Catharina Fischer criou a Sapadaria dentro de casa em 2020
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Catharina Fischer criou a Sapadaria dentro de casa em 2020

A pandemia do coronavírus pegou o mundo inteiro de surpresa, colocando vários planejamentos em pausa e demandando que as pessoas se reinventassem. Foi o que a chef de cozinha Catharina Fischer decidiu fazer ao largar a carreira em restaurantes para criar a Sapadaria, uma padaria artesanal que trabalha com fermentação natural. Além do cardápio, Catharina conseguiu acrescentar ao negócio sua identidade como mulher lésbica, o que se tornou um diferencial importante.

Quando a primeira onda da pandemia estourou no Brasil, ela trabalhava como subchef em um restaurante em São Paulo, que optou por afastar todas as funcionárias por dois meses. Em casa com sua ex-namorada, as duas começaram a passar boa parte do tempo cozinhando. “O prazer em cozinhar gritava mais alto que a obrigação”, conta Catharina ao iG Queer.

Para mostrar o resultado, Catharina começou a postar fotos de suas criações nas redes sociais, o que chamou a atenção de familiares e amigos. As primeiras encomendas começaram a surgir no feed pessoal, até que a demanda cresceu e a chef viu a necessidade de abrir uma nova conta no Instagram para direcionar as fotos e os pedidos. Foi assim que o conceito da Sapadaria, uma junção das palavras “sapatão” e “padaria”, se consolidou.

O portfólio logo se estendeu e logo as fornadas de pães se dividiram entre bolos, focaccias, brownies e até chocotones. A clientela rapidamente passou a abranger amigos de amigos. A chef conta que chegou a mandar alguns itens para amigas influenciadoras digitais, o que ampliou ainda mais a visibilidade do negócio. “Quando fizemos a página, abrangeu um público desconhecido”, conta Catharina.

Naquele primeiro momento, todas as atividades eram feitas na própria casa dela. Até que, em novembro, Catharina sofreu um acidente que a deixou afastada por mais de três meses; nesse meio tempo, a ex-namorada da chef decidiu sair da operação. “Achei que a padaria não sobreviveria. Foi o momento que tive para reestruturar o negócio de forma mais profissional”.

Apoio ao empreendedorismo lésbico

Catharina fazendo massa
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"O respeito não é direcionado apenas às pessoas, mas também aos ingredientes e ao empreendedorismo feminino e LGBTQIA+", diz Catharina Fischer

Depois do acidente, Catharina teve ajuda de várias amigas para criar a identidade da Sapadaria, desde o cardápio e o logotipo até a divulgação. Para ela, todo apoio marcou um novo momento da padaria, mas também criou um novo momento para o estabelecimento virtual.

“Chegou um momento em que a maioria dos clientes eram desconhecidos e queriam não apenas conhecer o produto, mas apoiar o pequeno negócio de uma mulher lésbica”, lembra. Então, além de fazer dinheiro e levar alimentos de qualidade para outras pessoas, a Sapadaria se tornou uma forma de escancarar as experiências de Catharina.

Esse ato, para ela, se tornou um ato político. Isso porque a chef já sofreu preconceito por ser uma mulher lésbica na cozinha até mesmo dentro da faculdade. “Hoje encaro que a maneira que eu me coloco no mundo torna inevitável que não me entendam de outra forma. Na marca da minha empresa, considero muito importante que seja dito e exposto de maneira evidente que sou uma mulher lésbica”, pontua.

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“Cozinhar profissionalmente foi glamourizado por conta de programas de televisão”, opina Catharina. Além do ambiente hostil e hierárquico, a chef sente que, como mulher e lésbica, é preciso impor respeito o tempo todo para conseguir trabalhar. “É um ambiente ainda muito masculino, onde olham para mulheres e pensam que não somos capazes de fazer as mesmas coisas tão bem ou na mesma velocidade”, afirma.

Essa identificação não apenas consolidou sua cartela de clientes com o desejo de apoiar, que estão com Catharina até hoje, como transformou o conceito do que vende. O carinho, o profissionalismo e o respeito se tornaram a base da Sapadaria. “O respeito não é direcionado apenas às pessoas, seja elas quem forem, mas também aos ingredientes e ao empreendedorismo feminino e LGBTQIA+”, reflete.

Rede de apoio e planos para o futuro

A realização para ela é um sentimento evidente. Ao se recordar da época em que trabalhava como chef em restaurantes renomados no Brasil e fora do país, fala da rotina estressante e cansativa. “São escalas de trabalho em que você mal consegue ter tempo livre para ter qualidade de vida ou tempo com a família e amigos”, conta. Isso foi algo que mudou de forma definitiva depois que Catharina abriu a Sapadaria.

Primeiro, a produção de pães era diária, o que fez com que a chef começasse a se cobrar de forma excessiva. “Tive que lidar sozinha ou com minha ex com meus estresses e frustrações”. Ela passou a operar de forma diferente para priorizar a saúde mental e a qualidade dos produtos. “Consegui encontrar dois dias da semana com mais pedidos e meus clientes respeitam e se adaptam ao meu processo”.

O negócio de Catharina passou a integrar uma rede de outros pequenos empreendedores, que se apoiam e fazem parcerias capazes de fortalecer os negócios. “Acredito que dividir o espaço que consegui conquistar com outros pequenos empreendedores seja uma ação multiplicadora de oportunidades”, diz.

Atualmente, Catharina produz os pães na cozinha de um amigo, que acabou se tornando um parceiro do negócio. As vendas e encomendas continuam sendo realizadas pela internet, por meio do Instagram.

Com mais visibilidade, além dos produtos recorrentes, a chef tem organizado o cardápio de coffee breaks de empresas e passou a fornecer pães e doces para cafés e restaurantes. A ideia para 2022 é fazer com que as vendas alcancem ainda eventos corporativos, com foco em empresas que tenham como intuito a inclusão de pessoas LGBTQIA+. “Também quero investir em novos itens no cardápio para, quem sabe um dia, abrirmos uma loja física da Sapadaria”, diz.

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