Entenda a perspectiva profissional por trás dos obstáculos enfrentados por mulheres trans ao buscarem atendimento urológico
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Entenda a perspectiva profissional por trás dos obstáculos enfrentados por mulheres trans ao buscarem atendimento urológico




O acesso à saúde por pessoas transgênero é uma pauta recorrente quando se trata do acesso, da qualidade do atendimento e da disponibilidade de profissionais capacitados para tal. Desde a abordagem até a instrução correta para atender esse público em todas as especificidades, existe um processo complexo e cheio de desfalques, especialmente se forem feitos recortes, como no caso de mulheres transgênero. Para entender a perspectiva interna e profissional dessas problemáticas, o iG Queer conversou com urologistas que possuem experiência no atendimento a mulheres trans.

O médico Leonardo Lins, urologista e assistente da disciplina de urologia da FMABC (Centro Universitário Faculdade de Medicina do ABC), destaca como a demanda por profissionais que tenham competência para atender mulheres trans subiu, mas, em contrapartida, a quantidade de médicos que saibam lidar com esse público ainda é pequena.

“A busca por profissionais capacitados a atender o público só aumenta ao meu ver. No entanto, ainda carecemos de profissionais bem treinados para exercer esse cuidado tanto com relação a questões técnicas como no que diz respeito a uma abordagem acolhedora, não julgadora e não estigmatizante. O receio com relação ao tipo de atendimento médico que será ofertado ainda faz com que a maioria deixe de procurar o médico, piorando os índices de saúde desta população em geral”. 


Sobre a falta de capacitação profissional, o urologista Juan Pablo Suarez Barberan destaca principalmente que os centros formadores não oferecem suporte para que os médicos recebam as devidas instruções para lidar com públicos que sejam divergentes da normativa cis-hétero. “A maioria dos centros formadores nas áreas de saúde não possuem áreas específicas ou grupos multidisciplinares para atendimento a este grupo, o que acaba por não produzir um mercado de especialistas para atender às demandas específicas desta população”. 

Em vista disso, Leonardo chama a atenção para o fato de que as mulheres trans normalmente recorrem ao SUS (Sistema Único de Saúde), por ser a principalmente referência no cuidado de pessoas transgênero, mas isso limita o acesso desse público, afinal os cuidados não se restringem apenas à terapia hormonal ou à cirurgia de redesignação. 

“Boa parte do cuidado das mulheres trans, no que diz respeito à saúde geral e prevenção, acabam se restringindo a centros de referência do SUS situados nas grandes cidades. A saúde da mulher trans vai muito além das questões relacionadas ao processo de hormonização ou cirurgias de redesignação sexual. Há de se ter um olhar voltado à saúde dela e bem-estar como um todo, dando atenção aos problemas biopsicossociais mais frequentes nesta população”, explica. 

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Mesmo quando há o acesso aos consultórios, as preocupações não se encerram. Saber se o profissional irá ou não atender a paciente de maneira adequada pode gerar insegurança, e o médico Juan comenta sobre as queixas que já ouviu com relação a isso. 

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“Muitos pacientes nos relatam sobre a severa discriminação na identidade de gênero, quando chamados pelo nome do registro civil ao invés do nome social ou até mesmo pela forma de tratamento quando relatam as preocupações ou experiências de vida relacionados à saúde. Algumas dizem nunca terem sido examinadas pelo profissional da saúde justamente pela identidade de gênero”, conta ele. 

Leonardo complementa este tópico trazendo à tona a insegurança que se percebe por parte das mulheres trans dentro dos consultórios. Ele ainda faz um apelo pela melhor conduta dos profissionais para que as queixas e desconfortos possam ser sanados. 

“Tendo um pouco de sensibilidade não é difícil de perceber que, num primeiro momento, a mulher trans se sinta insegura quanto à abordagem que será utilizada pelo profissional da saúde, e isto pode ser quebrado ou não a depender muito de como o profissional se comporta no atendimento. Cabe aos médicos, desde a recepção, criar um ambiente inclusivo e preparado, e isso só vai ocorrer de forma efetiva com investimento em educação, desenvolvimento técnico e humano”, declara.

Para que as problemáticas citadas sejam solucionadas, é preciso dar atenção à formação dos profissionais. Leonardo dá seu exemplo pessoal e destaca que, durante sua formação, não recebeu orientações acerca de como lidar com mulheres trans. 

“Estou formado há 13 anos e não me recordo de ter tido uma formação técnica específica para pacientes trans. Durante o aprendizado no hospital, quando atendíamos uma paciente trans, sempre surgiam dúvidas de como realizar a melhor abordagem. Já formado e por desejo próprio é que precisei me capacitar no sentido de oferecer atendimento de excelência para todos. Hoje o cenário mudou um pouco para melhor, pois vejo uma mobilização maior no sentido dos próprios alunos, por intermédio de ligas acadêmicas, buscarem informação fazendo com que algumas faculdades hoje já tenham na grade curricular a atenção à saúde LGBTQIA+”, declara.

Dentre os atendimentos e orientações mais demandados pelas pacientes, Juan destaca os cuidados e prevenção de DSTs e questões relacionadas ao sistema urinário. “As principais demandas geralmente são relacionadas à sexualidade. Orientações sobre DST, vias sexuais e sobre doenças do aparelho urinário que podem estar relacionadas à presença da próstata, por exemplo. Afinal, essas pacientes devem realizar o rastreio para neoplasia, conforme os protocolos internacionais realizados pelos homens, prevenindo o câncer de próstata e diagnosticando precocemente para instituir tratamentos adequados”, conta.

Para garantir que todas as mulheres trans sejam atendidas nas devidas particularidades e para que os profissionais, em especial, estejam preparados para atender o público de maneira adequada, respeitando as identidades e vivências, é fundamental que a diversidade seja uma pauta recorrente, como declaram os médicos. 

“Trata-se, ao meu ver, de tratar seres humanos como seres humanos. Somos agentes promotores de saúde e temos a obrigação de buscar sempre a melhor forma de trazer o melhor cuidado a todos os pacientes, sem distinções”, comenta Leonardo. 

“Debater diversidade é promover inclusão na saúde de determinados grupos dentro de nossa sociedade. Dentre os princípios doutrinários do Sistema Único de Saúde, estamos contemplando a equidade, ou seja, o atendimento aos indivíduos de acordo com suas necessidades”, conclui Juan.

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