já estava, felizmente, indo para os seus últimos momentos. O que tinha era uma sociedade extremamente preconceituosa, conservadora, homofóbica, lesbofóbica, tudo de fóbica que se possa imaginar. A situação da gente era de muita marginalidade por causa disso, que dificultava o trabalho de veiculação do Chanacomchana entre as próprias lésbicas, a maioria no armário. Muitas tinham medo de receber o boletim com esse nome”, diz Martinho.

De acordo com Martinho, a escolha do Ferro’s Bar como local de venda da publicação se deu porque ele era um importante ponto de encontro de mulheres lésbicas na época, mesmo sem ser um bar LGBTQIA+. “O Ferro’s já era, na parte da noite, um bar praticamente de lésbicas. O estabelecimento tinha uma longa história de frequência da 'marginália' paulistana, vamos dizer assim. Primeiro os artistas, atores e atrizes, depois teve um período em que os gays eram a maioria do público e, por fim, as lésbicas. E ele ficou com as lésbicas até o fim dele. Virou um dos principais points lésbicos da época. E por isso a gente vendia Chanacomchana lá”, afirma Martinho.

Apesar disso, os donos do bar não gostavam da publicação. “A razão pela qual eles começaram a implicar com gente foi porque o boletim era muito explícito, explicitamente lésbico, numa época em que todo o mundo estava no armário. Aquela coisa hipócrita de ‘você pode estar aqui desde que finja que não é homossexual’ rolava lá também. O bar era sustentado pelas lésbicas, mas não podíamos ter nenhuma expressão muito aberta de carinho. Imagine só um boletim chamado Chanacomchana”, diz Martinho.

O Ferro's Bar ficava na avenida 9 de Julho, no centro da capital paulista
Reprodução/Um Outro Olhar
O Ferro's Bar ficava na avenida 9 de Julho, no centro da capital paulista



Aos poucos, os donos do Ferro’s Bar começaram a tentar impedir a venda do boletim. Mas Miriam e Rosely sempre conseguiam se manter lá, por causa das outras lésbicas que frequentavam o ambiente e pediam que elas permanecessem.

“Era algo muito hipócrita porque se vendia de tudo no bar. Rosas e bijuterias, que a sapataiada dava para as namoradas. Os evangélicos também, já naquela época, o exército da salvação, para vender a publicação deles, para nos salvar do pecado, do inferno, como eles diziam. Peças de teatro. Fora outras substâncias. E o dono do bar resolveu cismar com a gente. Não tinha nem como dizer que era um bar de família ou algo assim. Todo o mundo entrava ali. Foi uma ação discriminatória, mesmo”, afirma Martinho.

Até que um dia os donos do Ferro’s Bar foram violentos com as integrantes do GALF, colocando-as para fora do estabelecimento. “Os donos do bar usaram de força, mesmo: eles nos empurraram para nos expulsar do bar. Chamaram até a polícia, mas eles não quiseram colaborar com a expulsão. Foi um caso raro. Os policiais disseram que a gente tinha o direito de estar no bar e que não queriam se meter naquela zona. Nesse dia, as próprias lésbicas do bar disseram que queriam que a gente ficasse lá, que elas queriam comprar o boletim. E acabamos ficando mais uma vez. Mas, depois desse dia, eles fecharam a porta para nós e não deixaram entrar mais”, diz Martinho.

O Grupo de Ação Lésbica Feminista organizou, então, uma manifestação. O obejtivo era invadir o bar e exigir que os donos permitissem que elas voltassem a vender o Chanacomchana e frequentar o bar novamente.

“Fizemos uma manifestação política, dizendo para as lésbicas que, unidas, nós poderíamos conseguir as coisas. O objetivo principal era a gente conseguir voltar a vender no bar, mas tomou uma proporção muito maior do que a gente imaginava. Pela primeira vez, saímos na imprensa sem ser porque uma matou a outra. Era assim, naquela época, quando a imprensa noticiava lésbicas: apenas casos ligados a crimes. E a abordagem da manifestação foi positiva, foi inusitada”, afirma Martinho.

De acordo com a militante, a organização do evento durou quase um mês. Elas contavam com o apoio de diversos grupos, como a OAB, feministas, homossexuais e alguns parlamentares. Elas tinham medo que, ao se tornar um protesto maior, pudessem ter problemas com a ditadura militar.

A militante Miriam Martinho foi uma das pioneiras do movimento lésbico brasileiro
Reprodução/Facebook
A militante Miriam Martinho foi uma das pioneiras do movimento lésbico brasileiro



Pela ligação com os protestos norte-americanos que aconteceram em torno do bar Stonewall Inn, e que marcam o início do movimento LGBTQIA+ no mundo, a manifestação das lésbicas brasileiras ficou conhecida como o Pequeno Stonewall Brasileiro.

“Não foi uma coisa tão épica e dramática, como os protestos do Stonewall Inn, mas foi a primeira manifestação de visibilidade exclusivamente homossexual do período. Antes havia tido uma manifestação contra o delegado Richetti, mas ali não foi algo especificamente homossexual. Era o movimento homossexual da época, feministas, grupos negros, algo mais coletivo. Como visibilidade específica, a invasão do Ferro’s Bar foi a primeira. E, por ter sido num bar, por ter envolvido repressão, acabou sendo apelidado de Pequeno Stonewall Brasileiro. Eu acho bem mais modesto, quando comparado ao Stonewall Inn, que foram três dias das pessoas brigando com a polícia e aqui a polícia não quis se envolver. Apesar disso, acho que está correto a nomenclatura”, diz Martinho.

Com o sucesso de seus objetivos – os donos do bar se desculpando com as lésbicas e permitindo que elas voltassem a frequentar e vender o Chanacomchana no local – o movimento foi intensamente noticiado e uma das organizadoras, a Rosely Roth, foi convidada, em 1983, para ir ao programa da Hebe Camargo, na TV Bandeirantes, para falar sobre o movimento de mulheres lésbicas.

Na ocasião (veja o vídeo abaixo), Rosely Roth defende que, mesmo sendo lésbica, ela continuava sendo uma mulher e que o amor dela a outra mulheres deveria ser respeitado por toda a sociedade. A jornalista Marília Gabriela, também no programa da Hebe Camargo, ajuda a argumentar em favor do amor entre mulheres quando uma senhora, mãe de uma mulher lésbica, diz que jamais aceitaria a orientação sexual da filha.


“A primeira divulgação do GALF foi exatamente a Invasão do Ferro’s Bar, porque a imprensa noticiou bastante. E depois, mais ainda, quando a Rosely Roth foi ao programa da Hebe Camargo, por causa dessa invasão. E aumentou o conhecimento das lésbicas do Brasil inteiro sobre o GALF e o Chanacomchana”, afirma Miriam Martinho.

Além de ficar gravado na história como a primeira manifestação homossexual, marcando o Dia do Orgulho Lésbico, o Pequeno Stonewall Brasileiro também foi responsável pelo aumento do alcance da comunicação do grupo com outras lésbicas de todo o Brasil e pelo aumento das vendas do fanzine.

“Naquela época, a comunicação se dava fundamentalmente por telefone ou por correio. Não havia outras formas. Então, nós tínhamos muito contato com outras lésbicas por correio. Depois que a Rosely Roth apareceu no programa da Hebe Camargo e divulgou a caixa postal do grupo, a gente teve uma enxurrada de contatos de lésbicas de todo o Brasil. O grupo ficou conhecido e a gente pode ampliar a venda do Chanacomchana”, diz Martinho.

A produção do jornal era artesanal, por isso não chegava a ultrapassar 500 exemplares. No final da década de 1980, ele deixou de ser produzido.

“Com o final das ações de contracultura do período, aquela coisa provocativa, o Chanacomchana deixou de existir também. A publicação que sucedeu recebeu um nome mais sério, Um Outro Olhar. Tem o mesmo objetivo, mas já não é mais para provocar, é mais pragmático”, conta Martinho.

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