Beijo entre Renatinha (Juliana Alves) e Catatau (Bernardo de Assis) no capítulo de 'Salve-se Quem Puder' desta quarta (14)
Reprodução/TV Globo
Beijo entre Renatinha (Juliana Alves) e Catatau (Bernardo de Assis) no capítulo de 'Salve-se Quem Puder' desta quarta (14)











“Ainda estou tentando entender o tamanho da minha felicidade”, resume Bernardo de Assis ao assistir a repercussão da cena do beijo entre Renatinha (Juliana Alves) e seu personagem, o estagiário Catatau na novela das 7, "Salve-se Quem Puder". A cena foi exibida nesta quarta-feira (14) e foi a primeira vez que um homem trans e uma mulher cis se beijaram em TV aberta e horário nobre.

Aos 26 anos e em seu primeiro papel em uma novela, o ator imaginava que a cena teria uma certa repercussão nas redes sociais, mas confessa que ficou surpreso com a reação do público. “Não esperava receber tanto carinho e saber que tantas pessoas se sentiram representadas, não apenas trans, mas LGBTQIA+ de maneira geral”, explica em entrevista exclusiva ao iG Queer.

Quanto à importância da representatividade trans na televisão, Bernardo diz que, mais do que um ato de amor, essa cena foi um ato de resistência e uma resposta à transfobia.

“Os homens trans e as pessoas transmasculinas passam por um processo de invisibilização muito forte”, ressalta. Ele pontuou ainda que a sociedade em que estamos inseridos, misógina e falocêntrica, o desafia a se amar mesmo quando o mundo ao redor diz que ele não pode fazê-lo, ou só poderá caso atinja um patamar de masculinidade que nem os homens cis conseguem alcançar.

 “Acredito que o maior obstáculo que eu passei e continuo passando é provar que eu e o meu corpo somos suficientes, que eu me amo e que as pessoas podem me amar do jeito que eu sou”, expõe. 

Ao ser questionado sobre o que a cena do beijo significa para as vivências trans, Bernardo diz que foi uma forma de representar pessoas transgênero fora do contexto em que normalmente são expostas.

“Estamos muito acostumados a ver pessoas trans em situações de violência e dor, nunca em momentos de afeto, muito menos um beijo”, esclarece. Ainda que a sua presença na novela seja uma esperança de dias melhores para a comunidade trans, principalmente se tratando de representatividade, Bernardo reforça que a luta continua ativa e a população trans ainda é marginalizada. 

Bernardo de Assis
Reprodução/Instagram
Bernardo de Assis

“Os nossos direitos, acessos, pautas e discussões políticas sempre foram deixados de lado. Quantas cenas serão necessárias para que episódios transfóbicos deixem de acontecer?”, questiona. 

Enquanto ator e membro da comunidade LGBT, Bernardo carrega a responsabilidade de levar a voz de muitas pessoas trans até locais que a maioria infelizmente não consegue ocupar. Ele alega que carrega tal responsabilidade com muita honra e acrescenta que não acredita no artista que não exerça um papel político, principalmente em pleno 2021. A interação que está tendo com o público é bem dinâmica, especialmente com jovens trans, entre seus 15 e 16 anos. 

“Fico pensando que, se na minha adolescência eu tivesse tido esse contato, as coisas poderiam ter sido mais leves e eu poderia ter me entendido mais cedo. Não só o meu corpo é possível, mas estou tornando outros corpos possíveis também”, conta. 

Ao ser questionado sobre as suas perspectivas para o futuro de pessoas trans na mídia, Bernardo diz que sonha com uma sociedade justa, diversa e equitativa, mas sabe que ela não vai acontecer agora. Ele explica que o fato de ser trans chega antes do fato de ser artista. 

“Quando você entende o seu lugar (como artista), nada te para. Para pessoas trans que almejam um lugar sob os holofotes da TV e do cinema, existem três palavras firmes e carregadas de esperança: 'Vá em frente'”, pontua.

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