Tiago e Paulo com os filhos Davi e Sara
Reprodução Instagram @familiapessoatardivo
Tiago e Paulo com os filhos Davi e Sara


As famílias formadas por  casais homoafetivos existem e fazem questão de mostrar como vivem, já que passam por situações que famílias consideradas tradicionais não experimentam: o preconceito, a formação dos elos familiares, os desafios e as alegrias quando os filhos finalmente chegam .

No caso de adoção , muitas  mães e pais LGBTQIA+ relatam viver um processo semelhante à gestação, tanto pela espera quanto pelo preparo da casa e do psicológico para as mudanças que vão acontecer. E ainda que a adoção seja um ato de amor, é preciso lembrar que ele nem sempre acontece como em um passe de mágica.

O iG Queer traz a história do casal Tiago Pessoa (40), ator e produtor cultural, e Paulo Tardivo (37), ator e culinarista, pais do Davi (2) e da Sara (7) desde abril de 2019. Eles partilham o dia a dia nas redes socias para desromantizar a adoção e a parentalidade, e contam esta história em detalhes.

Como tudo começou

O casal está junto há dez anos e se conheceram por um amigo em comum, que sugeriu que os dois morassem juntos em São Paulo, já que Tiago é baiano, mas morava há um tempo no Rio de Janeiro, e Paulo é do Paraná. Depois de trocarem mensagens on-line, eles só se conheceram de fato um ano depois, em um domingo de Carnaval em 2011.

"Eu estava na fila do caixa da balada para ir embora e vi um cara muito gato, mas meu amigo falou: 'Ele é bonito mesmo, se acha'. Eu pensei em ir lá e mostrar o que o baiano tem. A gente ficou e nunca mais se separou", conta Tiago. Os dois descobriram que já se conheciam uma semana depois, ao comparar as fotos do Facebook com o MSN. Depois de 15 dias, eles já estavam namorando e, aos seis meses, finalmente foram morar juntos.

Apesar do sonho da paternidade existir para os dois, eles conversaram muito sobre o assunto e todas as vezes a adoção sempre foi a única opção considerada. "O fato de não poder ter filhos de uma forma natural, no sentido de um dos dois engravidar, já serve como incentivo para este tipo de atitude. Acredito que somos gays por uma consciência divina, para trabalhar o amor do outro e também creio nas condições naturais que não nos permite gerar um filho", explica Paulo.

O empurrãozinho para passar pelo processo burocrático veio após uma viagem para Salvador, quando eles encontraram uma prima do Tiago que é juíza e ela questionou se os dois consideravam a adoção. "A gente sabe que existem muitas crianças e adolescentes em abrigos, mas o que nos chocou mesmo foi saber o número de crianças devolvidas depois de todo o processo", lembra Tiago.

O processo de adoção

Ao retornar para São Paulo, o casal conversou novamente e, em janeiro de 2017, decidiu inicar o processo de habilitação para adoção. 

Tiago e Paulo lembram que a parte das avaliações e reuniões foram relativamente tranquilas em comparação à espera que vem depois. "Eu adorei fazer o processo, pois senti como se fosse algo de autoconhecimento", recorda Tiago. "Eles te contam tudo de bom e de ruim que pode acontecer, exatamente para você se preparar ao máximo para qualquer situação", complementa Paulo.

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Conhecendo os filhos

Em novembro de 2018, o casal que havia feito cadastro nacional - ou seja, a criança pode ser de qualquer lugar do Brasil - para uma criança foi chamado para conhecer o filho. Depois de um voo de São Paulo para Fortaleza e mais três horas de viagem pelo interior do Ceará, Tiago e Paulo descobriram que Davi tinha uma irmã. 

"Naquela hora, nós começamos a recalcular todos os planos de gastos que tínhamos previsto inicialmente. Escola, fralda, comida, roupa... porque na nossa cabeça não tinha condição nenhuma da gente separar eles. Colocamos mais água no feijão e decidimos adotar os dois", lembra Paulo.

Foi assim que eles passaram um mês no interior do Ceará, convivendo com os filhos por 12 horas, todos os dias. Essa é uma etapa importante do processo, inclusive para a criação do vínculo e construção do amor. "Não foi romantizado porque o amor não bateu de cara e isso é algo que explicam para a gente nos cursos da habilitação. Mas, ao mesmo tempo, vira uma chave em você de que você já é pai", comenta Tiago.

"A gente brincava o dia inteiro: passa anel, morto-vivo, rolar no chão, aprender as músicas do Patati Patatá e, no dia seguinte, era tudo de novo. E como na adoção o cenário de não ter um filho para ter muda de uma hora para outra, quando nós fomos para lá, a gente não tinha nada nem para um filho, imagina dois", recorda Paulo.

O culinarista também lembra quando voltaram da temporada no interior do Ceará, ainda com o futuro incerto sobre a adoção, já que faltavam as audiências. "Nós ligamos para todos os amigos pedindo fralda, roupinha e organizando as coisas com o pé no freio por medo de não dar certo".

Depois de três audiências, em abril de 2019, Sara e Davi voaram para a nova casa junto dos pais. "Ter filhos muda tudo. Costumo dizer que a minha vida mudou 200%. A Sara tem sete, o Davi tem dois anos e dez meses. Minha relação com o Paulo mudou, as prioridades mudaram. Ser pai e ser mãe também é um dom. Tem que querer muito porque tudo muda. Eu me vejo diariamente realizando um sonho. Adoção não é caridade, mas é um ato de amor grandioso", fala Tiago.

"A adoção ainda tem muitos estigmas, mas é um ato muito lindo e transformador. A gente entende que o amor é algo genuíno e vê que é possível sim amar pessoas que não têm o mesmo sangue que a gente", conclui Paulo. 

A Família Pessoa Tardivo divide de forma bem-humorada o seu dia a dia e dilemas da parentalidade nas redes sociais, especialmente Instagram e TikTok,

Quero adotar. E agora?

Para quem deseja passar pelo processo de adoção, Marília Golfieri Angella, especialista em direito de família, gênero e infância e juventude, explica que a pessoa ou o casal deve iniciar o processo judicial de adoção se inscrevendo no Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento, por meio da entrega de documentos na Vara da Infância, da Família ou o Fórum mais próximo da residência. "O desejo da adoção será obrigatoriamente avaliado por profissionais técnicos, tal como assistentes sociais e psicólogos", informa Marília.

A especialista ressalta que o processo é exatamente o mesmo para pessoas solteiras ou casais héteros, mas caso a pessoa passe por alguma situação de preconceito por ser LGBTQIA+, ela pode entrar com ação judicial pela violação à igualdade, sob pena de infringir as normativas constitucionais no combate à homofobia, transfobia ou qualquer modo de preconceito contra a população LBGTQIA+. 

"Por fim, ressalte-se que há, atualmente, quase 5 mil crianças e adolescentes disponíveis para adoção no Brasil e em torno de 33 mil pretendentes habilitados no sistema nacional. Um dos motivos dessa conta não fechar é justamente o perfil escolhido pelos habilitados, que possuem preferência por crianças mais novas. Isso não é dizer que o processo de adoção tardia é mais rápido que os demais, pois as fases são exatamente as mesmas. O que acontece é que a fila acaba andando mais rápido aos pretendentes que possuem um perfil mais amplo como a aceitação por filhos adolescentes, além de outras questões como grupos de irmãos, crianças com deficiência ou portadores de alguma doença crônica, etc.

Ela ainda explica que o mesmo vale para crianças e adolescentes LGBTQIA+, que muitas vezes não possuem a chance de serem adotados em razão do preconceito estrutural que há na sociedade, especialmente para crianças trans. 

"Essas sofrem preconceito, muitas vezes, dentro dos próprios abrigos, por funcionários e por outros menores que com elas convivam", afirma a especialista.

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