A bandeira arromântica apresentam faixas em dois tons de verde, um claro e um escuro, para se opor ao rosa (que representa romantismo); o cinza e o preto representam pessoas assexuais e não assexuais; o branco representa os relacionamentos platônicos
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A bandeira arromântica apresentam faixas em dois tons de verde, um claro e um escuro, para se opor ao rosa (que representa romantismo); o cinza e o preto representam pessoas assexuais e não assexuais; o branco representa os relacionamentos platônicos

“Você é uma pessoa fria e incapaz de sentir”. “Mas você nunca vai namorar?”. “Então você não gosta de beijos ou de fazer sexo?”. Essas são algumas frases e reações comuns às quais pessoas arromânticas se deparam ao falar sobre suas emoções. A arromanticidadade está dentro da comunidade LGBTQIA+ , mas é uma sigla negligenciada, pouco explorada e repleta de estranhamentos e mitos.

Falar sobre a forma de sentir determinados sentimentos, como o amor, o afeto e o desejo, já pode ser estranho por si só para pessoas que não se sentem confortáveis para se abrir. No caso de pessoas que têm orientações consideradas fora do comum, como no caso de pessoas arromânticas, essa barreira pode ser ainda maior. Isto porque o medo da rejeição, da incompreensão e de julgamentos impedem que essa identificação seja feita.

São definidas como pessoas arromânticas os indivíduos que não sentem inclinações românticas e não têm interesse de ter relacionamentos românticos com alguém. É o que explica Alexander Bez, psicólogo especializado em relacionamentos. Ele aponta que os principais sinais que indicam a arromanticidade são a falta de sentimentos ou atração romântica; falta de necessidade de ter um relacionamento romântico; ou mesmo a aversão ao romance.

Desiree Correia, psicóloga clínica e colaboradora da plataforma Sexo sem Dúvida, complementa que, à primeira vista, essa definição de sentir pode parecer estranha, mas é mais comum do que se imagina. “Quantas pessoas dizem que nunca se apaixonaram ou que nunca tiveram interesse por ninguém? É algo que sempre existiu, por mais que o assunto esteja vindo à tona agora”, afirma.

Como exemplo, ela fala de casos de pessoas em idade avançada que tiveram relacionamentos amorosos muito mais para ter alguém do lado ou para formar algo próximo a uma relação entre pessoas alorromânticas – ou seja, pessoas que têm sentimentos românticos. “Também pode ser que essa pessoa tenha desenvolvido um sentimento romântico em algum momento e, depois de um tempo, ele parou de aparecer, ou simplesmente a pessoa não desenvolveu esse interesse em nenhum momento da vida”.

Essas relações, a psicóloga explica, podem ser igualmente saudáveis. “Há relacionamentos em que há interesses em comum, carinho, respeito, cumplicidade, apoio… enfim, todas as necessidades que podem ser supridas”, aponta.

Como é o sentir de uma pessoa arromântica?

Um dos mitos mais associados às pessoas arromânticas seria de que, por não sentirem atração ou sentimentos atribuídos ao romantismo, essas pessoas não são capazes de amar. Bez afirma que é mentira. “A arromanticidade não vai determinar a capacidade de amar ou o que as pessoas arromânticas sentem pela família, por amigos e animais, por exemplo”, explica.

Por outro lado, nem toda pessoa arromântica é totalmente desprovida do sentimento de romantismo. O psicólogo afirma que existe uma área cinza de pessoas que podem ter esse tipo de atração em um nível menor ou maior, mas não igual a pessoas alorromânticas. “A atração pode aparecer durante um pequeno período de tempo, constantemente em um nível menor, de forma irregular ou ter um pico e depois ficar longos períodos sem sentir”, detalha.

Uma forma de sentir muito comumente expressada por pessoas arromânticas é um tipo de amor platônico ou sentimento exacerbado de afeto em relação a outro indivíduo, algo chamado de squish . O termo seria equivalente ao que se conhece como crush para pessoas alorromânticas. No entanto, a pessoa arromântica não tem interesse em um relacionamento romântico ao sentirem o squish : ela admira aquela pessoa (que pode ser um amigo ou familiar) a tal ponto que só deseja criar um vínculo, se sentir aceito e fazer parte do círculo social íntimo daquela pessoa, sem incluir o lado romântico.

Arromanticidade ≠ assexualidade

Por não terem sentimentos românticos, pessoas arromânticas são colocadas no lugar de alguém que não sente desejos sexuais ou afetuosos, como trocar beijos e carícias, por exemplo. “É importante a gente diferenciar o que é uma pessoa romântica de uma pessoa assexual. São coisas diferentes”, começa Correia.

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“Uma pessoa que se considera assexual não desenvolve interesse sexual. No caso das arromânticas, ela não desenvolve ou desenvolve baixíssimos níveis de amor romântico”, continua. Ou seja, por mais que não haja atração romântica, é possível sentir atração sexual ou gostar de trocar afetos comuns também entre pessoas alorromânticas. Ao mesmo tempo, há a possibilidade de uma pessoa arromânica também ser assexual. Bez acrescenta que essas necessidades variam de acordo com cada pessoa.

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Por que uma pessoa arromântica incomoda tanto?

Por serem vistas como “anormais” ou “frias”, as pessoas arromânticas enfrentam rótulos equivocados e julgamentos – que, aliás, podem vir de dentro da própria comunidade LGBTQIA+, que deveria ser um pilar de apoio importante. “A sociedade não está aberta para nenhum tipo de pessoa que está na borda ou que tem algo de diferente. Por isso, essas pessoas muitas vezes não falam sobre o que sentem ou não sentem por medo desse julgamento”, reforça Correia.

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O motivo para tornar a arromanticidade tão desconfortável, segundo Bez, é o fato de que o romantismo está presente em tudo no mundo. Basta reparar na forma como o amor romântico é retratado, por exemplo, na arte. Seja em filmes, livros, peças teatrais, novelas ou em pinturas, a aloromanticidade e as relações aloromânticas são majoritariamente retratadas e, consequentemente, normalizadas. Ao não se abordar arromanticidade, cria-se a ilusão de que ela não existe.

Não apenas isso, mas essas obras, somadas às normas sociais em si, acabam criando um senso comum do que é normal ou não quando se trata em amor, paixão e relacionamentos. “O amor romântico é visto como uma das ou a mais importante fonte de amor, e isso é reforçado na cultura. Sendo assim, as pessoas relacionam a falta de amor romântico à falta de sentimentos, caracterizando a pessoa arromântica como uma pessoa incapaz de sentir qualquer outro tipo de amor ou sentimentos, quase como desumana, o que acaba gerando esse "incômodo" por ser diferente do ‘padrão romântico’", analisa Bez.

Correia acrescenta que essa exacerbação do amor romântico tem impacto direto no estado psicológico e emocional das pessoas arromânticas e/ou assexuais. “A pessoa se sente excluída e diferente de todos os outros quando, na verdade, é necessário fazer uma reflexão de que as diferenças unem o ser humano. Ser arromântico está dentro de um espectro. Duas pessoas que se consideram arromânticas são muito diferentes uma das outras”, afirma.

A psicóloga explica ainda que o ideal seria que a sociedade fosse aberta para falar sobre a diversidade sexual, de gênero e romântica para, assim, dar confiança e conforto para que pessoas arromânticas (e LGBTQIA+ em geral) possam falar sobre si mesmas e suas particularidades.

“A gente não chega em alguém e se apresenta, na cara, como assexual, hétero ou bissexual. A gente não tem porque falar disso para todas as pessoas, mas é claro que seria muito interessante para nossa sociedade que as pessoas falassem a respeito. Isso desenvolveria uma representatividade muito importante. Quando as pessoas se sentem parte de um todo, se sentem muito melhor”, pondera Correia.

O desconforto é tamanho que há uma dificuldade enorme para que pessoas arromânticas sequer se definam desta forma; ou seja, muitas podem ser arromânticas e não saber. A falta de diálogo sobre essa orientação romântica também cria essse dilema: com pouca informação e abertura para debater o tema, não é possível definir essa orientação com facilidade porque, devido às pressões sociais, o indivíduo pensa que está passando por um período "anormal" ou que o problema está nele mesmo.

As discussões sobre o tema não são acessíveis e nem ocupam um espaço central em pesquisas comportamentais ou sociais. A arromanticidade é discutida, principalmente, em fóruns na internet ou em grupos específicos nas redes sociais. Por receio de julgamentos, muitos destes relatos são feitos com perfis fake ou sob pseudônimos para garantir mais proteção e conforto no momento de se expressar. O resultado é uma consolidada (e restrita) comunidade arromântica digital onde é possível expressar medos, julgamentos e descobertas sobre a arromanticidade.

Quando procuradas pelo iG Queer para contar suas experiências e como se sentem para esta reportagem, optaram por não falar e continuar no anonimato digital.

Que tipo de apoio uma pessoa arromântica precisa?

Como a arromanticidade pode trazer sentimentos de incompreensão, solidão e uma certa desconexão para quem a sente, pode ser necessário buscar apoio. “Essa pessoa se sente de alguma forma excluída e se percebe como uma estranha”, diz Correia. A psicóloga explica que, neste momento, pode ser interessante falar sobre a orientação romântica para alguém de confiança.

Ela reforça ainda que a arromanticidade não é uma doença, transtorno ou distúrbio mental; tampouco se trata de uma fase. Por isso, buscar ajuda de um profissional não é uma maneira de “converter” ou “tratar” esse tipo de orientação romântica.

“Uma pessoa pode buscar ajuda se se sentir desconfortável ou se quiser entender os porquês de não formar conexões mais profundas com as pessoas. Não existe uma cura porque não há nada para se curar. Se busca ajuda para compreender e lidar melhor com a situação”.

Para pessoas alorromânticas que se deparam com alguém arromântico, Bez afirma que é preciso diálogo. “Pode ser difícil no começo, mas ser arromântico é uma orientação romântica válida como qualquer outra. Buscar informação também faz toda a diferença”, afirma o psicólogo.

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