O que é bifobia? Entenda o preconceito que Lucas Penteado sofreu no "BBB 21"

Pessoas bissexuais falam sobre o que é bissexualidade e contam sobre suas vivências


Foto: Reprodução
Bandeira Bissexual


primeiro beijo entre dois homens do Big Brother Brasil , protagonizado pelo ator Lucas Penteado e o doutorando em economia Gilberto Nogueira , na madrugada do domingo (7), gerou um  show de bifobia dentro do reality.


Parte dos participantes do programa -- dentre eles Lumena Aleluia , Karol Conká , Pocah e Nego Di -- acusaram Lucas de usar o beijar em Gilberto como forma de estratégia para ganhar destaque dentro da casa, invalidando e questionando a bissexualidade dele. Na manhã do domingo, após se assumir publicamente como bissexual, Lucas saiu do programa. 

A bifobia, discriminação contra bissexuais, surge de pessoas heterossexuais e até do próprio movimento  LBTQIA+ que não consideram a bissexualidade como uma orientação válida. Para muitos, só se pode ser gay, lésbica ou hétero. Além disso, a bifobia faz com que os bissexuais sejam taxados de indecisos, confusos e promíscuos.

O psicólogo e especialista em sexualidade humana, Claudio Picazio , desmente esses estereótipos. “Uma pessoa bissexual não é uma pessoa que é cheia de dúvidas a respeito da sexualidade ou que precisa transar com todos os gêneros. Ela tem a capacidade de vincular e se realizar eroticamente com quem ela está”, diz.

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Lucas e Gil se beijam durante festa



O que é ser bissexual, afinal?

O criador de conteúdo Nick Nagari é bissexual e uma pessoa não-binária, isto é, não se classifica exclusivamente com o gênero masculino ou feminino. Para ele, ser bissexual é se atrair e se apaixonar sem que o gênero seja um critério definidor, desta maneira a atração pode abranjer também o não-binário. “Cada um vive a bissexualidade à sua maneira. Pode ter preferências ou não, isso não invalida a bissexualidade”, diz.

"Não existe uma diferença prática entre bissexual e pansexual, porque ambos representam o mesmo conceito. O que acontece é que os movimentos surgiram em contextos diferentes e, por isso, existem motivos diferentes para se identificar com cada rótulo. O Manifesto Bissexual é de 1990 e ele já deixa bem claro que a bissexualidade não é binária, politicamente sempre esteve do lado de pessoas trans", explica Nick.

Foto: Reprodução / Instagram nicknagari
Nick Nagari é produtor de conteúdo sobre transexualidade e bissexualidade


As pessoas bissexuais podem ter atração majoritária -- mas não exclusiva -- a um gênero e se envolver mais com um do que com os outros. “É muito difícil encontrar alguém que seja bissexual e seja 50-50%. A sexualidade é mais fluida”, explica o psicólogo.

Na adolescência, o youtuber Klébio Damas , do canal Mundo Paralelo , teve dificuldade de compreender sua orientação sexual. “Foi bem confuso. Ninguém fala que você é bi, sempre que eu era gay ou hétero. Não conhecia nenhuma pessoa bissexual, na minha cabeça era como se não existissem”, lembra. Ele então compreendeu que era bissexual quando se mudou do interior do Rio de Janeiro para São Paulo e conheceu outras pessoas da comunidade.

“Toda vez que você diz que é bissexual, você tem que ficar provando a sua sexualidade diversas vezes, tem de falar que beijou alguém do sexo oposto. Parece de fato que você precisa ter uma carteirinha da bissexualidade e provar para as pessoas que está apto para aquilo”, explica Klébio.

Bifobia e Invisibilidade: o B não é de biscoito

Na noite em que rolou o beijo entre Lucas e Gilberto no BBB, Lucas disse que tinha medo de não ser aceito pela família e em sua comunidade como jovem negro, periférico e bissexual. No lugar de ser acolhido pelos brothers e sisters, recebeu questionamentos sobre sua orientação de algumas pessoas LGBTQIA+ da casa.

“Somos colocados em um não-lugar em que o ciclo hétero-cis não nos tolera, pois desviamos da norma heterossexual e o ciclo LGBTQIA+ não nos acolhe. Inclusive, essas questões ficaram bem evidentes na forma que o Lucas foi tratado ao assumir sua sexualidade”, explica Nick.

Para ele, a bifobia ocorre no momento em que a bissexualidade é ignorada e as pessoas bissexuais são classificadas com base em seus relacionamentos atuais. “Nossas vivências não se resumem aos relacionamentos que temos”.

Klébio relata que ainda hoje passa por situações de bifobia por pessoas do meio LGBTQIA+. “Quando eu falo que sou bi, tem uma velha ‘piada’ que é 'bi de bixona', 'você está só se aceitando'”, relembra.

Foto: Reprodução/Instagram klebiodamas
Klébio Damas é bissexual e youtuber


Conforme estudo realizado pela Universidade La Trobe, em Victoria, na Austrália, pessoas bissexuais sofrem mais em relação à saúde mental, em razão ao questionamento que é imposto a eles em todo instante, aliado à falta de apoio psicológico e emocional. Segundo estudo, um em cada quatro bissexuais tentou suicídio e quase 80% consideraram a automutilação ou pensaram em cometer suicídio.

"A pressão é muito grande. Todo mundo chama o bissexual de indeciso, então as pessoas ficam pressionando para que ele vá de um lado ou de um outro", explica o psicólogo Claudio.

Apesar de situações de bifobia que ocorrem tanto dentro quanto fora da comunidade LGBTQIA+, Klébio acredita que as pessoas, especialmente os mais jovens, têm se identificado e compreendido mais a causa bissexual. Para os que ainda estão se descobrindo, ele dá um conselho:

“Eu sei que às vezes a gente quer entrar muito em uma caixinha, se identificar com algo e as pessoas perguntam, te pressionam. Não se force. Estude e escute outras pessoas. A internet está aí para isso e viva suas experiências.”