Bandeira LGBTQIA+ em um estádio de Salvador
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Bandeira LGBTQIA+ em um estádio de Salvador

As arquibancadas dos estádios de futebol são pouco convidativos para torcedores LGBTQIA+. Casos como o de Yuri Senna, empreendedor social de 24 anos, que foi assistir ao jogo do Cruzeiro contra o Vasco, no Mineirão (BH), e acabou hostilizado por abraçar o namorado, são prova disso.

Em setembro de 2019, Yuri e o namorado, Warley Santos, também de 24 anos, foram alvos de vaias e xingamentos de torcedores. “Nossa primeira reação foi ter muito medo, até de sermos reconhecidos na rua e sofrer violência”, contou ele à revista Veja, na época. A história se espalhou quando o vídeo — que foi usado para constranger o casal — foi postado por Yuri no Twitter como declaração de amor ao namorado.

João Vitor, engenheiro e criador do Porcoíris, perfil no Instagram de torcedores LGBTQIA+ do Palmeiras, confirma que ser torcedor e homossexual nem sempre é um caminho fácil. “O ambiente dos estádios tem muita homofobia, não é seguro para nós que somos LGBTs. Fundei esse projeto porque sentia falta de espaço, de algo que incluísse a gente na torcida. O Porcoíris é uma forma dos LGBTs terem um lugar seguro na torcida, mesmo que longe da arquibancada”, diz.

“Tentei militar sozinho, usando meu perfil pessoal. Teve um cara, se dizendo dono da torcida do Palmeiras, que disse que eu estava expulso”, conta João, que já sofreu outros ataques. A “expulsão”, recebida via mensagem, não passou de um ataque de ódio, enviado pelo perfil de um homem que não tinha relação alguma com a presidência do clube.

Para os seguidores mais ativos, o Porcoíris tinha um grupo no WhatsApp para conversar sobre futebol. Segundo João, uma vez, um hater se infiltrou para provocar os torcedores LGBTQIA+. “Ele entrou, nos ofendeu e ficou mandando fotos de formas fálicas no grupo. Foi constrangedor”.

Para evitar esse tipo de situação, hoje, os administradores selecionam com mais cuidado quem entra no grupo, que agora é hospedado no Telegram. O aplicativo de troca de mensagens, concorrente do WhatsApp, permite ocultar seu número de telefone para outros usuários, incluindo participantes de um mesmo grupo.

O Porcoíris realiza transmissões coletivas dos jogos do Palmeiras. É uma maneira de os torcedores LGBTQIA+ assistirem aos jogos juntos e em um lugar seguro -- suas respectivas casas --, pelo menos durante a pandemia do novo coronavírus (Sars-coV-2).

Porcoíris no Allianz Parque, em São Paulo
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Porcoíris no Allianz Parque, em São Paulo

Para João Vitor, por mais que esteja apenas no on-line, o Porcoíris é uma forma de exigir respeito aos torcedores LGBTQIA+. “Não criei o coletivo só por causa do preconceito no futebol, mas como uma forma de fazer com que o clube e os demais torcedores nos reconheçam e nos respeitem, dentro e fora dos estádios”, explica.

O administrador do coletivo não nega o medo de ir ao Allianz Parque, estádio do Palmeiras, em São Paulo. “É importante que a gente possa ir ao estádio sem medo. E, quando falo de medo, não é só de agressão física, mas de várias outras intimidações. Mesmo que as pessoas não te xinguem, elas sempre dão um jeito de fazer alguma gracinha."

Recentemente, graças a uma campanha, o Porcoíris conseguiu um feito histórico: hastear a bandeira LGBTQIA+ no Allianz. Apesar de exposta uma única vez, durante uma partida do Campeonato Brasileiro (em 2 de novembro de 2020), o acontecimento foi altamente comemorado nas redes sociais.

A página mais colorida da história do futebol

Torcida Coligay reunida
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Torcida Coligay reunida

O Porcoíris ainda não é uma torcida acolhida pelo clube. No Brasil, um dos poucos grupos LGBTs que conquistaram esse “privilégio” foi a Coligay, extinta torcida LGBT do Grêmio (1977-1983), organizada por Volmar Santos, um gerente de boate. 

Novo na praça, com cerca de um ano e meio de atividade, o líder do Porcoíris não esconde a vontade de se tornar uma grande torcida reconhecida. Apesar dos ataques que recebe, ele conta que o número de palmeirenses LGBTQIA+ que seguem o projeto tem aumentado.

“A resposta tem sido muito positiva, um ou outro entra no perfil com ameaças veladas. O apoio é imensamente revigorante. Nós só não somos uma torcida ainda porque a pandemia atrapalhou tudo”, diz ele, que quer unir os seguidores do Porcoíris em uma ida ao estádio: “Assim que possível, nós pretendemos, sim, ir. Juntos nos sentimos mais seguros. Deixa só melhorar essa questão da Covid-19.”

Para Léo Gerchmann, autor do livro “Coligay: Tricolor e de Todas as Cores”, a torcida do Grêmio, infelizmente, foi uma exceção. “A Coligay foi uma torcida acolhida pelo clube, tinha até um espaço físico no estádio para guardar faixas e instrumentos. Ela só terminou porque Volmar Santos, o idealizador do projeto, teve que voltar para a cidade natal dele”, conta. De acordo com o escritor e jornalista, à época, a mãe de Volmar estava doente. Sem a presença do criador, o movimento foi perdendo força até sua extinção em 1983.

“Além de tudo, a torcida figurou no tempo da ditadura. Naquela época, se alguém assumisse ser homossexual virava um pária social. Era uma coisa muito mais pesada do que hoje em dia. O Grêmio ter acolhido a torcida naquele tempo é, para mim, uma das páginas mais lindas da história do clube”, diz o escritor.

Para se tornar uma torcida como foi a Coligay, o Porcoíris precisa do apoio direto do clube, o que -- para infelicidade dos grupo -- parece um pouco distante. Segundo João, um contato para reconhecimento até foi feito, mas ignorado. O único diálogo entre as partes foi em relação à bandeira no estádio e, mesmo assim, a conversa foi definida como “fria” pelo torcedor.

“Ficamos felizes de ter havido essa abertura [o hasteamento da bandeira]. Sabemos que é uma luta de formiguinha. Porém, uma hora não vai ter como escapar, o clube não vai poder nos ignorar para sempre”, afirma João.

O 24 e seu simbolismo

Brenno Fraga
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Brenno Fraga

Entre o estádio e o gramado, o simbolismo também se mostra uma grande fonte de preconceito. Em janeiro de 2020, Victor Cantillo, jogador colombiano, que atua como volante, foi contratado pelo Corinthians.

Em sua apresentação ao clube, o diretor Duílio Monteiro o entregou a camisa de número oito e disse: “24, aqui, não”, fazendo referência à camisa que o jogador usava no Junior Barranquilla, o terceiro clube mais antigo da Colômbia.

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A declaração rendeu polêmica. Após pressão, o time voltou atrás na decisão e designou a camisa 24 para o colombiano. O estigma com o número é tão grande que a camisa é raramente vista nos campos brasileiros.

No exterior, onde não existe a associação do 24 ao veado, do jogo do bicho, a camisa é mais comum. Os times exigem uma equipe que tenha numeração de 1 a 30. Quando usada em solo nacional, ela, geralmente, fica para jogadores do banco ou goleiros.

Para dar uma ideia, em 2019, dos 20 times que disputavam a série A do Campeonato Brasileiro, apenas um tinha um futebolista com a camisa 24, o Grêmio.

Brenno Fraga, goleiro do Grêmio escalado com a camisa 24, não vê problema em vestir a blusa. “Não foi uma escolha minha, mas, também, não chegaram em mim e falaram para eu usar. Não vejo problema nenhum, não tenho esse pensamento [preconceituoso]. O importante é ir para os jogos e ajudar a equipe", diz o atleta. "Foi o meu número de estreia no Campeonato Gaúcho deste ano. Estreei em um Gre-Nal [duelo entre Grêmio e Internacional]. Então, vai ficar marcado na minha vida como uma coisa boa", completa.

O Porcoíris pediu, no início do ano, antes que lançassem a numeração, para que algum jogador do Palmeiras se voluntariasse a vestir camisa 24. Não houve resposta. "Temos que desfazer esse estereotipo. Além disso, é como se um gay não pudesse jogar futebol só por ser homossexual”

A reportagem procurou o Palmeiras, mas não obteve resposta da assessoria de imprensa do clube até o fechamento desta reportagem.

O que os clubes, de fato, estão fazendo

Faixa do Vasco pede respeito e igualdade
Foto: Carlos Gregório Jr./Vasco da Gama
Faixa do Vasco pede respeito e igualdade

Episódios de homofobia são constantes em jogos de futebol. Em agosto de 2019, a torcida vascaína entoou gritos homofóbicos: “Time de viado”, diziam os torcedores para a equipe adversária. Na ocasião, Vanderlei Luxemburgo, técnico do Vasco, usou o sistema de som do estádio para pedir respeito.

Apesar de conseguir acalmar os ânimos, à época, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) enviou uma notificação ao Vasco pedindo explicações sobre o ocorrido. Em resposta, o Vasco afirmou que tomou as providências quanto aos gritos homofóbicos. Além disso, um mês após o episódio, o time entrou em campo segurando uma bandeira com a citação “homofobia é crime”.

O Palmeiras, por sua vez, é investigado pelo Ministério Público de São Paulo. O órgão apura um vídeo, que viralizou nas redes, onde palmeirenses são expulsos do Allianz pela própria torcida após, supostamente, se beijarem na arquibancada.

Na ação, o Palmeiras aparece como réu por se omitir em adotar medidas para evitar a prática de homofobia contra torcedores em seu estádio em violação aos direitos humanos.

Procurado, o Palmeiras informou que tem feito campanhas educativas nas redes sociais para combater o problema. “Antes dos jogos no Allianz Parque, o clube também alerta os torcedores para que não haja manifestações homofóbicas”.

O Coritida, na semana que antecedeu o Dia Internacional da Homofobia (17 de maio de 2020), clube realizou um sorteio inclusivo. Quem saísse vitorioso ganhava um jantar romântico no gramado do estádio do time, o Couto Pereira. Detalhe: só casais LGBT puderam participar. 

O Internacional criou uma Diretoria de Inclusão Social em junho de 2019. O órgão surgiu com intuito de combater a homofobia no ambiente de jogo e conscientizar a torcida. Do projeto, além de campanhas, já saiu um canal exclusivo no WhatsApp para relatar episódios de discriminação no Beira-Rio, estádio do time.

Não tem jogador gay?

Justin Fashanu foi o 1º jogador de futebol inglês a expor publicamente sua homossexualidade
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Justin Fashanu foi o 1º jogador de futebol inglês a expor publicamente sua homossexualidade

Em julho de 2020, um caso ganhou destaque no universo esportivo. O jornal "The Sun", veiculado no Reino Unido, publicou uma carta anônima, que seria de um jogador da Premier League, grupo de times profissionais da Inglaterra. No anexo, o atleta britânico lista os motivos que o impedem de expor sua homossexualidade.

"Há algo que me diferencia de outros jogadores da Premier League. Sou gay. Até escrever esta carta é um grande passo para mim. Apenas meus familiares e um círculo de amigos íntimos sabem sobre minha sexualidade. Não me sinto pronto para compartilhá-la com minha equipe ou meu treinador", disse o jogador na carta.

"É difícil. Passei a maior parte da minha vida com esses caras e, quando entramos em campo, somos uma equipe. Apesar de tudo, algo em mim torna impossível que eu seja aberto com eles em relação ao que sinto. Espero, sinceramente, que um dia em breve eu possa fazer isso", acrescentou.

Atualmente, não há jogadores abertamente gays na Premier League. O único jogador que anunciou ser abertamente gay na Inglaterra foi Justin Fashanu, em 1990. Vítima de insultos e homofobia, o ex-atacante de Norwich e Nottingham Forest cometeu suicídio oito anos depois. Foi através da Fundação Justin Fashanu, liderada pela sobrinha de Justin, Amal Fashanu, que o jogador anônimo publicou a carta.

Citando o caso do jogador da Premier League, João Vitor fala sobre um jogador assumir-se abertamente gay nos dias atuais. “Isso é um dos motivos pelos quais a gente luta”. Léo Gerchmann acha que, se houvesse um jogador gay assumido, ele seria um símbolo. "Não seria fácil, devido ao preconceito, mas faria sucesso."

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