Psicólogo aponta que busca eterna por juventude na comunidade LGBT+ está ligada com a falta de afeto e acolhimento durante o crescimento
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Psicólogo aponta que busca eterna por juventude na comunidade LGBT+ está ligada com a falta de afeto e acolhimento durante o crescimento

A comunidade LGBTQIAP+ vive muitos estímulos negativos desde a infância que impedem seus membros de se desenvolverem plenamente e com referências saudáveis do que é ser uma pessoa queer. Muitas pessoas da comunidade sequer têm consciência desses efeitos negativos na formação de suas identidades e muitas vezes não têm a oportunidade de refletir e trabalhar sobre elas, como em um acompanhamento terapêutico por exemplo.

Além das questões de insegurança social e risco à segurança física, pela LGBTfobia, a saúde mental da comunidade também está vulnerável a fatores externos, como mostram dados de um levantamento realizado pelo coletivo #VoteLGBT, em parceria com a Box1824, que aponta que 55% da população LGBTQIAP+ teve piora na saúde mental na pandemia.

Um dos transtornos que acompanha muitos membros durante a vida é o de imagem - muito devido a uma busca excessiva pela hétero-padronização e busca por aceitação. O psicólogo especializado em saúde mental queer, Jonnanh Nascimento - que utiliza as redes sociais para promover conteúdo em prol da auto estima da comunidade -, traz uma definição sobre transtorno de imagem.

“O transtorno de imagem ocorre quando a pessoa tem uma percepção de sua autoimagem distorcida, gerando sofrimento. Um exemplo prático são os casos de anorexia, quando a pessoa se olha no espelho e tem uma visão equivocada do próprio corpo”, explica.

O especialista comenta que, para a comunidade queer, o transtorno é um resultado de processos de violência que ocorrem desde a infância, já que essas pessoas crescem "sofrendo negligência social, sem referências e espaço para a validação subjetiva. Tanto nos seus comportamentos, quanto na forma de se expressar no mundo”.

O psicólogo usa o termo “nutrição emocional” para se referir à carência afetiva que pessoas queer estão sujeitas durante a formação de identidade. Ele ainda cita outros problemas, para além do transtorno de imagem, que as pessoas LGBT+ ficam suscetíveis devido à falta de acolhimento.

“A falta deste tipo de validação social cria um sentimento de insuficiência que aparece de inúmeras formas. Seja a partir da ansiedade que desencadeia todas as questões que a comunidade lida, como uso de drogas, suicídio e depressão”, diz.



Sociedade hiperssexualizada

Jonnanh Nascimento também atribui o problema da falta de autoestima da comunidade LGBTQIAP+ à estrutura hiperssexualizada em que a sociedade está organizada. Para o profissional, muitas vezes "a aprovação social passa pelo fetiche".

"Por isso que para muitos LGBT+ existe uma grande preocupação sobre o quão eles são atraentes e desejados. O famoso ‘biscoito’ nas redes sociais. São formas de obtenção de uma validação a partir da imagem, a partir do corpo que, em casos severos, pode gerar um transtorno de imagem e uma busca obsessiva por um corpo padrão", afirma.





“O mais importante é entender que a padronização é uma ilusão. No final das contas somos todos pessoas diferentes, com histórias e trajetórias diferentes. E são justamente essas singularidades que nos identificam no mundo", diz o psicólogo.


Etarismo

Sobre o etarismo dentro da comunidade LGBTQIAP+ - que é a fobia de se relacionar, seja afetivamente ou socialmente, com pessoas mais velhas - o profissional de saúde afirma que existem três pontos básicos a serem analisados a respeito.

“Primeiro, pessoas de dentro da comunidade sofrem com algo que chamamos de 'adolescência tardia'. Elas passam a adolescência reprimindo a sexualidade e começam a viver, a se relacionar e a explorar quem elas são só depois de alcançar a independência financeira, o que acontece próximo dos 30 anos de idade”, diz.


“O segundo fator se refere aos impactos das epidemias de Aids e HIV, entre as décadas de 1970 e 1990. A nossa geração, em especial a de 1980, cresceu sem referências de pessoas idosas LGBT+. Boa parte dos nossos conflitos com a idade vem deste fato”, afirma Nascimento, que atribuiu o terceiro e último ponto à estrutura capitalista da sociedade.

“Por fim, vivemos em uma sociedade capitalista cada vez mais pautada no consumo e que trata as pessoas como mercadoria. Nessa lógica, deixou de ser produtivo, em termos sociais, você morre”, finaliza.

EternamenteSOU

Pensando em mudar este cenário de discriminação, alguns grupos específicos da comunidade queer enxergam a importância de debater o etarismo e dar suporte a esta parcela da população, que precisa de apoio e atenção.

Uma dessas iniciativas é a associação EternamenteSOU que luta por acolhimento e cidadania das pessoas idosas LGBT+. O presidente da associação, Luis Baron, 62, fala do surgimento da instituição.

“Ela surgiu de um olhar atento no que, dentro da comunidade LGBTQIAP+, tem menos representatividade, que é a velhice. A partir daí se constrói um trabalho e surge o primeiro seminário sobre velhices LGBT+ que deu origem à associação, em janeiro de 2018”, diz o presidente, que completa listando alguns trabalhos que são realizados pela instituição atualmente.

“Temos a frente de assistência social, que trabalha com a distribuição de cestas básicas, para pessoas que estão em maior vulnerabilidade alimentar. Temos também atendimento psicológico, que é gratuito durante um período, e atendimento jurídico”, afirma Baron, que traz mais exemplos.

“Temos várias salas de discussão, que trazem assuntos à tona, como a questão de saúde masculina e feminina da pessoa idosa. Fora isso tem também outras atividades voltadas para formação e informação sobre a história das velhices LGBT+, e por aí vai”, completa.

O presidente da associação anuncia ainda que a equipe está organizando um seminário e um fórum regional: “Nesse ano realizaremos o 5º Seminário de Velhices LGBT+, em associação com o Sesc de São Paulo. Estamos desenvolvendo ainda o 1º Fórum Regional de Velhices LGBT+”.


Acolhimento da população LGBT+ velha

Luís Baron acredita que, como um todo, a comunidade LGBTQIAP+ acolhe "muito mal" as pessoas mais velhas e que isso está relacionado a "um medo terrível com a velhice".

“A gente tem uma cultura da pessoa idosa como uma pessoa não produtiva, não reprodutiva, portanto descartável. A velhice é vista de forma assexuada e, quando ela é vista com algum tipo de sexualidade, ela é hegemonicamente heterossexual”, afirma o presidente, que completa: “A juventude dentro da comunidade LGBT+ é uma moeda de troca muito poderosa”.

Baron ainda comenta a busca pela heteronormatividade que existe dentro da comunidade LGBTQIAP+. Para o presidente da EternamenteSOU, muitas vezes essa padronização está ligada a um mecanismo de defesa.

“Essa necessidade da heteronormatividade é quase que uma questão de sobrevivência em algumas situações. Muitas pessoas LGBTQIAP+ deixaram suas famílias, seus núcleos de apoio, para conseguirem viver suas orientações sexuais em outros lugares mais seguros”, diz Baron, que completa: “Na velhice, nossas redes de apoio podem estar muito fragilizadas. Precisamos  muitas vezes retornar inclusive para a família, mas isso implica em voltar parecendo hétero, para que o acolhimento aconteça”.

O presidente também traz a discussão para a questão da transexualidade: “Muitas vezes pessoas trans chegam à velhice e precisam ir para instituições de longa permanência, mas não podem expressar abertamente suas identidades de gênero”.

Para finalizar, Baron afirma que “as velhices no Brasil são tratadas de forma hegemonicamente heterossexuais”.

"Como é que eu sobrevivo dentro desse universo? Como é que eu vou ter cuidados quando eu precisar? Como é que eu vou no médico e tratar da minha sexualidade, por exemplo, sendo um homem gay mais velho?”, indaga o presidente.

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