Ilustração de capa do livro
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Ilustração de capa do livro "Ariel - A Travessia de um Príncipe Trans e Quilombola"


O livro "Ariel - A Travessia de um Príncipe Trans e Quilombola" retrata a vivência e os conflitos internos de Ariel, um menino trangênero, gordo e preto, que, mergulhado em seu mundo, é levado a percorrer sua ancestralidade no Quilombocéu. A obra é de autoria do escritor brasileiro Jared Amarante, publicada pela Editora Giostri, que destaca os caminhos que levam o personagem central a uma afirmação de si mesmo, enfrentando seus medos, angústias e ansiedades expressas em desenhos que simbolizam as experiências negativas do personagem na Terra.

A narrativa é um referencial para crianças, adolescentes e adultos de transidentidades, gordos e pretos que buscam um reconhecimento social e legitimação de suas identidades. A obra também quer dar um amparo a estas pessoas e as que estão em processo de descoberta pessoal. Jared é um homem cisgênero, branco e magro e explica, em entrevista exclusiva ao iG Queer, que decidiu criar esse personagem por uma consciência de gênero e de raça que tem, ou seja, pois se uma dor tão intensa não é a dele, o escritor se sente no dever de retratar aqueles que sofrem com o preconceito.

"É justamente por isso que devo falar dela, refletir sobre, porque essa mesma dor que não me toca, está fazendo um corpo preto, trans e gordo ser estatística, ter seu talento invalidado, suas oportunidades dadas a outros corpos", comenta. "Falar sobre isso, para mim, é obrigação, aliás, não só minha, mas de todo corpo cis, branco e magro. É nosso o dever de fazer uma reparação histórica. Se não estou falando de algo que machuca o outro, estou machucando este outro também. Parece simples entender isso, certo? Mas não é", completa.

O autor ainda ressalta que o Brasil é o país que mais mata pessoas trans e travestis e essa realidade precisa ser destacada. Segundo dados do dossiê “Assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2021”, divulgado em janeiro deste ano pela Associação Nacional de Travestis e Transsexuais (Antra), pelo menos 140 pessoas trans foram assassinadas no Brasil só no ano passado, sendo 135 travestis e mulheres transsexuais e cinco homens trans e pessoas transmasculinas.

"Esse Brasil tem um projeto de morte para trans, pretos e gordos. E esse projeto não é só de morte física, literal, mas de matar os sonhos, a psique. Então, eu quis deixar uma contribuição para o mundo, para que lá na frente possamos perceber que não somos tão livres assim, enquanto todos os corpos não o forem", ressalta. 

A história do livro apresenta a travessia e transição de Ariel, que vai parar no Quilombocéu quando desabafa com seu papel após sofrer racismo e transfobia de seu próprio pai. Neste lugar celeste, o personagem central se sente aceito e é coroado príncipe da paz. Jared diz que a ideia é trazer a concepção do que imaginamos ser o céu, ou seja, uma terra de igualdade, resistência, força e segurança. Ele também afirma que a grande inspiração para escrever a obra infantojuvenil é a coragem das pessoas trans. 

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"A força que elas precisam ter, todos os dias, para existir num mundo que tem um olhar demonizador, fetichista, assassino para com seus corpos. Além disso, transbordo gratidão pelas pessoas trans e travestis, pois sei que foram elas que estiveram na linha de frente da batalha para que, inclusive, nós gays (cis) tivéssemos um mundo um pouco mais colorido hoje. O início dos movimentos LGBTQIA+ foram liderados por mulheres trans e travestis, que arriscaram suas vidas. Eu me emociono ao ler, na história, como essas coletividades se empenharam incansavelmente para que hoje estivéssemos aqui com conquistas significativas."

O escritor salienta que não existem registros na literatura de um príncipe preto, trans e gordo e acredita que a força da história de Ariel pode trazer esse sentimento a crianças trans de todos os lugares. Ele também ressalta que não tem medo que seu livro seja censurado pela parcela de pais mais conservadora que não gosta de inserir assuntos da comunidade LGBTQIA+ na escola ou em casa.

"Acho que eles têm a obrigação de se instruírem, para instruírem seus filhos. É muito provável que crianças que reproduzem racismo, transfobia e gordofobia, tenham visto um adulto fazer isso. Então a responsabilidade está, sim, nos ombros desses pais. Claro que nem todo mundo sabe de tudo, ou consegue se abrir tão rápido para todos os assuntos, mas tenho visto a preguiça de conhecer e de dialogar vencer em muitos momentos."

Para ele, se um pai censura um filho de ler uma obra como essa, ele "está censurando a diversidade, a pluralidade da vida" e não vai criar um filho para respeitar a todos. "Digo e repito o que constantemente tenho dito: corpos trans, pretos e gordos não estão nos pedindo amor ou validação, mas respeito. Pais, acordem para isso! Pois o mundo não está resumido no binarismo", finaliza.

O livro "Ariel - A Travessia de um Príncipe Trans e Quilombola" está disponível nas livrarias Giostri Cultural e Martins Fontes, além do site da própria Editora Giostri , por R$ 45.

O autor brasileiro Jared Amarante
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O autor brasileiro Jared Amarante

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** Felipe Carvalho é formado em jornalismo pela Universidade de Taubaté, trabalhou em grandes portais e revistas de entretenimento como Guia da Semana, O Fuxico, Caras, UOL, Glamour e Marie Claire. Além disso, é formado como ator pela Escola de Atores Wolf Maya, já tendo feito participações em novelas e interpretou personagens em mais de 15 peças teatrais. No iG, é editor de Turismo, Queer e do Canal do Pet.

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