Jorge Lafond (1952-2003) morreu cedo demais. Mas, antes, colocou uma travesti dentro dos lares tradicionais das famílias brasileiras, pela TV aberta, com uma das personagens mais icônicas dos anos 90: Vera Verão. Altíssima e nada discreta, Vera armava barracos no humorístico “A Praça é Nossa”, do SBT. O bordão, que começava invariavelmente com um berro, é, muito provavelmente, bem familiar para quem nasceu antes dos anos 2000: “ Êeepa! Bicha, não! Eu sou uma quase mulher ”. Às vezes, "mulher" era substituído por nomes de divas -- como Sophia Loren -- ou algum outro que tivesse a ver com a cena e botasse a plateria para rir.   

O ator, cujo nome real era Jorge Luiz Souza Lima, nasceu em um lar humilde, era bailarino, fez shows pelo mundo e afirmou ter tido um problema com o Padre Marcelo Rossi: Lafond teria sido convidado a se retirar do palco antes da entrada do religioso em um programa de TV. " Eu vou vestir uma roupinha, vou até o Vaticano e vou fazer uma denúncia. Se eu tivesse uma garrafa de cachaça, o batisava ", disse Lafond sobre episódio, em sua última entrevista, antes da morte.

Interpretada por Jorge Lafond , a travesti Vera Verão foi um dos grandes marcos da história  LGBTQIA+  na televisão. Atrás do sucesso da personagem, porém, existia um homem, dono de uma vida íntima "babadeira"  -- Jorge vivia ameaçando tirar famosos do armário -- e uma carreira pouco conhecida, antes de sua personagem mais famosa. O iG Queer resolveu iniciar com Jorge uma série de reportagens para contar a história de grandes personalidades LGBTQIA+.  

Muito antes de Vera Verão

Jorge Lafond
Arquivo pessoal
Jorge Lafond

Nascido no subúrbio do Rio de Janeiro, em Laranjeiras, Jorge cresceu na Penha. Filho de um encanador e uma telefonista, foi criado só pela mãe, Diamantina Nogueira Lima. Entre 9 e 10 anos, começou a trabalhar em uma oficina mecânica para ajudar em casa.

Na mesma época, ele começou a frequentar aulas de balé e dança africana. “Ele era um exímio bailarino, perfeccionista, a gente ensaiava muito. Ele me ensinava um estilo de dança afro, então imagina aquele homem negro dançando… Era tudo de bom”, lembrou Rita Cadillac, em entrevista à Record, em 2016.

A vocação para a dança era tanta que Jorge chegou a trabalhar com Mercedes Baptista (1921-2014), a primeira bailarina negra a se apresentar no Theatro Municipal do Rio. Antes da maioridade, Jorge já se dividia entre a escola, aulas de dança e apresentações na noite carioca.

Lafond — que adotou o nome em homenagem à atriz Monique Lafond — chegou a trabalhar em muitas casas noturnas do Rio de Janeiro, desde a Praça Mauá até Copacabana, abria os shows da meia-noite na boate Flórida, boate Escandinávia, boate Barbarella e terminava a noite na boate Kiss, no bairro Irajá.

Em 1969, aos 17 anos, a carreira internacional como bailarino começou a despontar. Jorge viajou pela Europa e pelos Estados Unidos com Haroldo Costa, produtor cultural que tinha um grupo de dança — no qual Jorge foi membro por dez anos.

A vida na TV e no cinema

De volta ao ao Brasil, em 1974, Jorge começou a ganhar destaque na televisão. Seu primeiro trabalho nas telinhas foi como dançarino do “Fantástico”, da TV Globo — o que o motivou a estudar teatro. Formou-se em artes cênicas pela Universidade do Rio de Janeiro e, mais tarde, trabalhou no programa “Viva o Gordo” (1981), de Jô Soares, participou do infantil “Plunct, Plact Zummm” (1983) e interpretou Bob Bacall na novela “Sassaricando” (1987).

Em 1990, Jorge Lafond foi convidado a realizar o trabalho que o tornaria mais conhecido: em participação em “Os Trapalhões”, já sem Zacarias, ele interpretou o soldado Divino, um primo de Mussum que voltou “diferente” do exterior. Pouco tempo depois, em 1991, Jorge recebeu o convite para integrar “A Praça é Nossa”.

Ele estava fazendo ‘Os Trapalhões’ e fez um personagem muito engraçado. Então pensei em trazê-lo para fazer aquela travesti da praça, que briga com todo mundo, que puxa a gilete da boca, que puxa cabelo de mulher... E deu certo. A gente gravava o programa e, quando ele entrava, era um delírio ”, disse Carlos Alberto de Nóbrega, em entrevista ao programa de Elke Maravilha, em 1993, no SBT.

Bicha, não! Nasce Vera Verão, a "quase mulher"

Vera Verão
Reprodução Twitter
Vera Verão

Criada por Charles Albert, apelido carinhoso de Vera para Carlos Alberto de Nóbrega, e batizada por Jorge Lafond, a travesti, que se apresentava como “quase mulher”, foi um fenômeno. A personagem do humorístico “A Praça é Nossa” contracenou com muita gente famosa da época: a modelo Roberta Close, o cantor Daniel e a dançarina Scheila Carvalho.

A parceria com a emissora de Silvio Santos durou dois anos. Após o fim do contrato, que terminou em comum acordo, Lafond continuou arrastando fãs por onde passava. “O Sassarico da Nega”, peça de teatro com a qual o ator viajou o Brasil, ficou por dois anos em cartaz.

“Viajei muito pelo Brasil com o ‘Sassarico da Nega’. Perguntava para a bilheteira: e aí, como está a casa? A moça, então, respondia: ‘Lafond, a casa hoje está lotada! Só tem viado! Quase três mil lugares! Você tira uns 115, o resto é tudo viado!’”, relatou Lafond, em entrevista à revista Casseta&Planeta, em 1993.

Além de Vera Verão, Lafond atuou no cinema e na televisão, participando de obras como o filme “Rio da Babilônia”, a novela “Kananga do Japão”, a série “Meu Cunhado”, o filme “Sonhei com Você”, o longa “Rock Estrela”, entre outros projetos audiovisuais.

A sexualidade

Jorge Lafond posa para foto em camarim
Reprodução
Jorge Lafond posa para foto em camarim

Desde os seis anos de idade, Jorge Lafond sabia que era homossexual. Em uma entrevista à revista “Raça", em 2000, ele disse: “As pessoas falavam que ser gay era uma coisa muito feia, e eu ficava com a cabeça tontinha. Mas o medo da minha mãe descobrir era tão grande que eu procurava andar na linha e estudar bastante.”

Por muito tempo, o ator, nem de brincadeira, pensava em colocar um vestido. “Nada de usar roupas femininas da mamãe ou desmunhecar, mesmo na infância. Quando brincava, procurava atividades que não iriam me expor”, contou o ele em entrevista a Elke Maravilha, em 1993.

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Para Jorge, Clodovil foi uma das figuras que o ajudaram a aceitar e a entender a própria sexualidade na infância. "O Clodovil fez a cabeça da minha mãe lá em casa. Eu fazia ela sentar na sala para ver que a bicha, o veado de que tanto falavam, não era aquela coisa... Que poderia transmitir uma grande verdade", disse.

Em 2000, Lafond já definia a si mesmo como "um negro, homossexual, pobre, que veio do subúrbio do Rio de Janeiro, da Vila da Penha e que, graças a Deus, conseguiu esse estrelato”. “Para mim, a fama é uma coisa legal. Graças a ela, consegui realizar todos os objetivos que tinha na vida. Meu sonho era acordar e ouvir no noticiário o Cid Moreira dizer: ‘Descobrimos a vacina contra a Aids’”, disse ele, ao programa de Elke, em 1993.

A caixa de Lafond

Autobiografia de Jorge Lafond, sua própria Caixa de Pandora
Reprodução Twitter
Autobiografia de Jorge Lafond, sua própria Caixa de Pandora

Dentre todas as polêmicas envolvendo o ator, a sua vida íntima sempre foi uma fonte de fofocas. Em 1999, ele lançou sua autobiografia “Vera Verão: Bofes & Babados”. No livro, ela relata romances com famosos. Em diferentes entrevistas, Lafond ameaçou expor os nomes dos artistas, inclusive de um famoso jogador de futebol da Seleção Brasileira, com quem teria transado.

“Esse livro vai ter muito bochicho. O primeiro já aconteceu. Meu advogado me ligou essa semana dizendo que já temos o primeiro processo”, disse Lafond, sem revelar quem o processou, em entrevista à rádio do Shopping Bay Market, no Rio.

Anos após a morte de Jorge, Marcelo Padula (1962-2020), ex-empresário do ator, chegou a comentar a vida íntima do amigo. “Quanto diretor de TV, cantor, jogador, quanta gente eu não vi andando nua pela casa do Lafond de madrugada. Eu tenho até hoje um arquivo muito grande de fitas, pois o Lafond tinha esse vício de gravar as intimidades dele, coisas que ficaram comigo. Hoje, estão lá jogadas em uma caixa”, disse ele, em entrevista à Record, em 2016.

“Ele era um cara de muitos amores, não tinha um jogador apenas, tinha um que era o principal da história. Tinha vários. Isso não era um joguinho dele. Eu dizia para ele maneirar nas colocações [sobre expor os outros], mas ele não ligava”, completou Padula.

Em maio de 2020, um pouco mais de 20 anos depois do lançamento do livro, Alexandre Mortágua, filho do ex-jogador Edmundo com Cristina Mortágua, em postagem no Instagram, deu a entender que o pai era um dos atletas com quem Lafond teve um caso. Apesar das ameaças, o intérprete de Vera Verão nunca revelou o nome de seus amantes.

Nu em cima de um vulcão

Jorge Lafond desfila no Carnaval do Rio praticamente nu
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Jorge Lafond desfila no Carnaval do Rio praticamente nu

Fora do âmbito pessoal, a polêmica também era grande companheira do artista. Em 1990, ele desfilou praticamente nu, no Carnaval do Rio de Janeiro, pela Beija-Flor. O enredo da escola era “Todo Mundo Nasceu Nu”. Jorge apareceu na Sapucaí, e em cadeia nacional, apenas de tapa-sexo.

“Lafond chocou o país inteiro, teve uma repercussão mundial. Ele saiu nu, em cima de um vulcão, com um tapa-sexo. E essa atitude, de um homem aparecer no Carnaval pelado, é de deixar qualquer pessoa muito chocada”, lembrou Padula à Record.

Em 2001, Jorge foi convidado a participar de uma campanha de prevenção a doenças sexualmente transmissíveis pelo Ministério da Saúde. O convite criou atrito entre o ator e o GGB — Grupo de Gays Negros da Bahia — por associar a personagem Vera Verão à doença. A campanha não foi realizada.

Em 2002, seu último Carnaval, ele, um homem cisgênero, desfilou como Rainha de Bateria da escola de samba Unidos de São Lucas. 

No mesmo ano, Lafond foi convidado para participar do quadro “Homens x Mulheres” no programa “Domingo Legal”, do SBT. Caracterizado de Vera Verão, o ator integrava o time feminino da disputa e foi retirado do palco. O motivo teria sido um pedido do padre Marcelo Rossi, que se apresentaria em poucos minutos.

“Pediram para que eu fosse ao camarim e colocasse uma roupa de homem. Eu me dirigi até lá, mas não troquei porque eu só tinha roupa de mulher. Então esperei e, quando o padre saiu de cena, voltei. A única mágoa é de não ter mandando ele para aquele lugar”, disse Lafond, em sua última entrevista, à RedeTV. 

Morte prematura

No dia 17 de novembro de 2002, uma semana depois do episódio com padre Marcelo Rossi, Lafond foi internado em estado grave, com problemas cardíacos. Marcelo Padula, à época, disse que o suposto ataque do padre teria mrelação com os problemas de saúde de Jorge. "Ele não teve como reagir a esse ataque [o pedido do padre] e ficou cabisbaixo e pensativo a semana toda".

Jorge Lafond foi internado diversas vezes, depois disso. A última, em 28 de dezembro de 2002, quando seu problema de saúde se agravou com uma crise renal, que o levou à morte.



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