Hoje, Serginho trabalha como influenciador digital, nas suas redes sociais, e gerenciando um hotel fazenda, em Guararema (SP)
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Hoje, Serginho trabalha como influenciador digital, nas suas redes sociais, e gerenciando um hotel fazenda, em Guararema (SP)


"Sr. Orgastic": este era o apelido (ou nickname) pelo qual Sérgio Franceschini, hoje com 31 anos, era conhecido quando foi convidado por Boninho para entrar no Big Brother Brasil 10. Na época, ele era conhecido na extinta rede social Fotolog como o "rei dos emos", título que ele carregava com orgulho, pois representava uma massa de fãs de rock'n'roll melancólico, com franjas esticadas na lateral do rosto e olhos pintados de preto.

Antes mesmo de estrear no programa, o ex-brother se lembra com profunda tristeza que sofreu uma agressão física e ameaças de mortes por um grupo skinhead que discriminava e atacava pessoas com quem não se identificavam. Em entrevista ao Queer, ele conta pela primeira vez que tinha apenas 18 anos, estava no Bar Du Bocage, antigo “point” emo próximo à Rua da Consolação, em São Paulo, quando foi abordado pelo grupo rival.


“Tinham mais de 300 emos ali. Ficávamos tomando drinks e fumando cigarros. Chegaram uns skinheads e um deles veio até mim e perguntou se eu era o rei dos emos. Eu falei que não sabia se eu era o rei e ele perguntou se eu era o ‘Orgastic’. Quando disse que sim, ele me deu uma cabeçada”, lembra.

Sérgio conta que a agressão não feriu sua cabeça, mas o susto foi grande. Ele começou a chorar e entrou em uma lan house na mesma rua para se proteger. O grupo permaneceu do lado de fora fazendo ameaças.

"Tinha mais de 10 skinheads na porta gritando ‘senhor Orgastic tem de morrer’. Naquela época era poderoso bater em mim, no ícone dos emos do Brasil. Eles davam até dinheiro para quem batesse na gente. O preconceito era um absurdo. Eu chamei a polícia e saí escoltado. Foi o momento em que sofri o maior preconceito na minha vida”, relata.

Ele diz que nunca soube quem foi que o agrediu, não procurou saber porque tinha medo de "mexer com eles naquela época". Mesmo assim, Serginho afirma não guardar rancor e lamenta por ter sofrido tanto preconceito por causa de sua imagem.

“Eu fiquei com medo. Não sei o que eles podiam fazer. Já pensou se chegassem onde eu trabalhava e jogassem pedra em mim? O lugar mais alternativo que tinha era a Rua Augusta, mas eu jamais podia andar por lá porque tinham muitos punks e skinheads e todos sabiam quem eu era. Antes do BBB, eu ia na MTV sempre, fui na Adriane Galisteu, apareci na revista Capricho, fui capa do jornal Folha Teen, sempre como senhor Orgastic, rei dos alternativos. E, por isso, não podia sair na rua porque os skinheads queriam bater em mim. Hoje não existe mais isso. Era um absurdo o preconceito por ser emo.”

Serginho era conhecido entre a tribo dos emos pelo seu trabalho no Fotolog e atendia pelo apelido de “Sr. Orgastic” na internet
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Serginho era conhecido entre a tribo dos emos pelo seu trabalho no Fotolog e atendia pelo apelido de “Sr. Orgastic” na internet


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Fama

Antes de exigir Camarote no BBB, Serginho foi o primeiro influenciador a entrar programa junto com Tessália, que era conhecida no Twitter como Twittess . O ex-brother, que era conhecido apenas no universo alternativo, se tornou uma verdadeira celebridade e, dessa vez, ser perseguido não por agressores, mas por uma legião de fãs nas ruas ou em eventos.

“Eu sempre gostei muito da fama, de aparecer. Na época do Fotolog, eu já dava autografo, mas só para os emos e alternativos: uma minoria. Depois do BBB, tive uma abertura grandiosa, todas as senhorinhas, as crianças, os héteros, todos sabiam quem era eu, isso nunca me incomodou. Eu nasci para isso! Quanto mais melhor. Não entrei no programa para ganhar o prêmio, eu entrei para aparecer. Sempre deixei isso muito claro. Lógico que eu adoraria ganhar R$ 1,5 milhão, quem não quer dinheiro? Sem hipocrisia! Mas o meu objetivo não era esse. Eu fui passear e me encontrar”, assume.

“No início, eu não conseguia fazer nada. Qualquer lugar que eu frequentava, as pessoas sabiam quem eu era, seja em shopping, eventos e, até hoje, eu não consigo passar despercebido. Isso é legal porque reflete que eu sou uma pessoa querida, sem falsa modéstia, o que é algo muito bom para mim e meu trabalho, já que eu uso a minha imagem."

Assim que deixou a casa mais vigiada do Brasil, Serginho lembra que não conseguia ir a um shopping, por exemplo, com tranquilidade e que, quando saía de São Paulo, precisava ser acompanhado por seguranças.

“Algumas vezes fiquei assustado, ao descer de trios elétricos de Parada da Diversidade, quando milhares de pessoas me esperavam lá embaixo para falar comigo. Era necessário fazer um cordão de segurança, não por close, mas para minha integridade física porque as pessoas me puxavam. Já me pegaram pela roupa e cabelo porque queriam se aproximar”, diz.

Hoje, morando no Morumbi, em São Paulo, onde sempre viveu, Serginho continua trabalhando como influenciador digital, mas no Instagram, Twitter e demais redes sociais atuais.

Antes da pandemia da Covid-19, ele costumava fazer muita “presença vip” em eventos por todo o Brasil, que o contratavam para estar presente. Por causa do isolamento social imposto frente ao novo coronavírus, esse tipo de trabalho não vem mais acontecendo, mas ele afirma que continua trabalhando muito: “Estou fazendo muitas propagandas no Instagram para marcas grandes”.



Somente nos últimos posts do Instagram, Serginho aparece fazendo propaganda para marcas de roupas, perucas, lente de contato e até de cervejas. Além do trabalho com as redes sociais, Sérgio mantém um lado empresarial, no qual administra um hotel fazenda que tem em Guararema, também no estado de São Paulo.

“Por incrível que pareça, eu estou trabalhando mais ainda na pandemia, em relação a marcas, publi, pelo Instagram. Meio que cobriu a parte do presencial, porque eu viajava bastante. Estou me readequando a este momento, está rolando bem, em relação a minha imagem. Já o hotel, às vezes não pode abrir totalmente”, conta Serginho.

Apesar da fama e do carinho que está sempre recebendo dos fãs pessoalmente, ele conta que nem sempre é assim na internet, que muitas vezes aparece alguém com comentários homofóbicos ou julgando sua aparência.

“Pessoalmente, não tem nenhum tipo de homofobia, porque eu me imponho muito, o meu jeito, o olhar, acho que isso assusta, de certa forma. Mas na internet, pelo Instagram, várias vezes recebo comentários preconceituosos. Me chamam de aberração, mandam virar homem, algumas pessoas falam para eu procurar Deus. Recebo mensagens de preconceito até de gays porque eu tenho um visual andrógino. Acho ridículo isso! A internet é terra de ninguém, todo mundo é machão para falar o que quiser”, afirma.

Serginho e Marimoon
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Serginho e Marimoon



Identidade de gênero

Há três anos, Serginho conta que começou a se identificar como uma pessoa de gênero não-binário. “Não me identifico como um garoto e nem como uma garota”. Por se vestir de maneira andrógina e ter cabelo grande, ele diz que muitas pessoas o abordam na rua sobre sua identidade, se virou uma mulher trans ou travesti.

“Eu gosto do visual andrógino e nunca quis mudar meu corpo ou minha voz, colocar peito, nada disso. Comecei a perceber que eu não me sentia totalmente um homem, mas também não me sentia totalmente uma mulher e vi que não era só um estilo, um jeito de se vestir. Era mais que isso”, declara.

Serginho deixa claro que não se importa se o tratam com pronomes e artigos masculinos ou femininos, mas, mesmo assim, faz questão de dizer como se identifica. “O meu gênero é não-binário. Não me importo se me chamam de ele ou ela, qual o artigo ou o pronome que usam para falar comigo. Adoro quem me chama de Sérgio, adoro o meu nome”, pontua.

Há três anos, Serginho se identifica como uma pessoa não-binária: nem homem e nem mulher
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Há três anos, Serginho se identifica como uma pessoa não-binária: nem homem e nem mulher



Big Brother Brasil 21
De acordo com Serginho, a edição de 2021 do Big Brother Brasil – com cinco participantes declaradamente homo e bissexuais, além do sexto, Lucas Penteado, que se assumiu recentemente, dentro da casa – é uma resposta do diretor do programa, Boninho, ao público, que, ano a ano, pede a participação de LGBTQIA+ no reality show.

“Não sei se é a mesma fórmula do BBB10, mas o Boninho vê todos os anos as pessoas pedindo BBB LGBT. 10 anos depois da minha edição, quem afeminadinho, afetado, passou por lá? Teve o Daniel do coqueiro (BBB11), o Mahmoud Baydoun (BBB18) e tal, mas fazia tempo que não tinha um gay assim, divertida. Achei que o Gilberto está bem nesta edição e isso é legal. A casa precisava disso.”

Além de Gilberto, Serginho diz estar torcendo para sua amiga pessoal, a Pocah, e também pelo Projota. “Quando eu soube que ela [Pocah] estava lá comecei a torcer por ela. Só que, até agora, eu não vi ainda o jogo dela. Acho que está muito no começo, ela deve estar pensando. Eu torço por ela, pelo Projota e pelo Gilberto”.

Já sobre a continuação do “camarote”, que foi um sucesso na edição do ano passado, ele acha que não está funcionando muito bem desta vez. “Bombou muito em 2020 com isso, mas eu achei que a edição atual está fraca, não tá legal, acho que está muito pesada. Tem muito ‘bafo’ [confusão] da Karol Conká, Lumena, o Fiuk. Não parece um começo de programa saudável. Eu não gostaria de estar nesta edição do programa. Deus que me livre! Se me convidassem para entrar agora, eu não iria”, finaliza o influencer.

Mesmo assim, em uma hipótese, se a edição de 2010 acontecesse neste ano, Serginho diz que mudaria algumas atitudes, mas sem perder a essência dele.

“Eu acho que eu gritaria mais com o Dourado [vencedor de 2010 e acusado de homofobia pelos participantes]. Eu cheguei a discutir com ele pela atitude que ele teve na mesa: a gente estava conversando, falando de uma balada gay, e ele simplesmente jogou o prato no lixo e disse que perdeu o apetite. Depois ele veio conversar comigo e me pedir desculpas. Hoje, com a idade que eu tenho e mais maturidade, eu faria um escândalo. Jamais iria xingar ele. Eu o colocaria no lugar dele. Com tudo o que mudou de lá para cá, em relação ao preconceito, o Dourado não ganharia o Big Brother se fosse em 2021”, acredita.

Para ele, que recebe o carinho de muitos fãs até hoje, mesmo 11 anos depois que foi “eliminado” do programa, o mais importante não foi o prêmio que deixou de ganhar, mas o amor que passou a receber diariamente. “Eu sirvo de inspiração, até hoje, para muitos gays que querem sair do armário. Eu também recebo muitas mensagens de pais, que dizem que aceitam os filhos por minha causa”, afirma ele, ao dizer que sua mensagem sempre será a de que as pessoas se descubram, se aceitem, independente do visual e da sexualidade.

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