Ball Vera Verão
Reprodução/Instagram/Cintía Rizoli
Ball Vera Verão

Séries como “Pose” ou reality como o “Legendary" mostram o poder da cena Ballroom nos Estados Unidos, mas - para além de uma festa - esse movimento e cultura formam um espaço de refúgio, resistência e exaltação da população negra, periférica e LGBTQIAP+, que por meio de disputas em diversas categorias, os vencedores recebem prêmios.

O surgimento da Ballroom tem influência das drag balls (bailes drags) que ocorriam entre 1920 e 1930 no Harlem, nos Estados Unidos, porém o movimento surgiu somente no final da década de 1960, após Crystal LaBeija, uma travesti preta, ter perdido o concurso de beleza de drag queens para pessoas brancas. Ela não aceita a injustiça e o racismo e decide criar a House of LaBeija, primeira House (casa) que dá estrutura ao movimento Ballroom, que tem se difundido paulatinamente pelo mundo como um movimento político, de ocupação de espaços e de celebração a diversidade de gênero, sexualidade e raça.

No Brasil não é diferente: a primeira House que dá início a uma consistência do movimento no país é a House of Hands Up, que surge em 2015, com a mother (mãe) Eduarda Kona Zion em Brasília, no Distrito Federal, enquanto a dança vogue já se fortalecia pelo país.

Jô Gomes, de 34 anos, atual mother (mãe) da House of Hands Up, jornalista e professora, explica que nos anos 1990 a internet ainda não era uma realidade para a maioria dos brasileiros e a única informação que chegava para eles era sobre a dança vogue e algumas outras relacionadas a cultura hip hop, como o break.

O movimento começou a formar um alicerce forte no Brasil a partir de profissionais da dança que estudaram mais sobre a cultura Ballroom, possibilitando assim evoluir os acessos e aprendizados. "Foi a partir da década de 2010 para frente que começamos a estudar com mais profundidade a cultura ballroom aqui no Brasil", adiciona a dançarina.

Assim como nos EUA, a cultura busca exaltar os corpos marginalizados e, fora dos palcos, cria uma relação de união entre eles. "Os corpos que são exterminados lá fora, no ball são acolhidos”, comenta Gomes. 

Por lá, muitos jovens LGBTQIAP+ foram expulsos de suas casa e, com o alto índice de contaminação pelo vírus do HIV na época, trouxe-lhes um enfraquecimento na autoestima, saúde mental e física, mas encontraram abrigo e pertencimento na ballroom. Já no Brasil, o mesmo ocorre.

“O ball é um espaço seguro para nós, pessoas pretas, LGBTQIAP+, latinas e periféricas sermos quem somos, aceitos por este motivo e termos nossos corpos e nossas vivências respeitados, exaltados e acolhidos”, defende a jornalista.

“A cultura Ballroom foi feita de, para e por pessoas pretas, LGBTQIAP+, latinas e periféricas. A Madonna não inventou nada, ela só foi responsável por ir em um ball e ter achado o máximo, assim como todo mundo acha”, enfatiza a mother, explicando sobre o papel que a cantora pop teve ao lançar a música “Vogue” em 1990, vista como responsável pela repercussão da cultura Ballroom no mundo.

Para ela, é importante que saibam que o ball não é somente sobre uma competição ou rivalidade, é um momento de celebração das vidas desses corpos que o Estado quer exterminar a todo momento, principalmente no país que mais mata pessoas trans e travestis. "Nós estamos vivos, estamos aqui e queremos ser respeitados pela nossa arte e por tudo o que o temos para acrescentar”.

Félix Pimenta, de 32 anos, pioneiro da cultura Ballroom e atual father (pai) da House of Zion no Brasil, contribui dizendo que para consumir o movimento de maneira consciente é preciso estar o mais próximo possível para conhecer as realidades e verdades.

"Sempre que possível, contrate profissionais que fazem parte da comunidade Ballroom para que possam produzir, curatoriar, direcionar ou escrever sobre ela”.

Para além do close

“O atual cenário político é o mais difícil, nós acompanhamos esses últimos sete anos de desmonte cultural e mudança no cenário. Os últimos dois anos foram os mais graves por conta da pandemia, afastamento social e tudo agravado devido ao governo genocida que está no poder", enfatiza o father.

Félix acredita que, para além de superar questões externas, os integrantes da cena precisam também lidar com as questões internas do movimento.

“As Houses têm um papel social, não é um grupo de dança, não é um lugar que a gente vai para São Paulo dançar, não se trata apenas disso, é sobretudo um lugar para se sentir acolhido, para ser tudo o que você pode ser. É para você ser inserido na sociedade de alguma forma, pertencer a algo, já que os corpos pretos e LGBTQIAP+ são os mais exterminados historicamente no mundo”, retoma a professora.

Ela ainda explica que ser mãe, pai ou pãe (pessoas não-binárias) de uma casa, não é somente um título, mas é sobre as ações dentro da estrutura do lar, assim como uma família, podendo ser possível ter mais de uma mãe, um pai etc. “São títulos de hierarquia, o que a gente costuma dizer é que ‘título na ballroom, não é status, mas é trabalho’. A mother tem que zelar pelos filhos da casa”.

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“Geralmente as pessoas com títulos são pessoas que precisam se envolver mais, precisam correr atrás para entender as necessidades dos membros das casas, ir atrás de medicamentos, levar pessoas no hospital caso precise, se há algum carro, coloca-lo à disposição para cuidar das pessoas. Se alguém falar ‘eu não tenho dinheiro de passagem para ir para o treino’, ajudamos fazendo Pix. Uma House é esse suporte no geral”, completa.

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Para as houses se manterem, os líderes precisam se articular entre si para manter tudo em ordem, comenta Félix. “Desde o início da movimentação da Ballroom no Brasil, nós tentamos ter como base o acolhimento e a saúde como um dos atravessamentos importantes do movimento. Nossas ações com os serviços de saúde são um modo de articulação e cuidado entre as Houses e a comunidade”.

Como ele atua em São Paulo, Félix explana que na cidade sempre organizam balls pensando em uma agenda que tenha articulação com serviços importantes e que tenha relação direta com o público da ballroom.

"Articulações com ONGS e entidades também é algo comum entre diversas houses pra garantir um evento ou qualquer ação dentro da cultura Ballroom”, diz. 

Com relação ao cenário finaceiro que a cena tem, o dançarino diz que existe uma movimentação para tentar garantir empregabilidade por meio da ballroom ou pela ballroom. "As houses também começaram a acessar fomentos e editais que garantem uma verba para a movimentação da house”.

Para que essas comunidades possam se manter, é preciso de incentivos culturais, e ele pontua dizendo que "também depende muito de cada house, região e cena, que mostram realidades bem diferentes".

Vocabulário Ballroom

House (casa) : um grupo, fraternidade formada por pessoas marginalizadas (negros, periféricos, LGBTQIAP+) e se apoiam como uma verdadeira família.

Children (crianças): membros das houses.

Mother/Father (mãe/pai): são os líderes das Houses. O título não segue a binaridade e fica a critério da pessoa, um homem pode ser a Mother e uma mulher o Father, e vice-versa.

Ball (baile): evento para celebrar a existência de corpos marginalizados por meio de competição entre as casas rivais.

Legend(ary) (lendário/(a)/(e): Alguém com histórico no cenário, com vários troféus de Ball, um veterano.

Chop (corte): Ser desqualificado de um Ball, eliminado.

Butch: Uma mulher masculina, normalmente lésbica.

Butch Queen: Homem gay. 

Punish (punir): Destruir alguém numa batalha, ser o melhor.

Ruler:  Atual vencedor de uma categoria. 

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** Julio Cesar Ferreira é estudante de Jornalismo na PUC-SP. Venceu o 13.º Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão com a pauta “Brasil sob a fumaça da desinformação”. Em seus interesses estão Diretos Humanos, Cultura, Moda, Política, Cultura Pop e Entretenimento. Enquanto estagiário no iG, já passou pelas editorias de Último Segundo/Saúde, Delas/Receitas, e atualmente está em Queer/Pet/Turismo.

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