
Juiz de Fora, na Zona da Mata de Minas Gerais, foi palco de mais uma edição de um dos eventos mais tradicionais da comunidade LGBTQIA+ no Brasil. No último sábado (22), a cidade recebeu a 44ª edição do Miss Brasil Gay, que neste ano celebrou cinco décadas de história. A programação reuniu candidatas de diferentes estados e personalidades conhecidas, como Viviane Araujo e David Brazil.
A grande vencedora da noite foi Allessa Paes, representante do Pará, que conquistou o título de Miss Brasil Gay 2026. Mary Miller, do Distrito Federal, ficou com a segunda colocação, enquanto Wend Caster, representante do Rio de Janeiro, terminou em terceiro lugar.
Criado em 1976 pelo cabeleireiro Francisco Mota, conhecido como Chiquinho Mota, o concurso nasceu durante o período da ditadura militar no Brasil, unindo elementos do Carnaval e do transformismo artístico. Ao longo das décadas, o evento se consolidou como um espaço de celebração da diversidade, visibilidade e expressão artística. Em 2007, o Miss Brasil Gay foi reconhecido como patrimônio imaterial de Juiz de Fora.

Artista que faz parte dessa história
Entre as pessoas que ajudaram a manter viva a tradição do concurso está a drag queen, cantora e apresentadora TI Tiago, artista de Juiz de Fora que há 15 anos leva o trabalho para diferentes partes do Brasil e do mundo. A relação com o Miss Brasil Gay, no entanto, começou muito antes de sua estreia nos palcos.
"Minha ligação vai da minha história, da minha infância e adolescência. Eu ficava encantado com o que acontecia no concurso. Não podia ir, então ficava empolgado com meus pais contando e via aquela loucura de transformistas e travestis no calçadão", contou ao iG.

O sonho de fazer parte daquele universo se tornou realidade em 2019, quando TI Tiago recebeu um convite para subir ao palco do evento. Desde então, passou a integrar diferentes momentos da programação e, em 2026, viveu uma experiência ainda mais simbólica ao participar da celebração dos 50 anos do concurso.
"Fazer parte dos 50 anos do Miss Brasil Gay é mais que um reconhecimento. É um privilégio, é respeito à diversidade e uma visibilidade imensa. Estar naquele palco tão importante para a cena do país e do mundo foi um presente", afirmou.
Segundo o artista, mesmo depois de tantos anos participando do evento, a emoção continua a mesma. Para preparar suas apresentações, ele reúne bailarinos, efeitos especiais e uma equipe dedicada à produção dos shows.
Símbolo de Juiz de Fora
Para TI Tiago, a importância do Miss Brasil Gay ultrapassa os limites do concurso. O artista considera um privilégio para Juiz de Fora ser a cidade onde nasceu e se mantém uma celebração tão importante para a comunidade LGBTQIA+.
"É o evento de beleza mais antigo do país e acontecer aqui na nossa cidade, ser de Minas Gerais, é um presente imenso. Estar aqui por isso é muito importante", destacou.
A representatividade também se conecta diretamente com sua trajetória artística. TI Tiago já participou de reality shows, programas de televisão e eventos ligados à comunidade LGBTQIA+. No último ano, realizou apresentações nos Estados Unidos e, mais recentemente, levou sua arte para diferentes países da Europa.
Além dos trabalhos como drag queen, ele atua como DJ, cantor e apresentador, produz eventos e participa de iniciativas voltadas à cultura e à comunidade LGBTQIA+ em Juiz de Fora. Entre os projetos estão festas, bloco de Carnaval e ações relacionadas à Semana do Orgulho.
"Sou uma drag de Minas e todo esse reconhecimento e carinho do público, conseguir chegar a lugares que nunca pensei que chegaria através da minha arte, é o maior reconhecimento", afirmou.

Arte como resistência
Ao falar sobre o legado deixado pelo Miss Brasil Gay, TI Tiago destaca principalmente as oportunidades abertas para artistas e jovens que encontram no transformismo e na arte drag uma forma de expressão.
"Ser transformista, ser drag queen, já é um ato político, já é um ato de resistência. A partir do momento que existe um evento como esse, que abre portas para artistas e para essas misses que têm um sonho, isso é muito importante", avaliou.
Para ele, o concurso também contribui para ampliar o reconhecimento de uma manifestação artística que ainda enfrenta dificuldades para conquistar espaço no país.
"O Miss Brasil Gay vai muito além de uma competição. Ele deixa um legado de respeito, diversidade e valorização da cultura do transformismo", afirmou.
O artista também fez questão de reconhecer quem esteve à frente do concurso antes de sua geração. Para ele, a continuidade do evento só foi possível graças ao trabalho de artistas, organizadores e personalidades que ajudaram a construir essa trajetória ao longo de cinco décadas.
"Temos que valorizar muito quem veio antes de nós, todas as pessoas que fizeram acontecer nesses 50 anos, principalmente o Chiquinho Mota, que deu início a tudo isso", declarou.

Futuro do Miss Brasil Gay
Na avaliação de TI Tiago, manter uma tradição por tantos anos exige trabalho coletivo e valorização da cultura. Ele ressalta que a realização de um evento desse porte não é simples e que os preparativos para uma nova edição começam praticamente assim que a anterior termina.
"É um evento que tem várias mãos. O trabalho para o ano que vem já começa agora. A cultura não é fácil no Brasil e, sendo LGBTQIA+, menos ainda. Por isso temos que valorizar muito todos os organizadores", afirmou.
