Gilberto foi destaque no Big Brother Brasil
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Gilberto foi destaque no Big Brother Brasil


Último eliminado do Big Brother Brasil 21 , Gilberto Nogueira, ou Gil do Vigor, para muitos foi icônico no reality. A trajetória de vida como LGBT e a superação social transformou o economista de 29 anos no grande protagonista em boa parte da edição . Mas alguns LGBTs não gostaram de algumas atitudes do participante, dizendo que ele sairia do programa com o estigma de "bicha promíscua". 


Para outros, Gilberto foi símbolo para LGBTs e pessoas que estão em igrejas e que não se entendem como LGBT. Gil, mesmo religioso, aprendeu que não é melhor nem pior que ninguém por ser gay.


Mas por que Gil do Vigor incomoda tanto algumas pessoas? Especialistas conversaram com o iG Queer para explicar que o jeito de Gilberto não deve ser repreendido e sim celebrado. 

Para Ali Prado, filósofo e pesquisador em temáticas de gênero, corpo e tecnologia, o jeito de Gil é parte da personalidade dele. "Pela mesma razão de João Luiz ser reservado ou de Sarah ser analítica: a personalidade. Gil é alguém que cresceu em um ambiente extremamente normativo e controlado e, agora, teve a oportunidade de viver no programa o que sempre sonhou", afirma. 

Levi Kaique Ferreira, palestrante e colunista do site Mundo Negro, acredita também que Gil teve as atitudes por conta das limitações que sofreu na vida. "Acredito que tenha a ver com o fato dele ter sido contido e limitado a vida toda e agora ele é quem ele realmente gostaria de ser da forma mais autêntica possível. Ele é só ele", diz. 

Para o apresentador do "Trace Trends", programa da Trace Brasil, multiplataforma de cultura afrourbana, e artista social Alberto Pereira Jr., Gil foi o protagonista que não se armou e se soltou conforme o jogo seguia. "Ele foi se soltando cada vez mais, deixando a sexualidade e a afetividade dele exposta, contando um pouco da trajetória de dores, dúvidas e mudanças de pensamento sobre ele próprio", afirma. 

Sobre a acusação de Gil ser uma 'bicha promíscua', Alberto diz que ele não trouxe nenhum estigma do tipo no programa. "Tirando o beijo com Lucas, os outros relacionamentos que Gil teve no programa foram platônicos e de brincadeira. Ele desenvolveu a amizade com Arthur e Fiuk e brincava nesse sentido de sonho de consumo e paquera, mas acho que não tem nada de promíscuo nisso", diz. 

Ele acredita que o que Gil apresentou foi pouco para o "Big Brother Brasil". "Acho que a gente precisa muito que realities mostrem relacionamentos LGBTQIA+ acontecendo em sua plenitude, isso não aconteceu porque não tivemos tempo para isso", diz, em referência à saída precoce de Lucas Penteado, que pediu para sair na festa em que beijou Gilberto. 

Ali pensa que acusar Gil de ser uma "bicha promíscua" é prejudicial para a comunidade LGBT. "É muito mais prejudicial que as pessoas LGBTs adotem o discurso conservador da heteronorma e julguem pessoas por seus comportamentos que são livres ou que diferem daquilo que é esperado pelo regime político do patriarcalismo - nem todo mundo deseja se casar e ter filhos", diz. 

Para Ali, o problema maior é que as expectativas normativas são compulsória e marginalizam os que são dissidentes. "É como se estivéssemos repetindo o conto bíblico de Maria Madalena que foi uma trabalhadora sexual apedrejada", afirma. 

Levi aponta que o preconceito internalizado na sociedade faz com que LGBTs reproduzam o discurso conservador. "Ele [Gil] é essa pessoa e ele está feliz assim, reduzir grupos e retirar suas individualidades é o erro, não acho nem um pouco coerente culpar a vítima por estigmas pelas violências que ela sofre. Ele é vítima de estigmas criados pela sociedade homofóbica e não o contrário", diz. 

"Acho que alguns LGBTs dizem que Gil não os representa, também cometem preconceito porque estão considerando Gil, uma bicha preta que tem um comportamento considerado 'afeminado' ou que foge da norma, mas quem ditou essas normas?", pergunta Alberto. Para ele, isso faz parte de preconceitos sociais que se deve lutar contra. "Os LGBTs que falam isso estão cometendo o mesmo crime do qual eles são alvos: LGBTfobia", aponta Alberto. 

Para Ali, falar que Gilberto é um desserviço para os LGBTs é reproduzir os valores de heteronormatividade. "É como se o 'homossexual ideal' fosse branco e rico, tenha jeito de 'macho', corpo musculoso, com status de casado no civil, e não seja de forma alguma afetado ou afeminado - e nesse sentido, apesar de ser um acadêmico (Gil é doutor em economia), ele é um indivíduo negro, afeminado e nordestino, logo ele se afasta do 'ideal'", diz. 

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No país que mais mata LGBTs, Gil representou

Gilberto na festa com tema arco-íris
Reprodução/TV Globo
Gilberto na festa com tema arco-íris


Por 100 dias, o Brasil viu Gilberto fazer cachorrada, brigar, falar sobre os relacionamentos e sobre a vida. Tê-lo no programa mostra como a diversidade é importante. 

"Por muito tempo, a televisão representou a gente apenas de uma maneira: o gay escada, que era ridicularizado por vestir de uma maneira, por fugir da norma e que não tinha uma história própria e sim servia para outras narrativas. Uma pessoa como o Gil mostra que temos luz, temos história e que podemos e devemos circular em todos os ambientes e que temos trajetória", diz Alberto. 

Para Ali, aparecer em um programa tão popular dá abertura para outros LGBTs. "É importante no sentido de que existe aí uma possibilidade de ocupação de uma plataforma pop e global, assistida por milhões de pessoas diariamente, por corpos e subjetividades diversas", afirma. 

Ver Gilberto fez com que o público quebrasse estigmas, segundo Levi. "O público precisa aprender a conhecer e respeitar essas pessoas e ter contato com elas, amar, torcer e odiar faz parte desse processo. Gil é humano e o BBB permite que as pessoas conheçam não só a sua expansividade e sexualidade, almas sua existência por completo", afirma. 

Gil foi protagonista do Big Brother Brasil 21

Gilberto, eleito o rei da cachorrada
Reprodução/Globo
Gilberto, eleito o rei da cachorrada


Para os três, a participação de Gil foi digna de um protagonista. "Foi uma participação perfeita e não há perfeição sem erros, sem interagir, sem brigas, sem discussões e sem assumir histórias que não são dele", diz Alberto.

"Isso é da vida, ninguém pode calcular tudo e viver essa vida presa, essa vida que agrada a todos, ele viveu mesmo e foi se descobrindo e entendendo que algumas coisas que ele viveu aqui fora foi gatilho para ele lá dentro. É a vida, a participação dele mostra que o BBB 21 não seria o mesmo sem o Gil do Vigor", comenta Alberto. 

Para Ali, Gil teve coragem de aparecer no maior reality do Brasil. "É bravíssimo que ele tenha se expressado como fez no jogo, especialmente porque o Brasil contemporâneo é o país que mais mata pessoas LGBTs no mundo todo", diz. 

Para Levi, a participação de Gil foi "fantástica". "Não só porque é um homem gay expansivo, mas porque ele realmente viveu o reality. Ele nasceu pro BBB, foi intenso da forma que o programa espera que alguém seja. Um dos melhores participantes da história do programa", diz. 

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