Conheça o projeto Dicionário da Cidadania, que quer ajudar população a ter acesso fácil a termos ofensivos
Anete Lusina/Pexels
Conheça o projeto Dicionário da Cidadania, que quer ajudar população a ter acesso fácil a termos ofensivos

A Língua Portuguesa é repleta de terminologias e verbetes que estão enraizados na cultura brasileira, mas detém significados opressores que podem contribuir com preconceitos e, consequentemente, a marginalização de minorias sociais. Parece pouco, mas a falta de atenção no modo de falar pode ir além da mágoa e contribuir para uma estrutura de poder capaz de segregar pessoas negras, LGBTQIA+ , mulheres, pessoas com deficiência e pessoas gordas, para citar alguns exemplos.

Diego Cotta, coordenador de comunicação da ONG Ação da Cidadania, afirma que as tentativas de conscientização sobre a língua e de reflexão para que determinados termos não sejam mais passados para frente não começaram hoje. Na verdade, essas reflexões existem há anos e foram propostas, principalmente, por movimentos sociais.

Com o intuito de contribuir com essa discussão e ajudar no debate, a ONG decidiu lançar o Dicionário da Cidadania. A iniciativa sugerida pela agência Binder trata-se de uma plataforma on-line que agrupa palavras e termos ofensivos e seus significados. O intuito é organizar essas informações em um só lugar, facilitando assim que as pessoas pesquisem e tenham acesso aos significados desses termos e, assim, parem de utilizá-los.

Diego ressalta que o trabalho do Dicionário da Cidadania não se trata de uma pesquisa inédita, mas uma tentativa de contribuir com a ressignificação de ideias.

“A partir de uma plataforma digital, estamos dando espaço para pessoas, grupos, professores e cientistas colocarem ali como seria melhor trabalharmos determinados conceitos e melhorar a sociedade”, explica. O projeto é colaborativo e permite que qualquer pessoa acrescente ou peça alteração nos verbetes.

O coordenador afirma que é fundamental que a população passe a ter atenção quanto à maneira de se comunicar. Saber o significado de termos opressores e parar de dizê-los pode ser uma ferramenta bastante eficaz e útil para contribuir para uma sociedade mais respeitosa e segura.

“Determinados termos já não fazem mais sentido porque as pessoas se sentem ofendidas e machucadas, e isso gera mortes, desemprego, frustrações. Então, por que continuar falando e escrevendo dessa maneira?”, questiona o coordenador.

A língua pode causar fome?

Com sede no Rio de Janeiro, a Ação da Cidadania atua há quase trinta anos na área de segurança alimentar e nutricional. Esse tópico pode parecer muito distante do ato de repensar a linguagem no cotidiano, mas, na verdade, não é. Diego vê essa extensão como uma forma de continuar o trabalho.

“Não podemos fechar os olhos para o fato de que a fome tem raça e gênero. Nas estatísticas, famílias chefiadas por mulheres e pessoas negras são as que mais passam fome. A cidadania está sendo negada para boa parte da população brasileira que se encontra nesses grupos vulnerabilizados”, começa Diego.

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“Esses preconceitos e discriminações são das mais variadas formas, desde a política que não é construída no parlamento até a língua, porque ela estrutura a forma de pensar e imaginar a sociedade brasileira. Com isso perpetuado por décadas, acabamos tendo o que a gente tem hoje, que são populações vítimas, sendo mortas ou não tendo a mesma oportunidade de emprego, por exemplo”, contextualiza.

Pensar a língua requer empatia

As movimentações proposta para se repensar a Língua Portuguesa não agradam a todas as pessoas, salienta Diego. Para alguns, essas ações são encaradas como desnecessárias e até "desrespeitosas" com a própria língua, além de não serem vistas como prioritárias.

Como exemplo, Diego cita a resistência à linguagem neutra, que consiste no uso do “e” para incluir pessoas não-binárias. Os projetos de lei propostos no Distrito Federal que buscam vetar o uso da comunicação não-binária em escolas públicas e particulares e em concursos públicos denotam esse tipo de resistência.

“Hoje, a gente fala o português de diversas formas. A língua é viva”, começa Diego, que acrescenta que o exercício de se pensar a comunicação é também de esforço e empatia. “Por exemplo: para aceitar o ‘todes’, é preciso estar aberto ao entendimento da transição de gênero, de saber o que é uma pessoa não-binária, ouvir a palavra ‘traveco’ e entender essa dor”, afirma.

“Nós não queremos estipular ou ditar o que as pessoas precisam falar a partir de agora. Só estamos dizendo que existem muitas pessoas que morrem por causa disso, que se sentem anuladas e silenciadas. As pessoas dizem que é ‘mimimi’ porque elas não têm necessidade disso por terem privilégios. A grande maioria reverbera o preconceito por serem resistentes às mudanças. Abrir a mente e os ouvidos para aprender nunca é demais. É um exercício para viver melhor porque o coletivo só tem a ganhar”, finaliza.

Convite à academia e especialistas

Por se tratar de um dicionário colaborativo, qualquer pessoa pode sugerir verbetes ou até mesmo questionar os significados que constam no dicionário. “Estamos à disposição para receber a visão de um historiador, por exemplo, que se debruçou muito tempo em cima de um termo e sabe a etimologia daquela palavra, sabe a história verdadeira do que não está no dicionário”, aponta Diego.

Para colaborar com o Dicionário da Cidadania, basta a pessoa interessada fazer um cadastro e fazer a sugestão, que será passada por uma avaliação de administradores. Então, o procedimento comum é que a equipe entre em contato com a pessoa colaboradora, faça uma apuração do significado recebido com universidades e especialistas e, depois, aceite o termo sugerido.

É possível consultar ou contribuir com os verbetes do Dicionário da Cidadania pelo link dicionariodacidadania.org.br .

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** Camila Cetrone é formada em jornalismo. Desde 2020, é repórter do iG e tem experiência em coberturas sobre cultura, entretenimento, saúde, turismo, política, comportamento e diversidade; com ênfase em direitos das mulheres e LGBTQIA+, na qual está inserida como bissexual. É autora do livro-reportagem “Manda as Bicha Descer”, resultado da apuração de um ano na casa de acolhida LGBT Casa 1, no centro de São Paulo. Coleciona livros, vinis e estuda cinema nas horas vagas. Ama contar e ouvir histórias, cantar mal no karaokê e memes autodepreciativos (jura que faz terapia).

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